O Professor, de Víctor Cauduro Rojas
18 de Agosto de 2002 ⋅ Ensino da filosofia

A formação contínua de professores

Desidério Murcho

A formação contínua de professores, instituída há uns anos em Portugal foi uma excelente ideia. Não é fácil ensinar bem e é fácil ensinar mal. A formação contínua de professores pode constituir um poderoso instrumento para ultrapassar um dos obstáculos ao ensino de qualidade: a desactualização dos professores, a tentação para repetir meia dúzia de receitas pouco inteligentes e ultrapassadas.

Infelizmente, a boa ideia original que é a formação contínua de professores foi completamente desvirtuada e é hoje uma tontice que só serve para fazer o Estado gastar milhares de contos todos os anos. Não tenho quaisquer dados científicos que sustentem esta afirmação; mas nunca falei com um professor que me mostrasse um quadro que não fosse negro, no que respeita à formação contínua.

O sistema actual obriga os professores do ensino secundário a frequentar acções de formação. Nessas acções de formação obtêm créditos, sem os quais não poderão progredir na carreira docente. Todavia, o sistema permite que professores de filosofia frequentem acções de teatro, ou de "expressão corporal" ou de tudo e mais alguma coisa que nenhum reflexo tem na sua prática lectiva. E isto acontece em todas as disciplinas.

Os responsáveis dos Centros sabem a dificuldade que é conseguir ter inscritos em acções de formação direccionadas para as disciplinas efectivamente leccionadas no secundário: Filosofia, Física, História, Português, Matemática, etc. Isto pode parecer paradoxal: afinal, um professor de Matemática ou de Filosofia teria tudo a ganhar em frequentar uma acção de formação da sua área, que lhe permita melhorar substancialmente a sua prática lectiva, abrindo-lhe perspectivas, dando-lhe a conhecer novos conhecimentos, corrigindo-lhe defeitos comuns. Mas isto não acontece porque uma acção de formação deste género "cheira" a coisa séria, a trabalho real, a exposição de fraquezas na formação científica, implica voltar a estudar, a rever processos de ensino, etc. E os professores, na sua grande maioria, não estão dispostos a fazer isto. Ou pelo menos é o que parece, dada a proliferação de acções de formação tontas e a raridade de acções de formação sobre matemática ou filosofia ou física.

Não há maneira de contornar completamente a desvontade que os professores têm em estudar, aprender e tentar fazer melhor. Tal como não há maneira de impedir completamente a ladroagem. Mas podemos e devemos adoptar medidas para tentar limitar a ladroagem. E podemos e devemos adoptar medidas para impedir que os professores de Matemática e de Filosofia possam progredir na carreira à custa de acções de formação sobre teatro ou sobre a sexualidade das abelhas egípcias.

Proponho a seguinte medida: qualquer professor pode frequentar qualquer acção de formação; mas só terá créditos com as acções de formação da sua área científica. Esta medida não impede completamente a ladroagem; nenhuma medida o permite. Mas permite contê-la.

Muitos professores dirão que esta medida é injusta: deste modo, se o Centro de Formação da sua área não promover uma Acção na sua área científica, não poderão frequentá-la e ficarão prejudicados. Mas isto é um problema menor. Significa apenas que os professores terão de pressionar os Centros para organizarem Acções nas áreas relevantes. É sem dúvida melhor essa situação do que a actual.

Outra crítica que poderá ser feita à minha proposta é a seguinte: a formação científica dos professores terminou com a licenciatura; a formação contínua deve ser exclusivamente pedagógica. Mas esta crítica está mal dirigida por dois motivos. Em primeiro lugar, porque a ideia da formação contínua é precisamente acabar com o mito de que com a licenciatura acaba toda a necessidade de formação científica. Em segundo lugar, porque a minha proposta não impede que se façam acções de Filosofia com componentes pedagógicas — pelo contrário, eu até acho que isso deve ser feito e eu faço precisamente isso quando dou acções de formação em Filosofia.

Se a minha proposta não for adoptada, o país continuará a gastar milhares de contos todos os anos para pagar Acções de Formação que em nada contribuem para o incremento da qualidade do ensino nas nossas escolas. Dado que esta situação é obviamente intolerável, defendo que devemos adoptar a medida simples que apresentei. Claro que persistirão muitos outros problemas. Mas a medida por mim defendida permite pelo menos resolver alguns dos problemas que podem ser resolvidos pela via legislativa. Os problemas mais profundos, alguns dos quais são ironicamente denunciados por Quaresma no artigo "Créditos Malparados", só poderão resolver-se com uma mudança de mentalidades que tarda em chegar.

Desidério Murcho
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