Ensino da filosofia

O ensino e a Crítica

Desidério Murcho

Ensinar é uma das mais nobres tarefas que os seres humanos podem desempenhar. Pois sem ensino a humanidade regressaria à barbárie: a cultura, a ciência, a filosofia, as artes e a religião são conteúdos que se perdem se não forem transmitidos. Pugnar pela qualidade do ensino, em qualquer área, é em última análise pugnar por uma sociedade melhor. Pois se aos nossos estudantes for oferecida uma boa formação, eles serão capazes de gerar ideias novas; e sem ideias novas, nenhuma civilização pode persistir no tempo, pois não será capaz de resolver novos e velhos desafios.

Não é fácil ensinar bem e é fácil ensinar mal. Tal como não é fácil ganhar a maratona e é fácil perdê-la. Cada professor deve encarar a sua profissão com o mesmo sentido de desafio com que um atleta encara a sua actividade; a cada dia, um e outro deverão procurar corrigir os seus erros, melhorar as suas marcas. Só assim poderemos fazer cada vez melhor.

Parte deste esforço constante pela excelência no ensino perde-se se não houver Crítica. Crítica construtiva; sem ironias, sem ataques pessoais — e com a convicção de que quem critica comete também os seus erros, tantas vezes ou mais do que quem está a ser criticado. Sem o espírito da liberdade da crítica não se pode pugnar pelo incremento da qualidade no ensino, no estudo, no que quer que seja. Uma comunidade de professores, de estudantes, de investigadores, de profissionais, de atletas, é antes de mais uma comunidade em que as pessoas se corrigem umas às outras; pois todos juntos veremos melhor os erros do que se cada qual estiver fechado no seu casulo.

Que a Crítica seja um espaço de liberdade, onde todos nós, estudantes, professores, investigadores, e outras pessoas interessadas em filosofia, possamos em liberdade e com cordialidade corrigir os nossos erros, lutando assim pelo incremento da qualidade da Filosofia que se faz em Portugal.

Desidério Murcho
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