Ainda a revolução

Júlio Sameiro

As poucas reacções ao meu último editorial foram todas negativas. A mais esclarecedora parece-me ter sido a deste velho amigo:

(...) quanto ao teu último editorial prova que estás a ficar senil. Que podes obter com aquilo? Apenas isto:

  • uma risada de quem está por dentro do assunto — mas se já estava por dentro, só ganhou isso, a risada, mas não precisava de ler o editorial.
  • um ataque à paciência dos leitores que não são de Filosofia: frustraste os que tiveram boa vontade de te ler, não explicando como é que as universais devem ser interpretadas para evitar os erros que exemplificaste. No mínimo, dizias uma frase sobre o assunto e remetias as pessoas mais curiosas para algumas leituras sobre isso. Pasmo com tanto desleixo.
  • uma agressão gratuita aos professores que leccionam a "Lógica Clássica" (sic). As pessoas não têm culpa dos cursos que fizeram, das vaguezas (...) de lógica que lhes incutiram. Certo, algumas já se podiam ter informado. Mas garanto-te que os profs que não têm notícias da Lógica, não acreditarão que os manuais possam estar errados, que só tu vejas que andam a ensinar tolices, que a lógica do Aristóteles como é dada está errada e que se bem dada é inútil. Truque, gozação e falta de seriedade — é o que vão pensar.
  • um prejuízo para a Crítica. Olha, eu recomendo a Crítica aos meus colegas. Se um dos meus colegas continentais ler o editorial — qual é o ganho? Torna-se mais receptivo à crítica? Mais aberto para a boa Filosofia actual? Vai interessar-se pela Lógica e chegar a perceber o seu valor para o trabalho filosófico?

Em resumo: agora és mais um a escrever sem perguntar "para quem?"

Um abraço, descansa e toma os medicamentos,

AJ

PS: os exemplos foram bem sacados ;-)

Creio que há alguma razão e algum exagero neste mail. Mas vamos aos esclarecimentos.

Há já alguns anos que o 11º Ano de Introdução à Filosofia inclui uma unidade de Lógica. Os professores podem optar entre leccionar a lógica aristotélica ou Lógica. A maioria, infelizmente, opta pela lógica aristotélica. Uma das regras que essa maioria ensina é: se uma frase com o aspecto Todos os AA são B for verdadeira, então será verdadeira a frase com o aspecto Alguns AA são B desde que, claro, se interprete esta última frase como Pelo menos alguns AA são B e os sobre os outros AA não digo nada.

Como mostrei no editorial anterior, esta "regra" está errada e sobrevive porque parece funcionar bem em alguns casos. Parece não haver dúvidas de que se a frase Toda a pata põe ovos for verdadeira então também terá de ser verdadeira a frase Há pelo menos uma pata que põe ovos (e sobre as outras patas não me pronuncio).

Qual é o erro? Uma criança pode dizer: (i)Todo o dragão é espectacular sabendo que não pode concluir (ii)Existe algures um dragão e é espectacular. Porque interpretou (i) como deve ser: (i) não diz que existam dragões — apenas diz que se tal ser existir, então ele é espectacular. A isto chama-se interpretar condicionalmente as universais o que, em resumo, consiste em interpretar frases com o aspecto Todo X é Y da forma Se X, então Y.

Há, portanto, duas maneiras, de interpretar (i)Todo o dragão é espectacular.

A correcta, a da criança do exemplo, que corresponde a isto:

(a) — Se existirem dragões, então eles são espectaculares.

A errada, a tal que ensinamos no 11º do Secundário, que diz isto:

(b) — (Há dragões e) Todos os dragões são espectaculares.

É óbvio que a interpretação (b) nos leva a concluir erroneamente que Há dragões e que (a) não permite tal disparate.

Todos os exemplos sarcásticos que apresentei, no que parece ter sido o infeliz editorial da semana passada, eram de facto uma gozação a este disparate que treinamos os nossos jovens a cometer.

Interpretar condicionalmente as frases com o aspecto (i) é trivialidade acessível e praticada pelo bom senso comum. Se nos disserem: (i) Todo o estudante que mate o Júlio merece punição, não nos precipitamos a concluir que Há pelo menos um estudante que matou o Júlio e que é merecedor de punição porque, sabiamente, interpretámos aquela frase como dizendo: Se algum estudante matar o Júlio, então esse estudante merece punição o que, claro, não diz que exista de facto e actualmente tal estudante. E qualquer manualzinho de Lógica apresenta esta interpretação como um princípio simples e básico.

O ensino da Filosofia neste caso (como em outros), confunde gratuitamente as intuições de senso comum em vez de as explorar e aprofundar (ou corrigir se for caso disso). Se a passividade da comunidade filosófica portuguesa continuar, dia 31 de Dezembro estará mais uma vez aprovado um programa de Filosofia para o 11º Ano que aceita este erro (e mais uma data deles).

Mas, para sobreviver às críticas das pessoas minimamente informadas, o programa que o Ministério se prepara para adoptar é simplesmente desonesto: recorre ao truque de falar de um "paradigma aristotélico". Ora, quando a expressão "paradigma X" tem sentido refere-se a uma corrente de investigação que tem algumas teorias, métodos, técnicas diferentes de outras correntes. Nesses casos pode falar-se de paradigmas rivais. Mas não há "paradigma aristotélico"! Não há um único lógico que continue a trabalhar e a tentar aprofundar a lógica aristotélica "rivalizando" com os Lógicos. Não há um único filósofo que defenda o valor didáctico e pedagógico da lógica aristotélica e que, na sua argumentação, possa revelar algum conhecimento sério da Lógica. O melhor que se encontra é o seguinte: a lógica aristotélica corrigida e tratada como um capítulo da Lógica e as versões da lógica que tentam explorar a interpretação aristotélica das universais mas com um grau de sofisticação que já envolve o completo domínio da disciplina. Não há, portanto, nada no panorama científico e filosófico, que se assemelhe a um "paradigma aristotélico" ou a uma "alternativa aristotélica".

Os autores do programa desconhecem este facto? São desonestos? Estão confundidos?

Esta situação — decidir que se continue a treinar os nossos jovens a errar na base de um fantasmático "paradigma" — irritou-me ao ponto do último editorial. Agradeço ao leitor que me lembrou a mensagem dos estóicos: se as coisas estão mal temos três respostas: irritarmo-nos, aceitarmos ou agirmos para modificar. A primeira é má. A segunda é boa se a terceira não for possível. Mas prometo tentar emendar-me. Vou comprar uma "punching ball" para usar antes de fazer editoriais. Humm... talvez também durante e depois. Pena não ser mais novo, ainda poderia dar um bom pugilista.

Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte