17 de Agosto de 2003 ⋅ Opinião

Cooperar ou não

Desidério Murcho

Há um aspecto da realidade filosófica nacional que tem passado despercebido, mas que se tornará mais claro dentro de dois meses. É resultado do trabalho do Centro para o Ensino da Filosofia, da Sociedade Portuguesa de Filosofia (CEF-SPF). Tenho o prazer de pertencer a este grupo de trabalho informal e, tanto quanto sei, único no país — e isto apesar da minha distância geográfica, pois vivo em Londres. Mas os membros do CEF-SPF estão, todos eles, dispersos pelo país, trabalhando em rede graças em parte às possibilidades oferecidas pela Internet. Esse trabalho tem passado um pouco despercebido, mas não tem sido pouco, e mais se adivinha no horizonte.

No site do CEF-SPF, na secção Documentos, encontra-se um testemunho eloquente do trabalho deste grupo: diversos pareceres e outros importantes documentos foram produzidos desde há três anos por este grupo de professores e investigadores. Nomeadamente: vários pareceres, enviados ao Ministério da Educação, relativos a todos os processos de reformas que estiveram em curso nestes três anos; e dois documentos dirigidos aos professores de filosofia, distribuídos no site do próprio Ministério. Na secção Livros, por outro lado, encontra-se já uma obra substancial: além dos dois livros da minha autoria produzidos no âmbito do CEF-SPF, um manual de Filosofia para o 10.º ano (A Arte de Pensar), e o volume Renovar o Ensino da Filosofia, que explica de forma fundamentada tudo o que no entender do CEF-SPF está errado no ensino da filosofia, e o que se pode fazer, e como, para o renovar, devolvendo-lhe a dignidade que merece.

O trabalho do CEF-SPF tornar-se-á a pouco e pouco parte integrante da cultura filosófica e escolar nacional. O manual A Arte de Pensar teve uma aceitação excelente e inesperada por parte dos professores do país, situando-se o nível de adopções muito acima do previsto (os números definitivos serão a seu tempo divulgados, mas sabe-se para já que o manual do CEF-SPF está entre os quatro primeiros do país em termos de adopções, num universo de mais de uma vintena de manuais). Os membros do CEF-SPF nada estão a fazer de especial, que não seja feito noutros países. Mas no nosso país é uma novidade relativa, e é sobre este fenómeno que vale a pena reflectir.

Já há bastante tempo escrevi um editorial com o título "Dilemas, Filósofos e Prisioneiros". Das coisas que mais aborrecem qualquer autor é repetir ideias, ainda por cima elementares. Mas é isso mesmo que é aparentemente necessário fazer. Argumentava eu nesse editorial que sem cooperação não há progresso em nenhuma área, e portanto também não o haverá no ensino e estudo da filosofia. E sugeria que o estado do ensino e do estudo da filosofia no nosso país era uma consequência da ausência de espírito cooperante: cada um dos agentes relevantes procura apenas o seu próprio bem — o seu currículo, o seu empregozinho para a vida, a sua vitoriazinha frívola sobre o seu inimigo de estimação; o resultado é ficarmos todos pior — pois não temos professores, investigadores nem estudantes ao nível do melhor que há no mundo, não por sermos menos inteligentes do que os outros, mas porque criamos um clima deletério que afasta precisamente os estudantes, professores e investigadores mais promissores. Como é evidente, uma pessoa razoavelmente inteligente e criativa, que gosta realmente da filosofia e do seu ensino, não tem pura e simplesmente paciência para as frívolas manobras simiescas de bastidores que caracterizam o pior da academia nacional desde o tempo de Eça de Queirós.

Se o trabalho do CEF-SPF surpreende é precisamente porque pela primeira vez se está a fazer trabalho útil, e não o trabalho que daria currículo e emprego aos seus membros, a maior parte dos quais não precisa de emprego (eu, o Pedro Galvão e a Célia Teixeira somos a excepção). Porque pela primeira vez se escreve e se publica não para o umbigo mas para o público; e por isso não se publica o tomo de mil páginas que ninguém percebe, mas livros de 200 páginas que são úteis para qualquer estudante ou professor. O que dá que pensar é que este trabalho seja uma novidade no país.

Ora, o que explica este fenómeno é uma nova cultura académica, escolar e intelectual. Uma cultura cooperante e aberta, crítica e inteligente. Do ponto de vista desta cultura, o diagnóstico é a parte menos interessante da nossa actividade como seres inteligentes. Claro que é importante traçar um diagnóstico da situação, mas o objectivo não é o "Discurso Paralisante", que mastiga infinitamente os males do país e do mundo; o objectivo é arregaçar as mangas e fazer algo que possa mudar as coisas na direcção que nos parece mais apropriada. Evidentemente, o diagnóstico pode estar errado e nesse caso terá de ser repensado; ou as estratégias para mudar a situação poderão ser desadequadas, e nesse caso terão também de ser repensadas. Mas o importante é que o espírito seja resolver o problema que todos temos: um ensino e estudo da filosofia perfeitamente caricaturais.

Quem pensar que esta cultura é messiânica, ou que os membros do CEF-SPF têm uma Missão, estará ainda a pensar segundo os ditames cegos da velha cultura. Os membros do CEF-SPF não têm Missão alguma (e é bom que não tenham porque nada há de mais perigoso do que seres humanos com Missões debaixo do braço: é em nome de grandiosas Missões que se têm cometido os piores crimes). O que os membros do CEF-SPF fazem é normal: é a actividade normal de professores e investigadores de qualquer área em qualquer parte do mundo — publica-se materiais úteis, discute-se ideias, trabalha-se em projectos reais dirigidos às necessidades efectivas do público português da filosofia. O que se faz no CEF-SPF é uma fonte de satisfação para os seus membros, dado que o que nos une é o gosto por fazer filosofia a sério, em vez de andarmos a fingir que somos grandes investigadores abstrusos, génios adormecidos à espera do beijo encantado.

Pessoalmente, encaro o meu trabalho no CEF-SPF apenas como parte normal do meu dia-a-dia. Muitas pessoas perguntam-me com alguma ansiedade se penso voltar ou não a Portugal, depois de concluídos os meus estudos de doutoramento. Penso que isso é relativamente irrelevante; penso que essa é a pergunta errada. A pergunta correcta é se estou disposto a cooperar ou não em prol do incremento da qualidade do estudo e do ensino da filosofia em Portugal. E os últimos três anos já mostraram que estou disposto a cooperar. De modo que o melhor é devolver-se a pergunta a quem, estando no país, está mais disposto a olhar para o seu umbigo do que a cooperar com os seus pares em prol da filosofia em Portugal. Não é difícil, estando fora do país, fazer mais pela filosofia em Portugal, do que as sucessivas gerações de professores têm feito. Não sinto, pessoalmente, qualquer obrigação moral de voltar a Portugal — mas sinto obrigação moral de cooperar. Estranho é que tantos professores e estudantes não sintam obrigação de cooperar em prol do ensino e do estudo da filosofia, apesar de terem de conviver diariamente com uma realidade desagradável aos seus próprios olhos. Ou talvez não seja tão desagradável assim, e tudo não passe de retórica irresponsável. Afinal, se olharmos para o currículo de um modesto e desconhecido professor estrangeiro de filosofia, como Nigel Warburton ou Daniel Kolak, verificamos que tem muito mais trabalho de qualidade realizado — quer em termos de livros e artigos de investigação, quer em termos de livros e artigos dedicados ao ensino — do que o mais prolífico professor português.

Desidério Murcho
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