Julho de 2003 ⋅ Opinião

Três mitos de hoje

Desidério Murcho

Afirma-se por vezes que a sociedade está cada vez pior; que "há falta de valores"; que nos entregamos a uma vida hedonista, materialista, toda voltada para o prazer. Mas, antes de mais, o hedonismo costuma ter uma má representação histórica, que não corresponde aos seus defensores mais sofisticados, como o próprio Epicuro ou o mais recente John Stuart Mill, que de algum modo é um dos pais do liberalismo hedonista contemporâneo. O hedonismo tal como entendido por estes autores não consiste num apelo desregrado ao prazer mais imediato; pelo contrário, constitui um afastamento prudente desse tipo de vida, afastamento consonante com o apelo estóico, aristotélico ou tomista. O hedonismo sofisticado é apenas a ideia de que o fim último do ser humano é a felicidade, e que a felicidade nada mais é do que o prazer. Pode-se duvidar desta ideia (e eu não a aceito), mas devemos ter em conta que o conceito que estes autores têm de prazer nada tem a ver com os prazeres mais brutais e primários, sendo aliás famosa a injunção de Mill: "mais vale ser um Sócrates insatisfeito do que um porco satisfeito". Portanto, se algo está errado com a nossa sociedade, não é de certeza o hedonismo, tal como a tradição filosófica o caracteriza. Pelo contrário, se algo está errado (e sublinhe-se o "se"), é falta de hedonismo clássico e demasiado "hedonismo" primário.

Outras vezes, ao criticar a vida moderna, contrasta-se a corrente frivolidade, que invade televisões e jornais, com a profundidade e sabedoria que se encontra nos grandes filósofos e outros autores do passado. Pensa-se assim que no passado se fazia muita e boa filosofia ao passo que hoje andamos todos a reboque dos reality-shows da triste televisão tolinha. Mas isto é uma percepção errada das coisas. Nunca se fez tanta filosofia de tanta qualidade como hoje em dia, mas infelizmente essa filosofia tem muita dificuldade em chegar às escolas e ao público português, invadidos que fomos pelas tristes ideias pós-modernas da "Morte da Filosofia", que faz as pessoas pensar que nada mais resta hoje do que o comentário exegético, que está para a prática da filosofia precisamente como o comentário desportivo está para a prática do desporto: está lá, mas é outra coisa.

Por outro lado, é enganador comparar os melhores filósofos do passado, como Tomás de Aquino, Aristóteles ou Stuart Mill, Lebniz, Kant ou Hume, com a superficialidade quotidiana da vida contemporânea, que povoa a televisão e os piores jornais, as revistas da moda e a conversa frívola. Pois esses grandes filósofos, como os grandes artistas e cientistas do passado, não constituíam o grosso da população, nem a vida do seu tempo orbitava em seu torno. Ora, se compararmos o comparável — os filósofos e artistas e cientistas do passado com os do presente, e a sociedade mundana do passado com a do presente — teremos uma surpresa agradável: nunca como hoje houve tantos filósofos de tanta qualidade, nunca como hoje uma percentagem tão elevada da população foi tão culta. A reflexão filosófica tradicional não só subsiste como floresce nas melhores universidades do mundo. Autores como Thomas Nagel, Peter Singer, Robert Nozick ou Susan Wolf oferecem reflexões filosóficas sobre o sentido da vida ao nível dos melhores filósofos clássicos; refexões, além do mais, dirigidas ao grande público e não apenas a especialistas. Pena é que continuem a ser ignorados no nosso país, tanto pelos ministérios como pelos editores, que infelizmente têm mais tendência para responder às modas pós-modernas mais superficiais, cujo irrazoável relativismo irracional é muito mais imediatista e portanto dá menos trabalho.

Finalmente, culpa-se por vezes a mentalidade técnica e científica do mundo contemporâneo, acusada de ser a origem de todos os males e o inimigo a abater. Mas a este respeito é talvez uma boa ideia reler Tomás de Aquino, no que respeita às paixões. No seu tempo, as paixões, sobretudo carnais, eram encaradas como um dos maiores males humanos. Mas Tomás de Aquino, com a sua habitual sensatez e implacável racionalidade, argumentou que nada há de errado com as paixões em si; tudo depende do que fazemos delas. E o mesmo se pode hoje dizer da "técnica". Em si, a "técnica" tanto pode ser uma benesse, como uma calamidade. Como as paixões, a tecnologia precisa de ser guiada pela razão, para ser colocada ao serviço do bem dos seres humanos — leia-se a este propósito o excelente livrinho de Freeman J. Dyson, O Sol, o Genoma e a Internet (Temas e Debates, 2000). Curiosamente, aliás, são os filósofos contemporâneos mais reaccionários (paradoxalmente, dizendo-se por vezes de esquerda!) e vácuos de ideias que mais escrevem contra a "técnica", filósofos que perfilham precisamente o irracionalismo selvagem que tantas misérias tem trazido à humanidade.

Estas três ideias — que a nossa sociedade é intoleravelmente hedonista, que vivemos nas trevas depois da luz e que a culpa é da técnica — precisam de ser friamente avaliadas. E quer-me parecer que não passam de mitos vagos, fruto do desconhecimento ou da confusão.

Desidério Murcho

Nota: Agradeço as críticas de Edson Gil, que me ajudaram a clarificar o texto.

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