Cooores!, de Toni Verdú Carbó

O avalanchista

Júlio Sameiro

Já falei aqui do discurso impressionante. Mas não se pode falar do discurso impressionante sem falar na sua encarnação mais completa, o intelectual avalanchista. Pode ser um crítico literário, musical, professor de Filosofia ou, em geral, um letrado diletante. Mas, apesar destas mutações é fácil reconhecê-lo: parece estar sempre interessado em impressionar-se a si mesmo e parece ser este mesmo o critério para falar ou para não estar calado (sim, é mesmo difícil pará-lo, daí a designação). O avalanchista pode ter problemas de comunicação mas nunca os sente porque é governado pelo princípio "se me impressiona, impressiono-te"; assim, se se impressiona, crê imediatamente que o seu interlocutor está igualmente impressionado e pelas mesmas razões. Manifesta um claro desequilíbrio entre, por um lado, o seu sentido estético (que o obriga a perseguir a originalidade a todo o custo, desdobrando-se em tiradas cada vez mais imprevisíveis), o seu gosto gongórico (gosta de castelos abstractos onde tudo se relaciona com tudo) e, por outro lado, as suas capacidades artísticas (não retrata os seus objectos, empoeira-os) e intelectuais (não pensa, associa palavras).

Observemos o intelectual avalanchista em acção. Só precisa de um tema, a arte, por exemplo. O primeiro passo do avalanchista é mostrar que o tema não pode ser abordado com simplicidade, tem de ser imediatamente transposto para o plano das coisas profundas onde ele é rei. Assim dirá "A arte tem de ser abordada de uma forma abarcante e nas suas dimensões essenciais — antropológica e ontológica" — e já pode começar a relacionar o seu objecto com tudo: "Arte é ficção. Ficção é ultrapassagem da realidade dada, a arte é ultrapassagem, metamorfose, transfiguração da realidade dada. Logo, tudo é arte." Ele não tem e não dá tempo para avaliar este raciocínio porque tem de nos ensinar coisas inesperadas sobre nós mesmos: "Ora, vemos tudo com os olhos da nossa ciência, das nossas religiões, dos nossos valores, logo com os olhos das nossas artes, logo tudo é arte. Arte é criação, logo o que é primitivo, originário, fundamental (o avalanchista gosta de sinónimos e de sinonimizar) não é o dado, a obra, mas o acto criador que a ins-titui (também pensa que os erros de ortografia revelam verdades profundas) enquanto obra. Assim o ser aparece fracturado (ele nunca dirá dividido podendo dizer fracturado, as fracturas emocionam mais): de um lado o ôntico, a coisa criada; do outro lado o ontológico, o acto de criar, a doação do ser. E, ligando-os (o avalanchista gosta de fazer distinções abissais para mostrar depois como é bom a andar sobre abismos), o eterno desejo de uma religação que oscila entre a queda — o dado, o criado é a criação que se consumou, logo acabou, morreu, retirou-se; e a redenção — o reviver de si em novas criações. Tudo é arte: mas o objecto dito não artístico é a arte caída porque esconde e oculta a criação; o objecto dito artístico revela — apesar de consumação continua a remeter, ostentar e apelar infinitamente para o ACTO"

Na maior parte dos casos, o comboio pára, o leitor dobra o jornal e nunca mais se lembra destas macacadas que tanto o impressionaram. Ou a campainha toca, o estudante foge aliviado e vai jogar matraquilhos. Mas, infelizmente, alguns passageiros e alguns estudantes foram mesmo avalanchizados e o avalanchista deixou herdeiros ou boquiabertos.

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