Junho de 2003 ⋅ Ensino da filosofia

Escola e progresso

Desidério Murcho

A noção de investigação séria, paciente, aberta e crítica é relativamente nova na longa e nem sempre feliz história dos seres humanos. Mas esta noção tem um papel fundamental no progresso de qualquer sociedade. Os seres humanos são a única espécie do planeta que dependem quase inteiramente do conhecimento extrassomático para sobreviver; baseiam a sua sobrevivência no conhecimento que adquirem ao longo da vida, e que lhes é transmitido pelos seus antecessores. Adquirir conhecimento é uma tarefa árdua: exige paciência, abertura de espírito, discussão livre de ideias, honestidade intelectual, humildade e seriedade. Eça de Queirós queixava-se dos lentes da Universidade de Coimbra do seu tempo, cuja pompa e vaidade era inversamente proporcional à sua competência e profissionalismo — e tinha razão, pois a investigação séria é incompatível com a pose e a afectação.

Contudo, além da pose, da vaidade, da pura falta de informação, do fechamento que impede a livre discussão de ideias, há um obstáculo fundamental à investigação e à procura do conhecimento: a falta de seriedade. Quando se tem falta de seriedade não se encaram ideias que pensamos serem falsas como oportunidades para testar as nossas próprias ideias, oportunidades, enfim, para fazer avançar a investigação da natureza das coisas. Pelo contrário; encaram-se as ideias contrárias como algo que emana de desígnios satânicos, que urge abater sem ouvir, apagar sem ver, destruir sem discutir. Em suma: que urge silenciar. Ditosos homens, a quem Deus dispensou de procurar árdua e cuidadosamente a verdade!

Não é possível exagerar a importância, para o progresso de uma sociedade, da discussão aberta e frontal, séria e honesta, baseada no estudo competente. E é a sua ausência que explica o atraso endémico das sociedades. Uma discussão séria de ideias é uma forma de investigação; é uma forma de testar ideias. Numa discussão séria procura-se compreender bem o que o nosso oponente está a afirmar; procura-se ver em que razões se baseia; e procura-se refutá-lo objectivamente, com argumentos claros e ponderados, e não com insultos, argumentos falaciosos de autoridade ou outros artifícios retóricos que nada contribuem para o esclarecimento das coisas. Que argumentos há a favor de se fazer isto em vez daquilo? O que será melhor? Cada pessoa inteligente apresenta uma perspectiva única sobre as coisas, que muitas vezes nos faz ver aspectos que antes não tínhamos visto — e é por isso que importa discutir ideias calmamente, seriamente, honestamente.

Quando não há discussão séria de ideias há algazarra e gritaria. E quando há algazarra e gritaria não ganha quem tem razão; ganha quem tem a força na mão — a força económica, académica, política, militar, ou outra. Mas não a força da razão. E é por isso que no nosso país as decisões parecem sempre concebidas para favorecer os lobbies azuis em vez dos amarelos; e depois o governo muda e favorece-se os amarelos em vez dos azuis. Mas raramente se procura o bem público, o progresso para todos, precisamente porque há uma ausência gritante de discussão pública de ideias, de pensamento crítico. Como pode haver tal coisa quando nas escolas e universidades não se ensinam os estudantes a discutir seriamente? Quando o estudante que discorda do professor se vê metido em alhadas? Quando o mote é repetir os mantras preferidos do professor? Quando dizer "Discordo, porque..." é visto como uma afronta? Enquanto o ensino continuar dogmático e sem discussão séria o país não poderá prosperar. Pois se não se aprender na escola a discutir ideias seriamente, onde se aprenderá tal coisa?

Desidério Murcho
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