Opinião

Filosofias e cidadãos

Júlio Sameiro

A discussão do ensino da filosofia diz respeito a todos — os portugueses discutem mal e pelo menos uma parte da nossa incompetência argumentativa deve-se ao mau estado das disciplinas da Filosofia. A doença básica da filosofia portuguesa é esta: primeiro esquecemos que a Filosofia tem problemas específicos e que uma parte considerável desses problemas é formulável em termos simples e que podem ser imediatamente compreendidos. Como é cada vez mais reconhecido nos países desenvolvidos, os problemas filosóficos são problemas de todo o cidadão:

Há Deus? A crença em Deus é uma fonte legítima da moralidade? Que relações podem existir entre fé e razão? Há certezas? Há critérios objectivos para a aceitação de crenças? O aborto e a eutanásia são moralmente legítimos? E devem ser legais? Que morais usámos para responder? O interesse? Deveres que estão acima de todo o interesse? O relativismo moral é sustentável? O Direito deve ser defesa do interesse comum? ou defesa da Ideia de Justiça? ou é ou deve ser outra coisa? como se justifica a punição legal? protecção da sociedade? prevenção? reeducação? tudo junto? O Estado é uma benção? um mal menor ou um mal? O que é a Arte? um objecto é dito artístico devido às suas propriedades? ou à sensibilidade do espectador? ou aos critérios das instituições que se relacionam com a arte?... e muitos outros. É só juntar.

Depois esquecemos que a filosofia consiste na discussão disciplinada das respostas a estes problemas (as teorias filosóficas). Discussão governada pela pergunta "É isso verdade?". O processo, naturalmente, exigirá desdobramentos e revisões do problemas e aperfeiçoamento das respostas e criação de novas teorias.

Não vejo como se pode defender que a Filosofia no Ensino Secundário deva ser outra coisa. Sendo outra coisa o cidadão continuará a ter de enfrentar os problemas clássicos da filosofia e  os seus desenvolvimentos contemporâneos pelos seus próprios meios sem que a disciplina de Filosofia o tenha ajudado!

Assumindo que a Filosofia deve ser discussão dos problemas, teorias e argumentos da Filosofia, assumimos que tudo o resto, informação, textos dos filósofos, história da Filosofia, cultura geral, deve ser apenas um meio e só nessa medida, como meio, deve ter lugar na disciplina. De outro modo obtemos as perversões que assolam o ensino da Filosofia. E cujo maior expoente é, muito provavelmente, o incrível par Programa & Guia de Aprendizagem de Filosofia do Ensino Recorrente.

Este editorialista, tal como os outros membros do Centro para o Ensino da Filosofia, está convencido de que adoptar a Filosofia para a disciplina de Filosofia só arrasta ganhos: o fim confusões reinantes sobre a natureza da disciplina,  considerável simplificação na escolha dos conteúdos, meta clara para o acto de ensinar, simplificação e transparência nos processos de avaliação. Dignificação da disciplina. O Centro para o Ensino da Filosofia tem argumentado nesse sentido. Mas a última palavra  cabe à comunidade.

Júlio Sameiro
julio.sameiro@mail.telepac.pt
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