Rapariga Azul a Ler, de Frederick Carl Frieseke (1874-1939)
22 de Março de 2007 ⋅ Opinião

Tempo para ler

Rolando Almeida
Escola Secundária Gonçalves Zarco, Funchal

Neste pequeno artigo quero discutir o tempo que reservamos para a leitura. Para tal pretendo discutir a premissa de que a vida é exigente e, por tal, não há tempo para ler. O argumento poderia ser formalizado do seguinte modo:

Se a vida é exigente, não há tempo para ler.
A vida é exigente.
Logo, não há tempo para ler.

O que penso é que este argumento é apoiado em premissas altamente discutíveis. Primeiro temos de discutir o que é uma vida exigente e, decorrente daí, se essa vida não nos possibilita tempo para ler.

Parece-me plausível aceitar que a vida possui as suas exigências, do mesmo modo que me parece plausível aceitar que todas as vidas em qualquer época e local parecem exigentes. A vida humana é exigente em múltiplos sentidos. Com efeito quero aqui deter-me, em particular, na premissa de que, perante a exigência da vida, inferimos que não conseguimos despender tempo para a leitura. De todo o modo poderia aqui avançar que, face às exigências da vida o melhor remédio é estarmos bem informados sobre a mesma e uma das formas mais sofisticadas de obtermos informação é pelos livros. Seria tão mais difícil o exercício da leitura se não tivéssemos livros a preços acessíveis. E também poderia questionar se a vida de Sócrates, por exemplo, não seria exigente. Poder-se-ia responder que Sócrates pouco leu e terei de aceitar. Mas posso exemplificar com aquele que considero o Sócrates moderno na ciência, Carl Sagan. Sagan escreveu dezenas de livros e centenas de artigos, foi pai, casado, astrónomo, fez programas de TV de divulgação científica, investigador durante toda a vida, viajou pelo mundo inteiro e, nos seus livros, cita centenas de livros que leu ou consultou revelando sempre um apreço invulgar pelos livros como transmissão de conhecimento. Ora bem, poderíamos questionar como tinha o cientista tempo para ler, educar os filhos, e todas as demais tarefas em que sempre se empenhou. Poderia citar outros exemplos de gente com vidas semelhantes.

O que está em causa, creio, não é o tempo para ler, mas precisamente os hábitos que Sagan, como muitos outros, tinha de leitura. Somos perfeitamente capazes, na nossa cultura, apesar das exigências e solicitações da vida moderna de ter tempo para ir à praia, ao cinema, ver uma partida importante de futebol, ficar acordados até mais tarde para ver o programa da entrega dos Óscares do cinema ou uma prova de fórmula 1. Do mesmo modo poderíamos produzir esse efeito para a leitura. Por que não o fazemos, então? Simplesmente porque não temos esse hábito formado e não reconhecemos grandes vantagens em fazê-lo. Porque o nosso contacto com a leitura é quase inexistente. Não nos leram livros quando éramos crianças. Quando, mais tarde, no ensino secundário, fomos obrigados a ler Os Maias de Eça de Queiroz, acabamos por rematar com um rotundo: "não gosto de ler".

Mas isto só acontece porque não temos o hábito da leitura. Provavelmente o professor que nos ensinou Os Maias também não tem hábitos de leitura e apenas conhece a obra do escritor português numa relação estritamente formal que o ensino universitário português lhe impôs. Dessa forma, é mais complicado para o professor ver na obra mais do que um conjunto de palavras gramaticalmente bem articulas, mas ocas de sentido. Deparámo-nos com um círculo vicioso que é difícil quebrar mas que é muito perigoso para a formação dos nossos jovens. Curiosamente, o nosso cérebro gosta de estar estimulado, do mesmo modo que as nossas papilas gustativas apreciam o doce e o nosso corpo exercício físico. Se não fizermos exercício físico o corpo tende a perder vigor mais depressa, tal como se não exercitarmos o cérebro com leitura, esse tende a dormitar e a acomodar-se.

Coloca-se aqui outra questão: nesse caso, ler, independentemente do que se lê, é bom? Num certo sentido, aquele que aqui aponto, o da leitura como estímulo, a resposta é que não, nem tudo o que lemos é igualmente proveitoso. Do mesmo modo, gostamos de comer, mas nem tudo o que comemos é proveitoso para o organismo, ou gostamos de chocolate, mas não de todo o chocolate. Na leitura acontece a mesma coisa. Há leituras que são mais estimulantes e outra menos. E preferimos as mais estimulantes. Por exemplo, um adolescente aprecia uma boa introdução à filosofia, como a de Thomas Nagel, Que Quer Dizer Tudo Isto?, mas dificilmente apreciaria a Crítica da Razão Pura, de Immanuel Kant. O livro de Nagel vai directo às suas preocupações introduzindo o neófito mas questões centrais ajudando-o a pensar, mas a obra de Kant exige outro nível de sofisticação. Seria o mesmo que pedir a um indivíduo que só corre uma vez por semana para, de repente, ir aos olímpicos correr com os profissionais da corrida. A leitura do pequeno mas estimulante livro de Nagel é o primeiro passo para a futura leitura da obra de Kant. E sem este primeiro passo, torna-se muito difícil que o jovem chegue sequer a ler algum dia Kant.

A leitura não tem adversários, ao contrário do que muita gente parece acreditar. Não é por termos televisão que lemos menos. Antigamente não existia televisão, mas não podemos afirmar que as pessoas liam mais do que hoje. A televisão, noutro ponto de vista, até pode estimular a leitura com programas de divulgação de livros. Provavelmente se uma criança visse os seus heróis favoritos do futebol a falar do último livro que leu, seria estimulado a comprar o livro e ler. E, de outro modo, podemos imaginar um mundo perfeitamente possível onde isto acontecesse, onde fizesse parte da cultura o hábito de ler, comprar livros e discutir as histórias ou teorias que os livros nos contam. Apontar a televisão como a culpada da falta de hábitos de leitura seria quase como apontar as culpas dum assassinato à arma usada. Posso usar a faca para matar ou para cortar maçãs. É óbvio que se passarmos muito tempo a ver programas de televisão, temos menos tempo para ler, mas o que está em causa não é a existência da televisão, mas a relação que com ela mantemos.

A primeira premissa do argumento exposto no início deste texto é, assim, muito discutível; parece-me, até, falsa. Não lemos mais porque não temos o hábito dos livros e não porque a vida seja exigente, apesar da exigência da vida ser a premissa mais recorrente quando se quer explicar por que não se lê. Muitas vezes me dizem: "quando tiveres filhos vais ver se tens tempo para ler!". Mas poderia facilmente objectar-se dando exemplos de pessoas que têm filhos, educam-nos e têm tempo para ler. Mais, lêem aos próprios filhos e estes, quando crescem, regra geral, não dizem que não têm tempo para ler, porque foram habituados a ler, têm hábitos de leitura.

Mas não queria terminar o meu artigo sem referir uma razão ainda mais profunda para a necessidade da leitura. Os livros são dos melhores veículos do conhecimento e da cultura. O conhecimento passa inevitavelmente pelos livros e pelos bons hábitos de leitura de um povo. A vida é exigente e essa é a principal razão pela qual devemos ler e não o contrário.

Rolando Almeida
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