Uma tradição desconhecida

Desidério Murcho

Aquando do lançamento do Dicionário de Filosofia, de Simon Blackburn, em Maio de 1997, João Tiago Proença foi destacado pelo Público para entrevistar o autor. Licenciado em filosofia e estudante de mestrado, o João afirmou-me, em jeito de confissão: "O Blackburn não é realmente analítico, pois não?"

"Filosofia analítica" — só a expressão é razão para fazer crescer no olhar de tanta gente o ódio e o desprezo. Porque é positivismo lógico, essa tolice anti-metafísica. Porque é só lógica e linguagem, essa tontice redutora. Porque é uma inglesice, esses frívolos do Norte. Escusado será dizer, todas estas ideias sobre a filosofia analítica estão erradas. O João, sendo estudante de mestrado de filosofia, pensava que a filosofia analítica era estas coisas todas. E ficou espantado ao folhear o livro Essays in Quasi-Realism, que eu lhe tinha emprestado, por ver que Blackburn tinha capítulos sobre ética e sobre metafísica. Dado que a filosofia analítica não se ocupa destes temas, mas apenas de linguagem e lógica, Blackburn não podia ser analítico. O raciocínio do João está logicamente correcto. Mas parte de uma premissa errada — e é por isso que chega a uma conclusão errada.

O que é significativo é ser possível partir dessa premissa errada. É significativo que se possa ser um estudante avançado de filosofia e desconhecer-se quase por completo a mais importante tradição filosófica do século XX. Não se trata de aceitar ou recusar a filosofia analítica; trata-se de não saber o que é isso, trata-se de ter uma ideia errada, baseada em ignorância e preconceito.

Sim, Blackburn é um filósofo analítico. Sim, ele é um importante filósofo da ética e da metafísica. Assim como há importantes filósofos analíticos especialistas em filosofia da religião e em estética e em filosofia política e em todas as disciplinas tradicionais da filosofia. A filosofia analítica tem disciplinas reais da filosofia, onde se discutem os problemas reais dessas disciplinas, ao invés de se falar de longe das "problemáticas" éticas e ontológicas.

É pena que Portugal continue a querer caricaturar a filosofia analítica, confundindo-a com o positivismo lógico, que hoje está felizmente morto e enterrado. É como confundir a filosofia francesa com o existencialismo. É pena que Portugal continue a querer fingir que toda a filosofia que existe é do mesmo estilo — o estilo que em Portugal é seguido como se fosse o único.

Outro amigo meu, também de formação não analítica, dizia-me que nos livros de filosofia analítica a bibliografia nunca refere os filósofos franceses e alemães. Isto é verdade. Nunca ou raramente os filósofos analíticos referem Deleuze ou Foucault ou Derrida ou Heidegger ou Bergson. Este tipo de filósofos é pura e simplesmente ignorado. Goste-se ou não disto, é o que acontece. Pessoalmente, acho que há boas razões para isso acontecer. E no meu estudo nunca refiro esses grandes pensadores, porque acho que são demasiado ridículos para serem levados a sério.

Mas o que queria agora sublinhar é o seguinte: por que razão o meu amigo estranha a ausência desses ilustres pensadores nas obras analíticas, mas não estranha a ausência de Dummett, Wiggins, Phillipa Foot, Singer, Hare ou Nagel nas obras dos franceses e alemães? A resposta é simples: porque o meu amigo ainda não percebeu que há duas tradições filosóficas completamente distintas e cujo diálogo é praticamente impossível. O que ele toma por filósofos incontornáveis, os analíticos acham que são figuras risíveis, cujas ideias não merecem sequer ser discutidas; seria como ser compositor clássico e discutir música com o José Cid — não faz sentido.

Este abismo entre as duas tradições é real. Gostemos ou não dele. O que não podemos é acusar apenas um dos lados desse isolamento; ambos os lados se ignoram. O que custa a pessoas de formação não analítica é descobrir de repente que só conhecem uma pequena parte do universo filosófico contemporâneo. É assim que se compreende a reacção de Eduardo Prado Coelho, há umas semanas no Público, falando vagamente de Quine e Derrida — e uma vez mais afirmando o preconceito de que a filosofia analítica está do lado da ciência e a outra filosofia do lado das artes. Pura ignorância. Basta ler Nagel ou Nozick ou Singer ou Goodman ou Hare ou Glover para perceber como isso é falso. E basta falar com a maior especialista portuguesa em estética, Carmo D'Orey, ou ler o seu livro A Exemplificação na Arte, para perceber como isso é completamente falso.

Carmo D'Orey é um caso típico de alguém que está genuinamente interessada em reflectir com pés e cabeça sobre a arte. Depois de anos a estudar a outra filosofia descobriu a filosofia analítica e percebeu que era aqui que estavam as respostas, as teorias, as pistas que lhe permitiam pensar efectivamente sobre a arte; do outro lado só tinha palavreado turvo; os problemas reais da filosofia da arte eram sistematicamente evitados.

Será o ecumenismo possível? Será possível fazer uma ponte entre as duas tradições? Há hoje muitas pessoas a tentar fazer isso e o European Journal of Philosophy foi criado com esse objectivo. Eu não acredito nisso. É como tentar conciliar a astrologia com a astronomia; a única coisa que se consegue com isso é acabar com a astrologia, ou passar a fazer astronomia mal. Não conheço ninguém que seja competente em filosofia analítica e que ao mesmo tempo ache algum interesse em Umberto Eco ou Deleuze ou Derrida ou Heidegger. Mas conheço muitas pessoas sem formação analítica que têm um certo interesse por Nagel ou Putnam ou Dennett. Simplesmente, não têm a formação adequada para compreender as ideias subtis destes filósofos — a compreensão que têm deles é sempre deficiente.

Uma vez estava em conversa com um colega meu, professor do secundário e autor de manuais de filosofia. Por um motivo qualquer, ele começou a falar de Kripke. Sendo um filósofo cujo trabalho conheço relativamente bem, fiquei interessado. Mas o que o meu colega dizia era tão estranho que fiquei convencido que ele estava a falar de outro filósofo com um nome parecido. Perguntei-lhe se estava a falar de Saul Kripke, o autor de Naming and Necessity, que introduziu a noção de necessidade a posteriori e de designação rígida. Ele disse-me que sim, que era dele. E eu calei-me, educadamente. Não quis estragar o feliz ambiente do lanche dizendo que as tontices turvas que ele estava a dizer não correspondiam nem de perto às ideias de Kripke. Quando uma pessoa não tem formação analítica não percebe pura e simplesmente a diferença entre uma ideia subtil razoável e uma ideia tonta formulada mais ou menos com as mesmas palavras.

Eu não duvido que dentro de alguns anos os grandes filósofos analíticos clássicos, até agora ignorados, irão começar a ser estudados nas faculdades. Já em 1992 eu tinha previsto isso e agora parece que isso está a começar a acontecer. Simplesmente, o que as pessoas sem formação adequada vão fazer com Russell e Frege e Carnap e Searle e Dennett é o mesmo que têm feito com Kant e Descartes e São Tomás: repetir mais ou menos sem compreender. Resta o consolo de saber que alguns estudantes, ao ler directamente os artigos e livros desses grandes filósofos, vão perceber a diferença entre estes grandes filósofos, ainda que muito mal estudados, e as outras tolices. Como hoje qualquer estudante inteligente percebe a diferença entre Popper e Bachelard. Ou entre a introdução à filosofia que agora se publica de Blackburn, e os manuais do secundário que todos nós fomos obrigados a decorar para vomitar acriticamente nos exames e testes.

Desidério Murcho
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