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9 de Junho de 2009 ⋅ Opinião

Filosofia e história no currículo de filosofia

Dídimo Matos

A história da filosofia é, junto com as demais, uma importante disciplina filosófica, mas de acordo com alguns currículos dos cursos de graduação em filosofia no Brasil é a mais importante das disciplinas. Nas próximas linhas vamos discutir se o currículo reflete de alguma maneira a realidade ou se precisa ser modificado para dar uma visão mais fidedigna da filosofia.

Em primeiro lugar vamos justificar a afirmação acima. Afirmei que de acordo com alguns currículos de graduação em filosofia no Brasil a história da filosofia é a mais importante das disciplinas filosóficas. A que se deve a minha afirmação?

Se observarmos as grades curriculares de vários cursos de filosofia no Brasil veremos as mais diversas disciplinas filosóficas e algumas não filosóficas — seja um curso de licenciatura ou de bacharelado. Encontraremos lógica, epistemologia, filosofia da ciência, estética, filosofia da linguagem, história da filosofia, ética, metafísica, didática, metodologia científica, entre outras.

Para examinar a importância dessas disciplinas na formação podemos usar como parâmetro a quantidade de contato que se tem com ela durante o período do curso. Assim, se se tem uma e só uma vez uma determinada disciplina, podemos dizer que ocupa pouco espaço em nosso curso. Analogamente, sabemos que num curso de matemática o cálculo é importante, qualquer grade curricular de matemática tem pelo menos três disciplinas de cálculo, mas a história da matemática tem pouca importância, pois não consta em todas as grades, de universidades e faculdades diferentes — e, quando consta, ocorre uma única vez entre o meio e o fim do curso.

Nos cursos de filosofia, entretanto, o que se vê é bem o contrário. Em todos os semestres do curso praticamente se estuda história, enquanto as outras disciplinas são estudadas uma única vez, no máximo duas — mas nunca, nunca mesmo, mais do que isso. Assim, vendo uma grade curricular de filosofia podemos concluir que a história da filosofia é muito mais importante que a lógica, a metafísica, a ética ou a epistemologia; e também podemos concluir, que, sem sombra de dúvida, essa é a mais importante das disciplinas filosóficas. Mas serão estas conclusões verdadeiras?

Vou argumentar que não são, e defender que reduzir a quantidade de disciplinas históricas e ao mesmo tempo ampliar a quantidade de disciplinas instrumentais e específicas é necessário para melhorar a qualidade das graduações de filosofia, e, principalmente, para que se formem filósofos no Brasil e não apenas professores e historiadores da filosofia.

Ao primeiro argumento vou chamar de Argumento Negativo (AN):

AN: Não existem boas razões para acreditar que a história da filosofia seja mais importante que a ética, a epistemologia ou qualquer outra disciplina específica; logo, as disciplinas históricas não devem, num currículo de filosofia, exceder as disciplinas específicas.

Se a disciplina de história da filosofia é tão importante quanto qualquer outra disciplina filosófica específica, não faz sentido ter História da Filosofia I, II, III e IV, no mínimo, e não constar no currículo Filosofia da Matemática, ou Filosofia da Biologia ou Filosofia da Religião ou qualquer outra disciplina específica.

Ao segundo argumento vou chamar de Argumento da Disciplina Instrumental (ADI).

ADI: Filosofia é uma atividade e as atividades precisam de instrumentos que sejam mais eficazes; logo, qualquer disciplina instrumental é mais importante na formação de um filósofo que uma disciplina específica qualquer.

As disciplinas instrumentais são as que fornecem ao estudante os instrumentos necessários para ler, interpretar e, principalmente, produzir textos filosóficos. Ora, sendo o objetivo de um curso de filosofia formar filósofos e professores de filosofia competentes, e sabendo que mais competente em uma área é o sujeito que domina essa área, então o maior domínio dos instrumentos que levam a pensar como filósofo, a compreender os outros filósofos e a produzir filosofia é fundamental. Logo, as disciplinas instrumentais são mais importantes, principalmente no início da formação, do que as disciplinas específicas, apesar da indispensabilidade destas.

Precisamos agora de diferenciar as disciplinas instrumentais das específicas. Essa distinção não é tão simples, pois apesar de disciplinas como a Lógica ou a Metodologia serem claramente instrumentais, outras há, como a Hermenêutica, que podem parecer instrumentais quando, na verdade, são disciplinas específicas.

E a História da Filosofia? Será instrumental ou específica?

Minha tendência é pensar que a História da Filosofia é específica e especializada porque nesta disciplina se estuda o conjunto dos filósofos, as suas biografias, contextos e obras, localizando-os na história geral, identificando as suas origens, apresentando a sua bibliografia e peculiaridades, o contexto socioeconômico e político em que viveram, entre outras coisas, e apresenta a obra do filósofo e os textos que escreveu, discutindo-os por vezes.

Se a história da filosofia não é instrumental, não deveria ter mais peso do que outras disciplinas que também não são instrumentais. Se a história da filosofia não é mais importante do que outras disciplinas, não devia ter mais peso do que estas.

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