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1 de Junho de 2007   Opinião

Vitalidade editorial

Desidério Murcho

Seria bom que surgissem mais autores portugueses de qualidade, ao nível do melhor que se faz no mundo, nas diferentes áreas do conhecimento — e não apenas na literatura. Não há razão para que tal não aconteça — é só uma questão de trabalhar nesse sentido. Claro que também é preciso traduzir mais e melhor, para que quem não domina uma língua culta possa ter acesso aos muitos livros excelentes que se publicam noutras línguas, sobre tudo — das artes à física quântica. Mas sem autores nacionais que escrevam livros sobre estes assuntos, seremos sempre um país de ideias feitas, importadas do estrangeiro.

Tomemos, a título de exemplo, a área editorial da filosofia. A diferença entre a actividade editorial nacional e a inglesa é, neste caso, abissal. Vejamos apenas o caso das obras de consulta. Em 1998, a Routledge publicou a sua enciclopédia de filosofia, sob a direcção de Edward Craig (Universidade de Cambridge). Com dois mil artigos originais de mil e trezentos autores de vários países do mundo, é um feito editorial impressionante. Entretanto, foi editada também em CD-ROM e está disponível na Internet, sob subscrição, sendo constantemente actualizada. O que impressiona ao ler os artigos desta enciclopédia é o facto de serem claros, directos, despretensiosos e muitíssimo informativos e didácticos. Não encontramos nela os tiques típicos de culturas atrasadas — pretensiosismo, opacidade da linguagem, incapacidade para articular ideias com precisão, ademanes falsamente académicos a fingir erudição.

A esta obra gigantesca acrescentam-se centenas de outras obras de consulta. A Blackwell, de Oxford, publica desde 1992 a extraordinária colecção "Blackwell Companions to Philosophy". Contando neste momento com quase trinta volumes, a colecção começou recentemente a alargar a sua área de actuação. Incidindo inicialmente sobre as disciplinas fundamentais da filosofia (metafísica, epistemologia, ética, estética, filosofia da religião, filosofia da ciência, filosofia da linguagem, etc.), publica-se agora nesta colecção volumes sobre filósofos individuais, como Kant e Hume, e também sobre períodos específicos da história da filosofia, como a filosofia antiga. Os volumes são de formato alargado e têm cerca de 500 páginas. Apresentam um conjunto vasto de artigos, de diferentes especialistas, sobre o tema em causa. Um mimo.

Na área da história da filosofia, a Cambridge University Press publica, também desde 1992, a colecção "Cambridge Companions to Philosophy", que conta já com mais de cinquenta títulos. De formato mais reduzido, com cerca de 300 páginas, são obras dedicadas a vários filósofos de renome, como Platão, Hume, Kant, Carnap, Heidegger, etc. Recentemente, esta colecção começou também a dedicar volumes a certas áreas e períodos da filosofia, como a filosofia da biologia e o idealismo alemão.

Estes são apenas três exemplos entre inúmeros outros. Não há razões para pensar que a filosofia é, no Reino Unido, uma área editorial mais exuberante do que as outras. Imagine-se, pois, a diferença que faria para os estudantes e para o grande público se Portugal tivesse um décimo apenas desta capacidade de produção cognitiva — afinal, temos um sexto da população britânica. É impossível defender seriamente o ensino de qualidade e o desenvolvimento da cultura nacional sem promover este tipo de actividade cognitiva e editorial.

Desidério Murcho
Texto publicado no jornal Público (12 de Janeiro de 2007)