Opinião

O livro sagrado

Desidério Murcho

Há uma atitude perante os livros em Portugal que me parece desastrosa culturalmente. Chamo a essa atitude a "sacralização do livro". E eu penso que é preciso precisamente o oposto: é preciso desacralizar o livro e a leitura.

A sacralização do livro e da leitura tem expressão num certo discurso empolado, pastoso, de um romantismo bacoco e ultrapassado. Quando se fala de livros são sempre "verdades inatingíveis", "desocultações ocultantes", "dores de alma necessariamente vividas desde logo no texto escrito a sangue" e parvoíces deste género. As pessoas minimamente inteligentes, que não gostam deste tipo de discurso emproado, olham por isso com desconfiança para o livro, que lhes surge como um objecto sacralizado. A leitura não é encarada como algo normal e útil e divertido e que nos alarga horizontes e nos torna mais lúcidos, mas como um sacrífico que só vale a pena enfrentar se em contrapartida pudermos ir para a televisão ou para as rádios ou para os jornais alardear o conhecimento dolorosamente alcançado do Grande Panteão dos Doentinhos da Alma.

É preciso criar alternativas a este discurso tonto. É preciso que as pessoas saibam que há livros de tudo, bons, maus, e mais ou menos, sobre sexo, filosofia e ideias, sobre ciência e relações humanas, sobre angústias e alegrias, sobre vivências e história. Infelizmente, a imprensa cultural portuguesa, na sua maior parte, continua a sacralizar o livro, rodeando-o de um discurso hermético tonto, desencorajante e terrorista.

A razão de ser deste discurso não é senão o puro atraso cultural. Leia-se com atenção as inúmeras críticas na imprensa portuguesa e compare-se com as críticas que surgem na boa imprensa estrangeira. Ou experimente-se a ler a crítica a um livro que se leu e se conhece bem — e será evidente que na maior parte dos casos os autores das críticas não compreenderam o livro, não destacam o fundamental e são incapazes de explicar de que trata o livro. Pouco mais fazem do que pavonear ideias soltas. Aliás, acontece muitas vezes que as críticas aos livros são ocas, palavrosas e difíceis de compreender, ao passo que os livros sob escrutínio são claros, elegantes e acessíveis.

É surpreendente o tipo de livros que são escolhidos pelos críticos. O panorama editorial português não é nada bom, mas a julgar pelas críticas que vão surgindo na imprensa cultural portuguesa, é péssimo. Por que razão os melhores livros de divulgação científica passam despercebidos, por exemplo, ao passo que qualquer ensaio bacoco de contornos difusos tem imediatamente honras de primeira página? Por que razão se dá tanto destaque ao romance (tantas vezes de cordel pretensioso) e tão pouco aos ensaios sólidos de divulgação das disciplinas fundamentais do conhecimento? Talvez porque em Portugal a "cultura" seja ainda sinónimo de literatice bacoca? Talvez porque em Portugal Física e Filosofia, História e Geografia não sejam "cultura"? A "cultura" é uns autores enfezados a falar das suas experiências transcendentes à beira de um urinol público? Autores cuja ignorância das disciplinas fundamentais do conhecimento é grotesca, autores que pensam que o universo é enorme porque tem milhares de estrelas?

Enfim, desculpe-me o leitor o desabafo, mas gostaria muito de ver em Portugal nascer uma imprensa cultural diferente: despretensiosa, inteligente, saudável. Felizmente, começam a aparecer alguns críticos com estas qualidades, que escolhem bons livros e escrevem boas críticas. Infelizmente, são uma gota de água de sensatez num oceano de tontice.

Desidério Murcho
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