Opinião

O discurso impressionante

Júlio Sameiro

Como muitas outras pessoas, penso que tenho um espírito aberto. Mas também sei que, como qualquer outra pessoa, devo ter uma colecção de costelas dogmáticas sobre alguns pontos específicos. E é difícil vermos a nossa própria tacanhez dogmática porque nem sempre temos um Sócrates à mão e, mesmo que ele por aí ande, a disponibilidade é escassa.

Com um pouco de esforço, porém, podemos detectar uma ou outra das nossas manifestações de tacanhez. Reconheço, por exemplo, que só sou capaz de admitir a existência de duas e apenas duas maneiras de justificar (demonstrar, provar...) as nossas crenças ou opiniões: argumentando racionalmente ou impressionando. E se o objectivo for mesmo o de justificar, esses dois processos são antagónicos: o primeiro é bom, o segundo é mau. Como a realidade é sempre uma grande complicação, é fácil suspeitar que se trata de mais um caso de simplismo agudo. Para agravar a suspeita, a minha convicção aparece, como é típico da tacanhez, munida de um expediente contra a crítica: exijo que me tentem convencer do contrário com argumentos. Não quero ser impressionado, retoricado, demagogizado, espantado, obnubilado quando se trata de saber se devo aceitar ou rejeitar uma opinião. Por outras palavras: a pessoa que me queira convencer da inutilidade ou irrelevância do método tem de usar o método. Pode ser bem sucedida? Não, porque se o fosse teria provado que o método é bom para provar.

Exigir argumentos parece, portanto, uma típica forma de má educação argumentativa: digas o que disseres, já nem preciso de te ouvir — "sei" que o resultado só me pode ser favorável. Que terapêutica me aconselha?

Para lhe poupar algum trabalho, avanço com algumas receitas que falharam. Uma seria a de ver se a própria exigência de argumentos não desabava sobre si mesma. Por exemplo, levando a argumentação tão longe quanto pudermos não encontraremos os seus limites? E essa visão dos limites não é também a visão dos indícios de uma outra e mais pura forma de verdade? Ná, assim não saio do círculo: como poderia abdicar de um método que gera tão formidável resultado?

Outra receita seria a de abandonar a exigência de argumentação e experimentar-me no outro lado. A receita, para ter eficácia, deve já ser impressionante. Deve prometer a liberdade, o mergulho no cerne da vida ou do Ser, as plenitudes ou eternidades que se vislumbram no voo da borboleta, a revelação da identidade na não identidade. Pode fazer variar os acompanhamentos: salpicamos tudo com copos fantásticos, chouriço de primeira e a intuição, que progride à medida que a garrafa se aproxima do fim, de que a Palavra é o véu que pela Palavra (mesmo já entaramelada) se mostra e se oculta. Se este acompanhamento falhar, podem tentar outro, menos expansivo, mais virado para a o recolhimento e para a meditação solitária.  Por exemplo, um elogio do "silêncio e do vazio que nos põe em contacto com..." e depois podem ir substituindo as reticências tentando atingir fórmulas cada vez mais impressionantes.

Esta via e os seus desdobramentos podem ter algo de tentador. Infelizmente tenho um feitio lixado e oporei o seguinte a todas estas receitas: se abandonamos a exigência de verdade e os padrões comuns de  argumentação e nos pomos à espera de revelações, não temos mais critérios para dizer que Portugal tem a triste honra de ter produzido o cúmulo do disparate filosófico.  Sem a tal exigência e tais critérios eu não o poderia criticar. Estaria certamente obnubilado mas estaria também ou infeliz ou feliz mas completamente estúpido. Não me parece que queira isso; logo a sua receita está incompleta.

Como vê o caso é mesmo grave. Pode ajudar?

Júlio Sameiro
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