Opinião

O elogio do político

Júlio Sameiro

Para iniciar uma conversa ou para evitar silêncios incómodos, recorremos, durante séculos ao estado do tempo. Uma técnica para o mesmo efeito mas mais recente é dizer mal dos políticos. "Eles querem é encher-se", "só pensam neles", "cambada de corruptos", "são incompetentes", etc. e o acordo está garantido, agora temos um inimigo comum, logo, é muito provável que sejamos amigos, pelo menos durante estes dois dedos de conversa...

Por muito que estas críticas acertem há um fundo de injustiça neste desporto nacional. Parece-me que pelos padrões pelos quais avaliamos os políticos não há lugar para o meio termo: os políticos ou são aquilo tudo ou são extraordinários, não há lugar para políticos apenas bons ou aceitáveis. Porquê?

Pensemos no caso de um partido minoritário que elegeu os seus deputados defendendo com vigor os projectos A, B, C e D. Quatro propostas fundamentais para os seus eleitores que as viram defendidas com vigor e muitas críticas aos restantes partidos. Entretanto o partido maioritário propõe um acordo: vocês, apoiam a nossa proposta Z, abdicam de A e não falam de B e D durante um ano. Em troca nós aprovaremos o vosso pacote C. Que fazer? rejeitando a proposta o nosso partido minoritário corre o risco de não atingir nenhum dos seus fins; aceitando-a estão, provavelmente, a trair o seu eleitorado. Com um pouco de imaginação podemos encontrar situações análogas em todos os passos que o político tem de dar. Seja o político bom ou mau, estará sempre entalado entre o sentido da oportunidade e o mero oportunismo, entre o ser flexível e o abdicar dos princípios, entre os acordos necessários e os arranjinhos... Em resumo: em política a virtude e o vício estão muito próximos. E este facto deveria já ser o suficiente para elogiarmos o político e a carreira política. Temos de agradecer aos cidadãos que, por nós, são capazes de correr estes riscos. E, claro, também devíamos procurar o mínimo de cultura política que nos ajudasse a distinguir o vício da virtude nesta matéria.

Mas essa cultura, como em muitos outros casos, não a queremos. É muito mais fácil dizer que se o político não fez A, B, C e D, então foi incompetente, traiu, vendeu-se, etc.

Júlio Sameiro
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