A revolução filosófica e científica portuguesa
Júlio SameiroEsta semana retiro tudo o que disse sobre o estado miserável da Filosofia em Portugal e, penitenciando-me, revelo-lhe o pormenor da revolução filosófica portuguesa para a qual andei cego todo este tempo.
Podemos agora provar que em Portugal há pessoas com dois narizes, há sagitários, há pelo menos um traidor à Pátria, há um Presidente da República que é fêmea e é uma novidade, há um camelo na IP5 que deve ser imediatamente removido, há aberrações da natureza como couves de 27 toneladas e gatos de 7 patas. Tudo isto sem termos de recorrer a observações ou a qualquer tipo de descrição de factos. Esta maravilhosa revolução filosófica e científica já está em marcha há alguns anos e dia 31 de Dezembro estará definitivamente consagrada.
O processo é muito simples!
De acordo com a Lógica de Aristóteles, os nossos professores de Filosofia ensinarão que de uma frase como
(i) Todo o homem é mortal
se deduz que
(ii) Alguns homens são mortais
e, para evitar confusões dos alunos, explicarão que "Alguns ... " não significa "Alguns sim, alguns não"; significa: "Alguns sim, sobre os outros não me pronuncio". Ou seja, (ii) poderia ler-se
(ii) Há pelo menos um homem que é mortal (e sobre os outros não digo que o sejam nem que o não sejam).
E, claro, explicaremos aos nossos alunos que, como (ii) se deduz de (i), então se (i) for verdadeira podemos concluir que (ii) também o é.
Exemplo:
(i) As laranjas são fruta.
(ii) Alguma laranja é fruta. Ou: (ii) Há pelo menos uma laranja que é fruta.
Outro exemplo:
(i) Todo o quadrado tem 4 lados.
(ii) Há pelo menos um quadrado com 4 lados
A regra que permite estas maravilhosas deduções é a seguinte:
Se uma frase com o aspecto (i) Todos os AA são BB for verdadeira, então toda a frase com o aspecto (ii) Alguns AA são BB será também verdadeira
E pronto! É tudo! Agora os nossos jovens podem, sem sair da sala de aula e sem olhar pela janela, provar que estamos no mais fantástico dos mundos. Exemplos:
(i) Todo o nariz humano de 2 palmos é uma aberração da natureza.
Quem pode negar que ela é verdadeira? Então, de acordo com a regra, aceitemos como verdadeira
(ii) Há pelo menos um nariz humano pinoquiano que é uma aberração da natureza.
Esta máquina é imparável e dá-nos uma prometedora visão do mundo:
(i) Todo o ano em que o governo português dê aos professores aumentos 10 vezes superiores à inflacção é um ano extraordinário.
Verdade né? Então será verdade que
(ii) Haverá pelo menos um ano em que o governo português vai aumentar-me em 10 vezes a inflacção.
Em breve os nossos jovens responderão a perguntas do seguinte teor:
- Prove, sem recorrer a qualquer informação factual, que há um gato português de 7 patas.
Os estudantes competentes responderão:
Como (i)Todo o gato português de 7 patas é coisa rara ou nunca vista é obviamente verdadeira, segue-se que também é verdadeira a frase (ii) Existe pelo menos um gato português de 7 patas que é coisa rara ou nunca vista". E, claro, como (ii) é verdadeira não há dúvida de que é verdadeira a frase(iii) Há um gato português de 7 patas. CPPPD (Como o Professor Pediu Para Demonstrar.)
Não é fantástico?
Prevejo que esta revolução científica, como todas, motive algum debate na comunicação social. Nem com toda a força da lógica as pessoas aceitarão verdades como:
(i) Todo o Presidente da República Portuguesa que faça sexo na TV deixará milhões espantados.
(ii) Há pelo menos um Presidente ...
Deixo-lhe a conclusão da frase e a demonstração das maravilhas anunciadas no primeiro parágrafo como TPC. Quero antecipar algumas objecções porque nestas coisas de revoluções culturais há sempre reaccionários.
Objecção 1: esse revolucionário método científico não estava já em Aristóteles? Não é abuso dizer que é português?
Resposta: Ná. Aristóteles era um tímido e conciliador, não queria afrontar os seus amigos e discípulos observadores e ele próprio gostava de observar e fez observações importantes (ao lado de pseudo observações disparatadas — não disse que ele era um conciliador?). Por isso limitou a aplicação da sua regra. Proibiu a sua aplicação aos AA que não tenham sido já observados. A regra devia ser muleta da observação e não substituí-la. Que a observação é desnecessária é obra do génio português.
Objecção 2: 'tás a inventar. Não há revolução nenhuma. Simplesmente falaste da lógica que os professores ensinam como se não soubesses que essa limitação da regra está lá.
Resposta: Deliras, vê os Manuais e os apontamentos dos alunos. Nota: com aquela limitação a lógica aristotélica era inútil e não tinha sentido ensiná-la — a maioria dos nossos raciocínios envolvem coisas do tipo "Se eu fizer isto acontece aquilo, se aquilo acontecer então...", enfim, uma data de coisas não observadas. E não há progresso científico sem hipóteses, idealizações, abstracções, coisas também nunca observadas... Estás enganado: a revolução portuguesa está na eliminação dessa cláusula da timidez. E assim tornamos genialmente útil a lógica do velho.
Objecção 3: Mas essas coisas que estiveste a provar são falsidades. Queres convencer-me que os professores de Filosofia ensinam a tomar o falso como verdadeiro?
Resposta: Quais falsidades!? Não p'cebes nada de Filo pá! A Filo portuguesa já sabe que não há verdades e falsidades, só há diferentes interpretações cada qual com as suas "possibilidades de verdade". Só há "paradigmas" — práticas, teorias diferentes e mundos diferentes. No teu paradigma confias nas observações, no meu confiamos nas nossas regras — no teu parece que não há gatos portugueses de 7 patas, no meu parece-me que sim — e é tudo.
Objecção 4: Ok, vou experimentar o teu paradigma. Que conclusão tiras de: (i) Toda a lagosta que me devas deve ser paga?
Resposta: hu?! Desculpa, não percebi, comecei agora as minhas férias no teu paradigma...