Coquettish, de Chen Yang-chun
18 de Maio de 2007 ⋅ Opinião

Um dia livre

Manuel Curado
Universidade do Minho

A ciência tem uma boa publicidade. As pessoas gostam de estar na proximidade da ciência. Esta boa publicidade deriva da fidelidade que assombra a ciência. Qualquer cientista deseja fazer a representação mais fiel do mundo, tão fiel que seja uma tradução perfeita do próprio mundo, e qualquer educador deseja transmitir com fidelidade aos jovens o trabalho do cientista. O que é mais espantoso no discurso em torno da ciência é a absoluta incapacidade de ver que a ciência não funciona.

Como é possível que a ciência não funcione? O mais modesto dos objectos da natureza escapa ao entendimento. Francamente, já deveríamos saber tudo quanto há a saber sobre eles mas, curiosamente, aparece sempre alguém que afirma que tem uma teoria melhor, isto é, que faz uma tradução mais fiel da língua da natureza. Haja paciência para tantos mentirosos simpáticos e sábios. Os cientistas são simpáticos e sábios, obviamente, mas isso não impede que sejam também os maiores mentirosos da humanidade.

Tome-se um objecto de inquérito científico que sempre decorou a vida dos seres humanos: as estrelas do céu. As estrelas sempre lá estiveram; então, como é possível que ainda não se tenha uma teoria final, derradeira, insusceptível de melhoria sobre elas? A resposta é esta: séculos e séculos de teorias astronómicas são séculos de mentiras, em que cada mentira é apresentada debaixo da luz quente da fidelidade à natureza. Cada teoria é proposta em cada época com um engodo: uma representação mais fiel da realidade. Uma colecção de mentiras não aproxima ninguém da verdade. É isto que é a ciência: uma enorme colecção de mentiras. É claro que a fidelidade policia os nossos sentimentos. Como a fidelidade é um polícia impiedoso, em vez de dizer "colecção de mentiras", dizemos "história das ciências" ou "progresso inevitável", ou qualquer expressão cujo fim é o de branquear a completa inutilidade do assunto.

Se se substituir as estrelas por qualquer outro objecto da investigação científica, o resultado será semelhante. Seja-me permitido fazer esse exercício com objectos médicos. Os seres humanos sempre tiveram corpos, e doenças e saúde, e morte. Séculos de medicina alteraram significativamente este panorama? Já somos todos imortais? Somos tão crédulos que deveria ser inventado um Prémio Nobel da Credulidade. A nossa credulidade não tem fim. Vinte e cinco séculos de medicina não alteraram o que quer que seja. Continuamos a morrer como cães atropelados na estrada. Esta é a verdade.

Procuramos a teoria científica mais fiel que existe sem repararmos que a fidelidade é um mal. Boa parte das ciências faz a triste figura da astronomia e da medicina porque tem estima pela fidelidade. A culpa por associação denuncia este aspecto da fidelidade. Repare-se no seguinte: os cultos exigem fidelidade aos crentes; os estados exigem fidelidade aos cidadãos; o casamento exige fidelidade aos cônjuges; a ciência exige fidelidade na representação da natureza; a tradução das línguas exige a fidelidade do sentido; etc. Cada uma destas manifestações de fidelidade tem patologias associadas. Quanto mais extremas são essas manifestações, mais evidente se torna a regra geral da fidelidade. É esta: quanto mais fiel, mais próximo da morte. A boa publicidade civilizacional da fidelidade faz com que esta característica seja de apreensão difícil. Basta, porém, reparar na monotonia do comportamento fiel. O fundamentalismo religioso é uma estrada perfeita para a morte. Quanto mais fiel à crença religiosa, mais a morte se torna a opção doce. Todos os dias assistimos em nossas casas ao espectáculo do bombista suicida em Bagdade, Madrid ou Nova Iorque. Poderíamos acrescentar milhares de manifestações passadas de fundamentalismo de todas as religiões. Por que razão a morte é tão doce e fácil para o fundamentalista? Bem, porque é fiel e essa fidelidade tornou-se um cancro que corroeu todo o seu espírito.

Nas patologias menos extremadas da fidelidade existem, ainda assim, sinais que antecipam a sua vocação de morte. As teorias rácicas do século XIX e início do século XX, ao defenderem a necessidade de um apuramento das raças de modo a que estas se aproximem com fidelidade de um modelo fundador, conduziram aos desastres conhecidos. Mais uma vez a fidelidade foi mentirosa porque os híbridos parecem ser mais saudáveis do que os indivíduos fruto do cruzamento interior aos grupos. Se todos os indivíduos biológicos fossem fiéis, não existiria no mundo o espectáculo maravilhoso da diversidade biológica. Toda a diversidade biológica está apoiada em erros de transcrição do código genético. A beleza do mundo é filha do erro e é ao erro que tudo devemos. Se existisse fidelidade biológica, a evolução não teria ultrapassado os níveis elementares. Seríamos todos moneras ou procariotas.

Algumas manifestações da fidelidade parecem simpáticas. Pense-se em fenómenos como o politicamente correcto, a cidadania, ou a monogamia. É óbvio que são aparentemente simpáticas. Porém, o que escondem? Qualquer destas manifestações de fidelidade esconde uma promessa de morte. A simpatia é paga a um preço elevado. A correcção política, seja o que isso for, produz uma caricatura que faz sorrir. A caricatura é a da vida pequenina que poderia ser ampla como o mundo.

