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21 de Outubro de 2006 ⋅ Opinião

O apagamento dos filósofos?

Rolando Almeida
Escola Básica e Secundária Gonçalves Zarco, Madeira

José Gil, revista Visão, N.º 710, publica o artigo, "O apagamento da Filosofia?" (p. 186). Subscrevo a mesma preocupação, mas não tenho a certeza se estas coisas ditas pelos próprios filósofos, não acabam por dar argumentos às gentes do Ministério para acabar de vez com a Filosofia. O efeito duma postura destas por parte do Ministério teria consequências muito negativas para a filosofia e para a cultura portuguesa.

É simples: podemos pensar que a Alemanha ou Inglaterra não têm Filosofia no ensino secundário como disciplina obrigatória. Com efeito, falamos de países cuja cultura filosófica é muito sólida. A prová-lo é a enormidade de edições em filosofia que saem todos os meses. Produz-se muita filosofia nestes países. As melhores universidades norte-americanas têm departamentos altamente sofisticados de filosofia. Em Portugal é um deserto em filosofia e em filósofos empenhados e activos (mas temos muitos pensadores tão profundos que nem ousam publicar porque ninguém os entenderia, mesmo que refira aqui o respeito enorme que tenho pela obra de José Gil).

Estes filósofos, como o Professor José Gil, em vez de se porem nas revistas aos gritos que a Filosofia vai acabar, deveriam escrever introduções à filosofia que pudessem ser lidas fora das especializações mais sofisticadas. Se fizessem este trabalho, nenhum Ministério seria capaz de erradicar a Filosofia do ensino secundário, porque daria oportunidade às pessoas para trabalharem. Quem ousa acabar com uma actividade que produza?

Mas que fazem estes filósofos e professores universitários além de reproduzir conhecimentos complexos? Nada publicam que tenha em interesse da filosofia, não mostram trabalho e, depois, é fácil acabar com esta disciplina no ensino secundário e, por conseguinte, como não temos a tal solidez na cultura, acaba-se com a filosofia no ensino superior, suspendem-se exames nacionais de Filosofia para ingresso na universidade e reduz-se o número de publicações, traduções, conferências, etc. Deixa de existir um público e, sem público, nada justifica a existência de uma actividade, principalmente, quando, nos tempos que correm, uma disciplina como a Filosofia, num país como Portugal, goza de tão pouco prestígio social.

Como professor de Filosofia no ensino secundário, tenho um Blog (que seria de certeza muito criticado nas mãos desses especialistas — quando o que realmente faço é arranjar-lhes clientela), um projecto de Filosofia para Crianças aprovado pelo Conselho Pedagógico da Escola na qual lecciono, insisto para que se realizem acções de formação na área disciplinar... Enfim, só ainda não me lembrei de escrever para os jornais a anunciar uma morte que ainda nem sequer aconteceu.

Compreendo e partilho das preocupações de José Gil. Em qualquer caso, acho estranho que seja um filósofo a escrever sobre tal assunto, como escreve, numa publicação nacional. Não teria tanto mais proveito o filósofo escrever sobre a própria filosofia divulgando-a e ao mesmo tempo desmitificando aqueles preconceitos de que a filosofia não serve para nada e outras tontices iguais? Quando me preocupo com a saúde, trabalho para a melhorar, faço exercício físico, melhoro a qualidade da alimentação. Não me ponho a correr o mundo a afirmar que estou doente, que deveria comer melhor, fazer mais exercício, etc. Se o fizesse, seria sensato que me perguntassem por que não como melhor, por que não faço exercício, etc.

A tese central de Portugal Hoje: O Medo de Existir, o best-seller de José Gil é que há uma marca distintiva da mentalidade portuguesa: a sua dificuldade em inscrever a teoria na acção. Será uma tese autobiográfica?

Rolando Almeida
rolandoa@netmadeira.com
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