Opinião

A terceira via? A portuguesa?

Júlio Sameiro

Com as amostras do Par Programa & Guia de Aprendizagem de Filosofia do Ensino Secundário Recorrente que a Crítica lhe ofereceu, o caro visitante já percebeu e aceitou as razões da minha má disposição. Aquilo é mau. Isso é ponto assente e o leitor pode acrescentar adjectivos ao Par: aberrante, medíocre, etc., e sabe que estamos de acordo. Logo, a única pergunta interessante que resta parece-me ser esta: como é que tal embuste foi e continua a ser possível?

Afinal estamos numa democracia. Aberrações como o Par podem ser examinadas e criticadas publicamente e supõe-se que a opinião pública, em casos tão consensuais como este, deve ser capaz  de impor um mínimo de racionalidade, de sensatez. Como explicar a sobrevivência do Par?

Deixo de lado as responsabilidades dos governos para me centrar apenas na responsabilidade dos filósofos portugueses (ou seja dos profissionais da portuguesas da Filosofia).

Uma badalada oposição entre Filosofia Continental (dominante, por exemplo, em França e no nosso país) e Filosofia Analítica (também dita anglo-saxónica) pode ser invocada. De facto, o filósofo analítico, por muito fraco que seja, vê imediatamente que o Par é lixo: o Par não enuncia problemas  filosóficos, não apresenta argumentos, razões, ou, quando o faz, não respeita regras básicas da lógica ou da educação. Por exemplo:

As sociedades terão hábitos alimentares sui generis "muito culturais"; devido ao facto básico biológico de que os seus cidadãos possuem corpos que não se mantêm vivos sem alimentos.
(pág. 14 do Guia)

Resumo:

As sociedades têm hábitos alimentares diferentes porque... as pessoas têm de se alimentar para não morrerem.

Com mais clareza ainda (para rir, temos de aliviar o fígado):

As pessoas têm de se alimentar para não morrerem.
Logo, as sociedades têm hábitos alimentares diferentes

O desastre argumentativo ainda pode ser disfarçado: à boa maneira analítica, aplicamos o "princípio de caridade" e sugerimos que as autoras não queriam apresentar a explicação das diferenças culturais, como o meu resumo diz, mas apenas indicar uma condição biológica (não-cultural) dessas diferenças. Apenas se enganaram: escreveram "devido ao facto básico" em vez de "uma condição deste facto". Apesar desta caridade, um filósofo analítico, mesmo o mais fraquinho, não perdoaria, e com toda a razão, a má educação revelada — a falta de clareza que não se deve à complexidade do conteúdo mas apenas ao desleixo, à falta de respeito pelo leitor. Um desleixo que vai ensinar milhares de estudantes a pensar e escrever de forma obscura, desleixada, desrespeitosa.

O Par é lixo para qualquer analítico. E para um filósofo continental?

Aqui a coisa é mais complicada. Já critiquei, em várias ocasiões, o uso indiscriminado da oposição analítico/continental. E este é um caso em que ela não ajuda. Peguemos num filósofo kantiano que procura, faz 30 anos, apresentar todo o pensamento kantiano na sua "Unidade". Não podemos dizer que ele é analítico: para um analítico a unidade da obra de um pensador dificilmente é um problema filosófico. É um problema de exegese, de História da Filosofia ou de outra coisa. A investigação da unidade da obra, pode gerar importantes materiais para o filósofo, mas, em si mesma, não é um problema filosófico. Mas este filósofo kantiano teria a sensatez de abominar o Par. O mesmo podemos dizer de um hegeliano, ou, em geral, de um filósofo que identifique a filosofia com a sua história. Esta identificação está errada, mas não torna as pessoas insensatas e as pessoas sensatas abominam o Par. Fenomenólogos e marxistas também não terão qualquer razão, pelo menos filosófica, para não abominarem o Par (outras razões seriam do foro psiquiátrico ou semelhante).

O mistério parece adensar-se: se analíticos e pelo menos aqueles continentais (são muitos) só podem indignar-se com o Par, que raio há na Filosofia portuguesa para justificar a sua permanência? qual é a terceira via portuguesa? pelo menos uma grande dose de incompetência tem de conter, senão seria impossível a convivência, mesmo que longínqua, com as aberrações do Par. Mas a incompetência precisa de princípios que a deixem sobreviver.  Um deles será a Ignorância que neste caso extremo tem de ser Ignorância Militante. Quais são os objectivos desta militância:

  1. Rejeitar a existência de padrões comunicáveis para a avaliação das teorias filosóficas — qualquer padrão explicitamente formulado chumbaria o Par.
  2. Valorizar a pura arbitrariedade. Isto é uma consequência da a): se os padrões de avaliação das teorias ou "discursos" filosóficos não podem ser comunicados a outrem, também não podem ser comunicados ao próprio. Logo, de acordo com a terceira via, nem o "filósofo" pode avaliar a sua filosofia. Logo: o "discurso" filosófico é puramente arbitrário (este critério explica muito bem as páginas 20 e 21 do Guia)
  3. Desvalorizar toda a sóbria apresentação de razões, valorizando o discurso impressionante (uma pessoa que nãos e deixe impressionar e atemorizar pela linguagem do Par só o pode chumbar). Não havendo critérios minimamente objectivos (comunicáveis) para avaliar as filosofias, como pode vingar uma filosofia? Impressionando, provocando "ah!", "!!", "oh!","!:-O" sucessivos — o Guia exemplifica bem estes processos.
  4. Cultivar a irresponsabilidade:
  5. Disfarçar. Usar uns relativismos mal amanhados, discurso edificante q. b., nomes sonantes e basicamente, um discurso que alguns possam fingir entender e aprovar.

As perguntas agora serão: saberemos reformar a nossa via? ou teremos de ser reformados compulsivamente por exigência dos estudantes em fúria? ou eu estou errado? ser o palhaço do mundo é futuro do país? nesse caso: o Par justifica-se inteiramente? Afinal os cidadãos já estão a ser treinados para esse fim. O sucesso do Big Brother não mostra que o escolhemos? A Terceira Via é já sábia palhaçada? Não será melhor rever todo este texto dada a sua falta de sensibilidade à portugalidade e às novas realidades? humm... pois... é assim a Filosofia, nada é certo, é preciso recomeçar...

Júlio Sameiro
julio.sameiro@mail.telepac.pt
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