Opinião

Humm...

Júlio Sameiro

As páginas da Crítica recebem mais de 5000 visitas semanais. Poucas páginas não institucionais dedicadas à Filosofia são tão visitadas em toda a web. Este número só pode orgulhar a Direcção e os colaboradores da Crítica. Mas há ainda um facto a ensombrar o panorama: o fraco eco que a Crítica obtém dos seus visitantes. Dada a originalidade da Crítica — um site de Filosofia portuguesa mas sensato —, e os antecedentes — quase todos os colaboradores da Crítica começaram por enviar um email ao seu director —, esperava ver o meu correio electrónico inundado de aplausos e ataques, críticas e sugestões, esclarecimentos ou pedidos de esclarecimento, ofertas de colaboração e reparos sobre este ero ou aquela gralha.

Mas ao progressivo aumento das visitas da Crítica, não tem correspondido um aumento significativo de contactos por correio electrónico. Há algo de humm... nisto e não o posso aceitar. A natureza da Crítica, repito a ideia, não se coaduna com a do leitor silencioso. Alguns factos:

Os artigos da secção Geral apresentam a nossa disciplina de uma forma pouco habitual: como enfrentando perplexidades de todo o cidadão e com uma linguagem semelhante à de qualquer cidadão, como sendo um prolongamento apenas metódico e disciplinado de algumas das discussões desse cidadão. Nada da tenebrosa obscuridade da terceira via filosófica. A secção Lógica agudiza esta ideia, mostrando como a prática das noções básicas da lógica nos encaminha da discussão indisciplinada, vaga e, muitas vezes, mal-educada, para um saber efectivo. Não se trata, claro, da resposta definitiva a algumas das questões mais relevantes da Filosofia, mas, no mínimo, do conhecimento dos problemas, das respostas alternativas e das suas razões, dos argumentos que tornam mais plausível uma das alternativas, dos pontos a favor e contra as nossas próprias teorias. Enfim, o conhecimento sem o qual não vejo como possa haver cidadania inteligente, desculpem-me a redundância.

Perante esses artigos, não vejo como é que os visitantes podem não reagir. Onde está o grito da pessoa indignada por esta versão da Filosofia ignorar sem pudor isto e aquilo? Ou a pessoa inquietada pela falta de mistérios a pedir/exigir esclarecimento ou a criticar? Quanto aos visitantes mais regulares a coisa é muito mais estranha. Sendo regulares admito que não discordam substancialmente da orientação da Crítica, apesar de saberem que a Crítica discorda substancialmente da via filosófica nacional. Nesse caso que esperam para colaborar? Nem que seja indicando a falta da vírgula na página tal e frase tal?

A Crítica é um site independente e não recebe dinheiro de qualquer instituição. Vive da dedicação, mas não há carola que aguente dar, dar, dar... 5000 visitas semanais sem feedback à altura é sintoma de que muitas pessoas anda a ver se recebem, recebem, recebem... Os regulares devem pagar: podem dar o primeiro passo inspirando-se nos colaboradores; em alternativa podem dar já um primeiro último passo clicando no meu nome abaixo e enviando a colaboração.

E pronto. Hoje o leitor admirou-se por eu criticar os visitantes da Crítica, e sobretudo os mais fiéis, em vez de voltar à denúncia do aberrante par Programa & Guia de Aprendizagem de Filosofia do Ensino Recorrente e à crítica ao novo Programa de Filosofia dos 10º e 11º anos do Ministério-DES, proposta que prolonga a diluição da filosofia no mar da vagueza e na ausência de uma ideia de trabalho filosófico — males que originam aberrações como o Par. Mais não, é a vez do leitor.

Júlio Sameiro
julio.sameiro@mail.telepac.pt
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