Natureza Morta com um Livro e Laranjas, de Paul Signac (1863-1935)
1 de Junho de 2007 ⋅ Opinião

Vitalidade editorial

Desidério Murcho

Seria bom que surgissem mais autores portugueses de qualidade, ao nível do melhor que se faz no mundo, nas diferentes áreas do conhecimento — e não apenas na literatura. Não há razão para que tal não aconteça — é só uma questão de trabalhar nesse sentido. Claro que também é preciso traduzir mais e melhor, para que quem não domina uma língua culta possa ter acesso aos muitos livros excelentes que se publicam noutras línguas, sobre tudo — das artes à física quântica. Mas sem autores nacionais que escrevam livros sobre estes assuntos, seremos sempre um país de ideias feitas, importadas do estrangeiro.

Tomemos, a título de exemplo, a área editorial da filosofia. A diferença entre a actividade editorial nacional e a inglesa é, neste caso, abissal. Vejamos apenas o caso das obras de consulta. Em 1998, a Routledge publicou a sua enciclopédia de filosofia, sob a direcção de Edward Craig (Universidade de Cambridge). Com dois mil artigos originais de mil e trezentos autores de vários países do mundo, é um feito editorial impressionante. Entretanto, foi editada também em CD-ROM e está disponível na Internet, sob subscrição, sendo constantemente actualizada. O que impressiona ao ler os artigos desta enciclopédia é o facto de serem claros, directos, despretensiosos e muitíssimo informativos e didácticos. Não encontramos nela os tiques típicos de culturas atrasadas — pretensiosismo, opacidade da linguagem, incapacidade para articular ideias com precisão, ademanes falsamente académicos a fingir erudição.

A esta obra gigantesca acrescentam-se centenas de outras obras de consulta. A Blackwell, de Oxford, publica desde 1992 a extraordinária colecção "Blackwell Companions to Philosophy". Contando neste momento com quase trinta volumes, a colecção começou recentemente a alargar a sua área de actuação. Incidindo inicialmente sobre as disciplinas fundamentais da filosofia (metafísica, epistemologia, ética, estética, filosofia da religião, filosofia da ciência, filosofia da linguagem, etc.), publica-se agora nesta colecção volumes sobre filósofos individuais, como Kant e Hume, e também sobre períodos específicos da história da filosofia, como a filosofia antiga. Os volumes são de formato alargado e têm cerca de 500 páginas. Apresentam um conjunto vasto de artigos, de diferentes especialistas, sobre o tema em causa. Um mimo.

Na área da história da filosofia, a Cambridge University Press publica, também desde 1992, a colecção "Cambridge Companions to Philosophy", que conta já com mais de cinquenta títulos. De formato mais reduzido, com cerca de 300 páginas, são obras dedicadas a vários filósofos de renome, como Platão, Hume, Kant, Carnap, Heidegger, etc. Recentemente, esta colecção começou também a dedicar volumes a certas áreas e períodos da filosofia, como a filosofia da biologia e o idealismo alemão.

Estes são apenas três exemplos entre inúmeros outros. Não há razões para pensar que a filosofia é, no Reino Unido, uma área editorial mais exuberante do que as outras. Imagine-se, pois, a diferença que faria para os estudantes e para o grande público se Portugal tivesse um décimo apenas desta capacidade de produção cognitiva — afinal, temos um sexto da população britânica. É impossível defender seriamente o ensino de qualidade e o desenvolvimento da cultura nacional sem promover este tipo de actividade cognitiva e editorial.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Texto publicado no jornal Público (12 de Janeiro de 2007)
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