A Cultura da Subtileza, de M. S. Lourenço
6 de Outubro de 2009 ⋅ Opinião

Literatura, ciência e filosofia analítica

M. S. Lourenço
Universidade de Lisboa

Uma análise estatisticamente interessante do perfil de um considerável número de filósofos, desde a Antiguidade até ao nosso século, mostra que ou um filósofo tem como actividade concomitante um trabalho científico, ou antes a actividade concomitante não existe, mas o estilo do filósofo mostra sua impregnação pela literatura. São exemplos típicos da primeira classe de filósofos Aristóteles, com o seu interesse pelas ciências naturais, e Descartes, Leibniz, Pascal, Russell e Poincaré têm o mesmo papel dominante na matemática e na filosofia. Na outra classe são típicos os nomes de Platão, Santo Agostinho e, já em pleno romantismo, os nomes de Schopenhauer, Nietzsche e Kierkegaard são evidência da Doppelbegabung, da vocação dupla destes autores como filósofos e como prosadores.

Assim o problema de fronteiras que a filosofia mantém com os outros domínios da cultura, neste caso a ciência e a literatura, reflecte-se directamente no perfil individual de cada filósofo. Esta definição das fronteiras que a filosofia mantém com os outros domínios da cultura é instrumental para se poder compreender e vir a tomar uma atitude perante a sobejamente observada discrepância entre a filosofia analítica do século XX e as outras correntes filosóficas contemporâneas. Esta discrepância não pode ser explicada pelo recurso à diversidade linguística das escolas em questão, de um lado as línguas germânicas, e do outro as línguas românicas, uma vez que no mesmo grupo linguístico se encontram praticantes dos modos antagónicos de fazer filosofia: assim ela é melhor compreendida por esta diversidade de fronteiras que acabei de delinear.

Passo agora a fazer uma descrição de um alto grau de generalidade de algumas propriedades que me parecem definidoras da maneira de fazer filosofia analítica, e que contrastam com os outros estilos da filosofia contemporânea. A escolha mais básica que alguém que queira escrever filosofia analítica tem que fazer diz respeito à identificação da função mental à qual o discurso filosófico se dirige e, dificuldades terminológicas à parte, essa função pode ser descrita como a função reflexiva ou discursiva da inteligência. Isto significa a seguir que quem quer escrever filosofia analítica não se dirige à intuição imediata do leitor, e por consequência à sua capacidade de realizar associações que não estão ligadas entre si por relações demonstráveis de implicação ou de simples consistência, mas apenas pelo poder sugestivo e evocativo de certas palavras ou de certas combinações de palavras. Esta escolha primordial do trabalho de reflexão contra a intuição imediata está assim no pólo oposto da atitude que pretende impor ao filósofo a rendição da inteligência perante fins supostos serem inalcançáveis por ela, e cuja transcendência justificam a renúncia ao seu exercício, uma atitude perfeitamente captada na expressão latina sacrificium intellectus, e para a qual eu proponho a tradução de hipnose do intelecto.

Ao contrário, do ponto de vista da filosofia analítica, o único fim a alcançar é a superação ou a eliminação do dolo ou da ilusão. Há uma conhecida dificuldade terminológica nas línguas românicas para a designação dos resultados atingidos pela filosofia analítica quando os diversos sintomas de descompreensão como o dolo, a ilusão e a delusão são eliminados, e aos quais se refere em geral na língua alemã pelo termo "Einsicht", traduzível em inglês por "insight". E tal como a palavra portuguesa "audição" tanto é usada para designar a faculdade de ouvir como o resultado do uso dessa faculdade, assim também a palavra "Einsicht" é usada tanto para designar a faculdade como o resultado obtido por meio do seu uso.

Para fazer um esboço do que são os contornos deste conceito recomenda-se, em primeiro lugar, separá-lo dos conceitos mais conhecidos de facto ou de dado, de modo que a descoberta ou produção de um facto ou de um dado não pode ser considerado o resultado do uso desta faculdade. Dos conceitos mais conhecidos os que melhor se assemelham são os dos valores de verdade, verdadeiro e falso, e acerca destes é possível dizer que nenhum insight pode ser falso, o que faz com que o resultado do uso desta faculdade seja o reconhecimento de uma verdade. Conversamente nem todas as verdades se podem reclamar do uso desta faculdade, como se vê pelo exemplo dos juízos analíticos como "Nenhum solteiro é casado", cuja verdade exige apenas a definição do termo "solteiro". A respeito de um objecto ou de um facto, o exercício desta faculdade consiste na identificação de uma propriedade cuja percepção não foi até agora realizada, e a respeito de um par de factos ou de objectos de uma relação binária até agora não percepcionada. Em virtude da exclusão inicial de dados ou de factos como sendo o objecto do exercício da faculdade de Einsicht é-se levado a postular que este exercício consiste na passagem da percepção da propriedade ou da relação em causa, de um estado apenas latente para um estado manifesto, ou em termos da linguagem da consciência, tornar consciente uma relação que até aqui tinha permanecido apenas subconsciente ou inconsciente. Finalmente é necessário mencionar o facto de que a atribuição do uso ou da posse desta faculdade a uma pessoa envolve um considerável juízo de valor, uma vez que tornar consciente uma propriedade trivial de um objecto não pode ser contado como uma instância do uso da faculdade. Logo, só a detecção de propriedades interessantes, mas que até aqui escaparam à percepção, conta como uma instância do seu uso, e assim é inevitável que se coloque a questão de saber quem e como é que se define o que vai ser considerado interessante, respectivamente trivial.

Em certo sentido estamos diante de uma concepção revolucionária ou nova — hoje menos nova do que quando surgiu — em virtude da definição radicalmente diferente de tarefas para o filósofo, uma vez que deste ponto de vista o filósofo deixa de ter que produzir saber acerca do Homem, do Mundo ou de Deus, para passar a descobrir que relações latentes ou inconscientes acerca do saber que já temos sobre o Homem, o Mundo e Deus, são suficientemente interessantes para serem postas perante a consciência. A experiência acabou por mostrar que as relações interessantes estão usualmente envolvidas em paradoxos ou em certas formas de inconsistência, e é justamente a sua detecção que torna possível o esclarecimento do paradoxo ou a superação da inconsistência.

Uma metáfora atraente para descrever esta concepção de filosofia é a de que o filósofo trata um problema como um psicanalista trata um sintoma neurótico. Esta metáfora e o termo cognato "análise" foi inicialmente proposta por Wittgenstein na sua obra Investigações Filosóficas e em obras afins, as quais documentam uma considerável transformação das suas doutrinas originais.

M. S. Lourenço

Universidade de Lisboa
Retirado de A Cultura da Subtileza, de M. S. Lourenço (Lisboa: Gradiva, 1995)
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