Opinião

Clareza e interpretação

Desidério Murcho

A clareza é uma importante qualidade num texto filosófico. Mas por vezes pensa-se que a clareza é um fim em si. Do meu ponto de vista, a clareza não é um fim; é apenas um meio. Um meio para que as ideias do autor possam ser claramente compreendidas, permitindo assim a discussão aos seus leitores. Um texto obscuro exige um esforço tal aos seus leitores, que não lhes resta grande energia para discutir as ideias do autor.

Penso que é dever do intelectual dar a conhecer da forma mais clara possível as suas ideias, para que possam ser criticamente avaliadas por terceiros. Pessoalmente, quando estou perante textos muito obscuros, limito o meu esforço de interpretação, procurando não esgotar aí todas as minhas energias. Depois de um esforço razoável, limito-me a discutir o que consegui entender do texto, desde que isso seja uma ideia que considero filosoficamente interessante; se por acaso não é exactamente isso que o autor pensa, ele que se queixe; devia ter sido mais claro.

Isto é o que eu chamo ler um texto obscuro em termos "inspiradores"; deixo de me preocupar com o que queria tão profundo pensador dizer que eu não percebo, e passo a preocupar-me com as ideias que me ocorrem e me parecem interessantes, ideias inspiradas pela leitura do texto. Esta atitude tem a vantagem de não ficarmos eternamente a tentar dissecar o que queria realmente o autor dizer (e veja-se a estéril indústria da dissecação que floresce em torno de autores obscuros como Heidegger e Wittgenstein).

Infelizmente, muitas pessoas encaram a filosofia como a arte da dissecação, terminando o trabalho filosófico ainda antes de ter começado: na determinação exaustiva do que queria realmente o autor dizer. Do meu ponto de vista, isto é confundir os meios com os fins. A interpretação é apenas um meio, e não um fim. Como a clareza. O fim é a discussão das ideias; é tentar saber o que querem essas ideias realmente dizer; e se temos boas razões para as aceitar, ou melhores razões para as recusar.

Curiosamente, grande parte do trabalho universitário é uma forma organizada de dissecar os filósofos de mil maneiras diferentes, parafraseando, citando abundantemente, e nunca fazendo a pergunta crucial: "Será que o autor tem razão?". É só quando se faz esta pergunta que começa o trabalho verdadeiramente filosófico, que começa a discussão de ideias.

Desidério Murcho
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