Opinião

O funeral

Júlio Sameiro

Um detective pode descobrir o criminoso por palpite ou pressentimento; um químico pode inspirar-se numa pintura ou num sonho para descobrir a estrutura de uma molécula; um físico pode aproximar-se da lei da inércia através da oração. Mas para condenarmos o criminoso ou aceitarmos aquelas descobertas científicas não bastam palpites, imagens ou sonhos inspirados; são necessárias provas, argumentos abertos a exame público e de acordo com padrões racionais muito estritos.

Nada disto é novo. A distinção entre processos de descoberta ou criação e os processos de prova é ou devia ser de senso-comum. A descoberta pode envolver contributos de toda a espécie, e que podem processar-se e combinar-se das formas mais caóticas e surpreendentes; os processos de prova já envolvem uma rigidez apreciável pelo simples facto de que não queremos, em princípio, condenar inocentes ou aceitar o falso como sendo o verdadeiro. Há erros engenhosos, tal como há erros belos, sugestivos, ancorados no divino ou nos nossos interesses ou em outras características apelativas, podem mesmo ser frutuosos (tipo Cristóvão Colombo julgando dirigir-se para a Índia) mas não deixam de ser erros.

Também não é novidade a existência de casos de fronteira. Casos onde os dois tipos de processos (descoberta e justificação) se enlaçam e a clareza da sua distinção é ameaçada.

Um tipo de caso de fronteira poderá dizer respeito à dificuldade em apresentar um critério que nos permita dizer terminantemente "Essa hipótese (teoria, opinião) acaba de passar, neste segundo, da classe das hipóteses plausíveis à classe das teorias verdadeiras".

Outro tipo de caso de fronteira dirá respeito à conversão de aspectos do contexto de descoberta em aspectos do processo de prova. Por exemplo: há casos onde uma teoria, que já prestou alguns bons serviços, é aceite como verdadeira pela comunidade científica antes de uma razão imparcial ter provas suficientes para a aceitar como tal. O poder sugestivo da teoria, o alívio dos cientistas que, finalmente, podem trabalhar num renitente campo de investigação, o prestígio do investigador ou da instituição que avançou a teoria, a necessidade de apresentar resultados para garantir os fundos, podem levar à aceitação da teoria. Porém, é fácil admitir que o poder sugestivo, o sentimento de alívio, o prestígio de pessoas ou instituições ou a necessidade de fundos não são provas muito fiáveis. Mas estes casos ocorrem e são, com frequência, produtivos — desencadeiam investigações que levam a corrigir a reforçar, corrigir essa teoria. Ou, talvez, a substituí-la por uma outra também aceite prematuramente como sendo verdadeira. O resultado: teorias foram aceites como verdadeiras independentemente de critérios rígidos de prova e daí até veio algum bem ao mundo (esperamos). Por outras palavras: os critérios de prova, na prática, podem apresentar um considerável grau de fluidez e as condições da descoberta podem influir na sua aceitação.

Alguns espíritos engenhosos e aventureiros viram nestes casos de fronteira a destruição da diferença entre os processos de descoberta e os processos de prova, entre os mecanismos psicológicos pelo quais nos inclinamos para uma teoria ou opinião e os padrões objectivos de argumentação.

Fico intrigado por os admiradores desta ideia persistirem num erro mil vezes denunciado. Raciocinam assim:

Não sabemos exactamente qual é o número mínimo de cabelos que uma pessoa tem de ter para não ser careca — e é fácil apontar casos de pessoas que para alguns são carecas e para outros ainda não o são; a distinção é fluida. Logo: não há critrério para a carequice; logo, não podemos distinguir o careca do não careca; logo: não há diferença objectiva entre careca e não careca.

O interessante é que não são apenas os carecas envergonhados a aceitar este disparate e a confundir a fluidez do critério com a inexistência do mesmo. Também há cabeludos, argumentando com casos de fronteira e a concluir que não há critérios objectivos de prova mas apenas o que para cada um e para alguns grupos conta como critério de prova; que não há o verdadeiro mas apenas o que, subjectivamente, conta como verdadeiro. E o que conta? O que inspirou, o que impressionou, o que encantou pelo seu carácter imaginativo, o que serviu os nossos gostos estéticos, morais, políticos e religiosos, a nossa conta bancária... Podem conceder que para algumas pessoas também conta como verdadeiro o que está de acordo com os chamados padrões racionais de prova — mas, acrescentam, isso deve-se ao feitio dessas pessoas — têm gosto em falar e pensar de acordo com tais padrões. Em si mesmos tais padrões não têm nenhuma virtude especial e são tão subjectivos como quaisquer outros.

Dito de outro modo: os critérios de verdade ou adequação, como provariam os casos de fronteira, são subjectivos. Mas há opiniões partilhadas? Acontece como na Televisão: o que conta são as audiências. É fácil reconhecer que os mecanismos que fazem subir as audiências podem ser independentes dos conteúdos. Por exemplo: as pessoas infantilizam-se facilmente, portanto, para aumentares a qualidade, ou seja, a audiência, cria um programa com as cores predilectas do bebés: amarelo, uns salpicos de vermelho e verde. Na TV como em política ou em ciência o que conta são as audiências, o marketing é essencial.

Podemos tentar mostrar a essas pessoas, quase sempre sem sucesso, que ainda distinguimos carecas de não carecas apesar de haver casos difíceis de catalogar; podemos mostrar-lhes que elas entram em conflito imediato com o seu relativismo quando lamentam que os tribunais deixem prescrever os casos em vez de trabalharem para apurar a verdade dos factos; ou mostrar que se contradizem quando alegam ser verdade que lhes devo 7000$00. E sobretudo se contradizem quando me apontam os casos de fronteira para me convencerem da sua verdade(!). Parece-me que se esforçam por se apresentarem como uma prova viva das suas teses: "Vê! Estás a tentar convencer-me com argumentos racionais, mas o que conta para mim é o que me apetece. Logo, o que conta como verdadeiro é o que apetece a cada um que seja a verdade! Não te canses, não há verdade, só há interpretações."

Algumas destas pessoas são brincalhonas e inofensivas, gostam de aturdir e provocar surpresa nas suas conversas e isso tem um papel benéfico no nosso humor, logo na nossa saúde. Podem, por exemplo, acrescentar o seguinte à anterior tirada: "Não há verdade, só há interpretações. A minha interpretação é assim, tenho gosto em que o seja e só me convertes à tua se isso me der gosto, por exemplo se me pagares uma imperial".

Outros interpretacionistas têm também um papel benéfico, lembrando-nos que a realidade é mais complicada do que as nossas distinções e esquemas intelectuais podem sugerir.

Outras interpretacionistas têm um papel importante no Ministério da Educação e preparam a aprovação de um programa de Filosofia para os 10.º e 11.º anos do ensino diurno que nos diz que o objectivo da Filosofia é interpretar (tudo o que seja susceptível de interpretação, ou seja: tudo).

A velha mania socrática de exigir a verdade (e de mostrar que ela é difícil) morre no dia 31, data limite para aprovação dos novos programas do Secundário, e a Filosofia assume agora e de vez a mania da retórica. Dentro de 5 anos será substituída pela disciplina de Marketing & Engenharia da Opinião. Pormenores sobre o instrumento do homicídio, e guia de instruções para o funeral encontram-se na página do CEF.

Júlio Sameiro
julio.sameiro@mail.telepac.pt
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