As raízes do apreço humano pela ciência encontram-se na crença de que existe uma fidelidade original. Porém, não há fidelidade original. Os sentidos parecem representar a natureza tal como ela é. O céu é azul; a água dos rios é fria; a neve é branca. A percepção é a base de todas as teorias da fidelidade. Porém, nada há mais enganoso do que a percepção. Nada é azul no mundo; nada é frio; e nada é branco. Os seres humanos caminham pela natureza como se transportassem um escafandro cujo interior está cheio de imagens. Quando algumas dessas imagens auxiliaram a sobrevivência, os nossos antepassados tenderam a considerá-las como reais. A percepção é alucinatória porque não descreve nenhum evento que seja uma parte da natureza. O vermelho é tão subjectivo quanto o sabor do chocolate, quanto o frio, quanto a dor, e quanto o ciúme.

Por que razão a nossa ciência deverá abandonar o mito da fidelidade? Se o mundo fosse a nossa dispensa, talvez fosse possível esgotar a certa altura os objectos porque o seu número seria muito pequeno. Porém, o mundo não é uma dispensa porque os objectos são infinitos e, pior do que tudo, existem novos objectos que não existiam em momentos anteriores. Alguém que fizesse a história do mundo no tempo de Júlio César não poderia ter incluído o vírus Ebola, os computadores, os filmes de Hollywood ou a economia japonesa.

O mundo em que vivemos produz constantemente novos objectos e é pueril acreditar que as ciências podem compreender melhor os novos objectos do que compreenderam os velhos. Os princípios da racionalidade humana são estáveis. A racionalidade movimenta-se, porém, sobre um solo em permanente mutação. É improvável que seja bem sucedida.

A relação da mente humana com os objectos de investigação científica não é uma relação de proprietários. A analogia que melhora capta é a de predadores e de presas. A racionalidade humana é predatória e é um feito resultante do passado evolutivo. Pensamos bem ou mal, assim como os homens sentem ciúme e as mulheres grávidas têm desejos de alimentos raros. A relação entre predadores e presas impossibilita que os primeiros possam dominar as segundas. Os primeiros evoluem, assim como as segundas. A evolução dos predadores depende da evolução das presas. Neste cenário, não há fidelidade possível. O que é objecto, altera-se; as ferramentas com que se compreendem os objectos também se alteram. A racionalidade humana não é um objecto privilegiado no mundo dos objectos; é apenas mais um.

Todos nos lembramos do tempo mágico em que não existiam telemóveis. Não foi há muito. Também nos lembramos de um tempo posterior em que produzimos discursos sobre a inutilidade dos telemóveis e sobre as notáveis excepções que as nossas próprias pessoas são por não precisarem de telemóveis. Não adiantou nada. O mundo alterou-se de tal modo que, quem não tem telemóvel deixou de estar numa situação igual à do tempo em que ninguém tinha telemóvel. Nesse tempo, isso não fazia diferença. Hoje, não ter é um forte argumento contra o sucesso e a sobrevivência do indivíduo. O mundo conta que as pessoas tenham telemóveis.

Isto significa que as ferramentas humanas para habitar o mundo e para fazer sentido sobre o mundo se tornam facilmente caricaturas históricas. Não há forma de ser fiel ao mundo porque o mundo está permanentemente a inventar-se a si mesmo. O mundo é o espectáculo mais vasto que existe e ser fiel a ele é mentir-lhe. Onde está o telemóvel, podemos colocar tudo o que é relevante nas nossas vidas: educação, saúde, sociedade, técnica, natureza, etc.

O que é válido para telemóveis, é válido para todos os objectos de conhecimento. Os sistemas de educação são especialmente responsáveis pela perpetuação da fidelidade. Uma boa educação continua a ser fiel, qualquer que seja a forma velada de expressar essa ideia: uns cursos são mais importantes do que outros, umas disciplinas são mais nucleares do que outras, alguns conhecimentos devem ser perpetuados enquanto que outros deverão ser passados por alto, etc. A ideia de fidelidade da educação lembra as duas braças de profundidade do rio que deu origem ao nome do escritor Mark Twain. Acreditamos que o barco da vida do jovem não encalha no fundo dos rios traiçoeiros porque a educação lhe oferece um medidor de profundidade de duas braças. E, assim, o jovem vai confiante pela vida acreditando que tem uma corda de duas braças sempre à mão para identificar o perigo. Não há educação que nos possa proteger do que quer que seja. Oferecemos uma corda de duas braças aos jovens, sabendo perfeitamente que o rio da vida sobe permanentemente e que nele essa corda não vale nada.

O capital de conhecimento que cada um tem, e que cada sociedade tem, é uma corda de duas braças. No tempo dos vapores do Mississipi talvez fosse importante; agora é uma curiosidade. Não há conhecimento que possamos amealhar para um dia de dificuldades porque tudo aquilo que os outros seres humanos estão a fazer altera o que é opção privada.

Se este é o caso, a que se deve a imagem de sucesso das ciências? Se compreendemos miseravelmente pouco de tudo, donde é que veio a ideia de que compreendemos tanto e tão bem? O que parece decisivo é a velha actividade técnica. Do mundo, compreendemos apenas o que alteramos. Esta é a origem da ilusão de que sabemos muito de tudo, quando é racional que não sabemos nada de tudo. Alteramos o mundo e os seus blocos e essa actividade faz nascer a convicção falsa de que essa alteração é significativa. Talvez não seja mais significativa do que um jogo de crianças. Avaliando o assunto pela vida dos seres humanos, mesmo que sejam inteligentes como von Neumann e ricos como Bill Gates, caminhamos todos para a morte que tanto nos atormenta quanto atormentou Aristóteles. Deste ponto de vista, a ciência não vale, nem valeu alguma vez, absolutamente nada. Poderíamos ter vidas melhores e ser muito mais felizes de outras formas. Vida livres.

Manuel Curado
manucurado@gmail.com
Originalmente na revista Retratos: Revista de Educação, 2 (Dez. 2006), pp. 11-15.
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