Haverá esperança?

Desidério Murcho

No grupo de discussão Argumentos, Aires Almeida, professor de Filosofia do ensino secundário, reagia esta semana com ironia a um folheto que o convidava a frequentar um curso de mestrado em "Filosofia da Natureza e do Ambiente" e no qual, entre outras barbaridades se podia ler expressões como "O Feminino como Filosofema", "problematizar o tema de uma natureza feminina nas suas relações com a natureza humana", "trabalhar um conceito na sua vertente dual", "a incindível relação Homem-Mundo", "a redenção cósmica", "reflexão centrada em torno de", "conceito-constelação", "analisar as modalidades como se reflectiram e projectaram na cultura portuguesa contemporânea os indicadores fundamentais da génese da hodierna crise ambiental", etc., etc. Aires Almeida concluía com um desabafo: se a filosofia é isto, o seu ensino devia ser banido das escolas.

Tenho corrido um pouco todo o país em conferências que visam divulgar uma forma séria de fazer filosofia. Para meu espanto, à generalidade dos professores do ensino secundário não passa pela cabeça a ideia de que é possível fazer filosofia mal. A ideia de uma prática intelectual insusceptível de erro é de tal forma extraordinária que se fica de boca aberta. Mas é precisamente esta ideia que explica a pseudofilosofia tal como é cultivada em Portugal.

Uma das tarefas críticas que costumo divulgar aos professores e estudantes nas minhas conferências é esta: experimente-se a negar toda uma afirmação aparentemente profunda e que raia a incompreensão, para ver se soa igualmente bem. Se sim, é porque a afirmação original não tem qualquer valor cultural. Assim, perante uma afirmação como "O Homem está numa relação incidível com a Natureza e o Outro", pense-se em "O Homem não está numa relação incindível com a Natureza e o Outro". Pouca diferença fazem estas duas afirmações, não é? Isso quer dizer que o único valor que elas têm é um certo poder hipnótico que têm, à custa de palavras caras e de uma sintaxe arrevesada. Mas tanto faz afirmá-la como negá-la.

Uma prática intelectual insusceptível de erro é uma má prática intelectual, que só pode subsistir graças a um manifesto atraso cultural. Este atraso cultural não afecta apenas a filosofia; afecta os estudos literários, a história, a sociologia, a psicologia e, sobretudo, as chamadas "ciências" da educação.

Um dos obstáculos ao desenvolvimento cultural do país é o academismo estéril e a frase arrevesada, que contaminam a Filosofia e tantas outras áreas do conhecimento em Portugal. Um intelectual, um professor, um autor, deve escrever para um público e deve escrever para ser entendido pelo seu público. Há uma exigência ética não apenas de seriedade académica e científica, mas também de acessibilidade. Um texto deve ser um meio de comunicação e de ensino e não uma forma de as pessoas se auto-promoverem através da aparente profundidade do que escrevem. E o que se diz de um texto, diz-se de uma aula. Já basta de palavras caras que nada querem dizer; de pseudo-intelectuais que escrevem para ninguém; de professores que falam para as paredes.

É preciso ensinar os nossos jovens, estimulá-los a ler e a estudar e não fazê-los pensar que o objectivo da vida intelectual é produzir textos que nos promovam e que poucas pessoas percebem. Enquanto não fizermos isto, estaremos precisamente a atrair não os jovens mais inteligentes e talentosos para a vida académica, intelectual e cultural, mas apenas os cinzentões que escondem a falta gritante de ideias e a incapacidade crónica de argumentação atrás de palavras caras e sintaxes bacocas. E o resultado, claro, é o que está à vista e que chocou Aires Almeida. Haverá esperança para este país? Depende de nós.

Desidério Murcho
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