Camponês, de Paul Cézanne (1839-1906)
21 de Dezembro de 2006 ⋅ Opinião

Em revista

Desidério Murcho

O mercado de revistas em Portugal sempre foi muitíssimo pobre. As únicas revistas que parecem vingar no nosso país, além das revistas femininas ou de moda e tendências, são as de actualidade — a ciência e a filosofia têm pouca ou nenhuma presença nos quiosques. Mesmo as revistas literárias ou dedicadas a livros não conseguem grande expressão. Revistas com o formato da Visão ou da Sábado sobre filosofia seriam uma aposta editorial delirante no nosso país? Talvez. Mas a verdade é que noutros países existem revistas deste género.

Na Inglaterra, que muita gente insiste em ignorar quando se pensa em filosofia, existem duas revistas de filosofia deste género: The Philosopher's Magazine e Philosophy Now. Dirigidas ao grande público, apresentam artigos, entrevistas, críticas a livros, passatempos e notícias de interesse filosófico. Jeremy Stangroom e Julian Baggini são os directores da primeira. Ambos doutorados em filosofia, o segundo é também autor de alguns livros introdutórios. O último número da revista é dedicado à filosofia "pop", discutindo temas como o Código de Da Vinci e a pornografia, e incluindo uma entrevista a Parsig, o célebre autor de Zen e a Arte de Manutenção de Motos. A revista tem presença na Internet, onde se pode ler alguns dos artigos publicados em números anteriores da revista. Filósofos destacados não se inibem de escrever nesta revista, como é o caso de David Papineau, com um interessante artigo sobre a tirania do senso comum, disponível na Internet.

A Philosophy Now foi fundada em 1991, mas rapidamente se tornou um fenómeno internacional, contando hoje com distribuição na Austrália, EUA e Canadá. Dirigida por Rick Lewis, o seu último número tem como matéria de capa a ética médica, que inclui temas como o xenotransplante de órgãos, a eutanásia e o aborto. Integra ainda uma entrevista à baronesa Mary Warnock, importante filósofa moral britânica, críticas a livros, análise de filmes e um conto ficcional com conteúdo filosófico. É possível assinar a revista através do seu site, assim como ler alguns artigos gratuitamente.

Talvez a característica mais notável destas duas revistas seja o facto de serem despretensiosas e não terem medo do humor. Nelas não se encontra aquela provinciana atitude que consiste em usar pretensiosamente umas palavras caras e umas referências eruditas para falar de banalidades — aquilo a que se pode chamar a prostituição da cultura: o uso da cultura para fazer brilhar o autor, por oposição a informar e formar o público. Talvez por isso estas revistas não sejam muito apelativas, para quem quiser usá-las para depois ir para o café mandar umas bocas pretensiosas. Mas são com certeza apelativas para quem gosta de se cultivar, de pensar em questões importantes e de conhecer um pouco melhor o fascinante mundo da filosofia.

Também no Brasil é possível fazer-se uma revista dedicada à filosofia. Chama-se Discutindo Filosofia e os primeiros três números constituíram um sucesso inesperado. Dirigida por Homero Santiago, esta revista é inteiramente colorida e profusamente ilustrada. Mais voltada para a história da filosofia, o seu último número tem Heraclito como matéria de capa, e aborda a sua influência na filosofia do séc. XX. Aborda ainda temas como a lógica, a filosofia para crianças, a estética e a filosofia da ciência.

Qualquer destas revistas é um exemplo a seguir em Portugal, contra a vontade dos poderes ministeriais, que uma vez mais tentam eliminar, pela calada, a filosofia do ensino secundário — e consequentemente das universidades.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (24 de Junho de 2006)
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte