Allegro, de Alain Lavoie
24 de Novembro de 2006 ⋅ Opinião

Pré-requisitos da filosofia

John Wilson

Acabei de tomar consciência (depois de muitos anos a tentar ensinar filosofia a todo o tipo de pessoas) do facto de que fazer filosofia exige um certo tipo de compromisso moral ou emocional: algo que Sócrates, penso, compreendeu claramente mas que pode valer a pena reafirmar e examinar.

Presumo que os filósofos se ocupam da verdade: e presume-se normalmente que um compromisso com a procura da verdade (ou da sabedoria, como a palavra "filosofia" implica) é o ideal que os filósofos devem prezar. Mas há um compromisso prévio — prévio tanto lógica como psicologicamente — sem o qual não se pode empreender a procura da verdade. Isto pode-se ver se tivermos em consideração o que seguramente são as nossas reacções normais a filósofos cujo trabalho é altamente obscuro. Ao ler (ou ao tentar ler) Derrida, por exemplo, fica-se com a impressão de que não estamos perante um caso de comunicação que deveria contribuir para o conhecimento público, mas antes que estamos perante uma espécie de desempenho. Tem um aspecto resplandecente, alusivo, por vezes emocionante, muitas vezes exasperante: um pouco como uma actuação a solo num espectáculo de variedades, ou como um monólogo poético. Só "comunica" no sentido em que uma obra de arte pode comunicar. Somos convidados, talvez, a partilhar uma imagem, um pouco como podemos partilhar imagens pintadas por crentes religiosos ou por romancistas. Mas podemos (também) sentir qualquer coisa como "Parece que ele não se quer dar ao trabalho de ser inteligível".

Mas por que razão devem os filósofos dar-se ao trabalho de ser inteligíveis? Não é apenas uma questão de boas maneiras. A verdade não é uma questão privada, mas sim pública; e qualquer pessoa que a procure seriamente tem não apenas de permitir mas de procurar activamente a crítica, e consequentemente a compreensão, alheias. Mais do que isso: tem de querer apresentar um trabalho que seja uma contribuição genuína numa linguagem pública — outras contribuições e linguagens são irrelevantes, a menos que voltemos ao espectáculo de variedades de Derrida. Assim, os filósofos têm de ter o desejo de se relacionar com outras pessoas. O tipo de relacionamento dos filósofos — discussão mútua, compreensão linguística minuciosa, o evitar preconceitos pessoais e a animosidade, etc. — é altamente sofisticado, exige atenção a aspectos pessoais e um contacto pessoal muito próximo, e tem muito que ver com as emoções. Não pode, portanto, existir um tal relacionamento sem um alto grau de fraternidade. (A discussão de Sócrates e Trasímaco nos primeiros livros da República de Platão é, neste contexto, relevante.)

John Wilson

Tradução de Desidério Murcho
Retirado da revista Cogito
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