Opinião

Literatura e identidade nacional

Desidério Murcho

É habitual ver em Portugal livros e artigos sobre a identidade nacional. Isto só por si é um pouco estranho. Como é que um país que tem quase mil anos de história, com uma língua e fronteiras antiquíssimas, pode ter este tipo de problema? Seria de esperar isso de países recentes, como a Alemanha ou a França, mas não em Portugal. Em qualquer caso, o que me espanta nesses livros e artigos é a metodologia usada. Regra geral, consiste em recorrer à leitura dos poetas ou romancistas, para a partir deles fazer duas inferências injustificadas.

A primeira dessas inferências é a menos grave e a única que pode oferecer algumas garantias de razoabilidade. Consiste em interpretar os textos dos poetas e romancistas no sentido de encontrar neles um retrato da identidade nacional, mesmo quando tais textos não falam explicitamente desse tema.

Todavia, a segunda inferência é desastrosa. Do facto de Camões ou Eça de Queirós ou quem quer que seja retratar a identidade nacional de dada maneira não se segue que a identidade nacional seja realmente dessa maneira.

Penso que podemos explicar este método desastroso de estudar a identidade nacional pelo facto de ser este praticamente o único método no que respeita à civilização grega ou romana. Dado que não podemos fazer estudos antropológicos ou sociológicos directos sobre os gregos clássicos, resta-nos tentar inferir alguma coisa com base no que deles chegou até nós. Mas fazer o mesmo relativamente a nós próprios é um disparate; há métodos directos muito mais fidedignos para tentar determinar a identidade nacional — recorrendo a estudos antropológicos, sociológicos, económicos, etc. Não o fazer seria como procurar determinar a composição da atmosfera terrestre do mesmo modo que procuramos determinar a composição da atmosfera de Júpiter: não por medição directa, mas indirectamente, recorrendo às ondas de rádio. O que seria absurdo.

Desidério Murcho
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