Ensino da filosofia

O formalista

Desidério Murcho

Uma das características dos professores universitários de filosofia de outros países que não Portugal é a capacidade para escreverem livros para o grande público e para os estudantes — livros que são informativos, despretensiosos e rigorosos. Na verdade, esta é uma prática não apenas dos professores de filosofia, mas dos professores de tudo: arqueologia, história, física, matemática, artes, etc. E não são apenas os professores universitários estrangeiros que têm este saudável e louvável hábito: são também os grandes pensadores, os grandes filósofos e cientistas. Era bom que os professores portugueses deixassem de se esconder atrás dos grandes tratados que ninguém compreende e que tentassem explicar ao grande público o que andam a fazer com o dinheiro dos contribuintes. Talvez assim deixássemos de ter grandes especialistas anónimos, que só são reconhecidos como grandes especialistas pelos seus próprios alunos. E só assim o conhecimento se pode desenvolver.

O que impede os professores universitários portugueses de escrever 200 páginas legíveis para o grande público sobre o tema da sua especialidade? A resposta simples é: formalismo. O formalismo que atacou as nossas universidades e escolas, e que permite que os pretensos especialistas sejam capazes de escrever centenas de páginas densas de teses e artigos que ninguém compreende — nem eles próprios. O formalismo é a capacidade que ganhamos para repetir e parafrasear o que só compreendemos vagamente; é a capacidade para recitar fórmulas, mantras, frases feitas, autores, bibliografias, páginas — sem que tenhamos uma compreensão robusta do que estamos a falar. O formalista nunca faz a pergunta sacramental, que qualquer estudante inteligente deve fazer: "O que quer isto dizer?" O conhecimento é assim para o formalista algo que nada tem a ver com coisa alguma, uma coisa separada da realidade, um conjunto de frases que só fazem sentido umas com as outras, mas que nada querem realmente dizer.

Há várias causas para o formalismo. Uma delas é a confusão entre as competências que se devem exigir aos pensadores originais (sejam filósofos, físicos ou economistas) e as que se devem exigir ao professor universitário. O professor universitário deve estar a par dos últimos desenvolvimentos; tem de ser capaz de ensinar a sua disciplina capazmente; e deve ter uma opinião formada sobre pequenos aspectos da sua disciplina — mas não tem de ser, de modo algum, um pensador original, um inovador. O papel dos professores universitários é modesto; mas crucial. E não tem menos valor do que o papel dos grandes inovadores — pois se esses grandes inovadores não tivessem tido bons professores e bons livros introdutórios escritos por esses professores, nunca teriam sido grandes inovadores (deve ser por isso que em Portugal, precisamente, não há — e raramente houve — grandes inovadores em filosofia, matemática, física ou economia).

Ora, se colocarmos um conjunto de pessoas sem preparação adequada a tentar desesperadamente fazer-se passar por pensadores originais e por grandes inovadores, eles não terão nem a capacidade, nem a vontade, para ser modestos professores universitários competentes. Portanto, irão dar-se ares de grandes investigadores, escrevendo tratados obscuros e ridículos por quaisquer padrões internacionais, irão descurar a formação universitária dos seus estudantes e conduzirão o país à ruptura cognitiva. E esta é a situação que temos hoje, infelizmente, em Portugal. Pergunte-se a um professor de matemática, física ou filosofia uma coisa realmente simples e ele não será capaz de explicar. Não é estranho que para sabermos qualquer coisa que se perceba sobre física, biologia ou filosofia tenhamos de ler livros estrangeiros, ao mesmo tempo que temos tantas sumidades nas nossas universidades?

Desidério Murcho
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