Farol Laranja, de Giampaolo Macorig
6 de Novembro de 2006 ⋅ Opinião

Ciência Aberta e filosofia viva

Desidério Murcho

Quando a Gradiva lançou a colecção Ciência Aberta, em Junho de 1982, operou-se uma mudança na semântica da expressão "livros de ciência". Até então, a expressão significava, aproximadamente, "calhamaço ininteligível cheio de fórmulas". Os portugueses associavam à ciência as enormes "secas" do ensino secundário, em que nunca se percebia bem que relação tinham todas aquelas fórmulas com o mundo real, e o original método adoptado nas universidades, que consistia em importar diligentemente do estrangeiro a ciência com mais de oitenta anos, repetir experiências mecânicas nos laboratórios depauperados e chumbar o maior número possível de alunos. À parte alguns excelentes divulgadores isolados, como os grandes António Manuel Batista e Rómulo de Carvalho, "ciência", no Portugal de então, era sinónimo de "seca". Neste clima, publicar livros de ciência era uma aposta editorial delirante, dada a falsa noção que se tinha do que a ciência efectivamente era.

Tudo mudou com a Ciência Aberta — mas não mudou de um dia para o outro. Levou anos a vencer os disparates que a princípio se ouviam: que aqueles autores não eram realmente cientistas, no sentido académico do termo; quando se respondia dizendo "Mas são todos doutorados!" a resposta era que os doutoramentos americanos não eram bem como os nossos, eram apenas uma espécie de licenciatura rasca. Sagan, Reeves, Dawkins, Gould ou Feynman não eram académicos para se levar a sério, mas meros divulgadores ignorantes. E aqueles livros — horror! — não eram evidentemente Ciência (com maiúscula e gravata), dado que nem sequer tinham fórmulas nem uma linguagem terrorista. Como poderia tal coisa ser ciência?

Hoje, quase vinte e quatro anos volvidos, parece inacreditável que as universidades e o ensino tenham reagido deste modo aos livros da Ciência Aberta. Mas é esta a mentalidade que Salazar nos legou. Felizmente, esta situação está hoje em grande parte ultrapassada, e temos até uma nova geração de excelentes divulgadores portugueses, que são também cientistas, como acontece com o grande Jorge Buescu, Nuno Crato, Carlos Fiolhais, Jorge Dias de Deus e outros.

Nos dez anos em que este cronista coordenou a colecção Filosofia Aberta (de 1995 a 2005), assistiu-se, e ainda se assiste, ao mesmo tipo de reacção perante a filosofia. A primeira ideia é que a filosofia é coisa para poucos; coisa aborrecida, com muito palavreado terrorista e de nulo interesse para o leitor comum. A segunda, é que os autores publicados não são bem filósofos — e lá vem a história dos doutoramentos estrangeiros rascas. Para a generalidade dos leitores e livreiros, a semântica do termo "livros de filosofia" ainda não se alterou — é ainda sinónimo de "lixo pretensioso que se vende muito mal". É precisamente por isso que nesta crónica se procura divulgar bons livros de filosofia. Livros inteligentes, despretensiosos, imaginativos, estimulantes; livros que apresentam a filosofia como realmente é, e não como o nosso retrógrado ensino a desfigura. Livros que raramente são publicados em Portugal, mas que são sucessos editoriais no estrangeiro.

Para muita gente, a filosofia é "aquela coisa com a qual e sem a qual tudo fica tal e qual"; "senso comum com palavras caras", diz-se por vezes. Efectivamente, este é o provincianismo que Salazar nos deu. Mas não temos de ficar agarrados a esta falsa noção. Devemos contribuir para que a filosofia deixe de ser entendida como um clube de cérebros mortos que gostam de dizer banalidades com uma linguagem enrolada e portentosa, exibindo superioridades académicas de ficção. Descobrir a verdadeira filosofia é um imperativo cultural e escolar.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (15 de Abril de 2006).
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