Opinião

A lição de Nuno Nabais

Desidério Murcho

Quando entrei para a faculdade recebi uma lição do Professor Nuno Nabais de que nunca me esqueci. É uma ideia simples, como muitas das melhores ideias. E uma ideia importante pelo alcance que tem.

Uma das dificuldades sentidas por estudantes e professores de filosofia em Portugal é a escassez de bons livros de filosofia em português. Da pouca bibliografia existente, acresce o facto infeliz de muitos dos livros disponíveis serem maus, ou não muito bons. Dos bons, há ainda a lamentar más traduções, infelizmente nada raras.

É neste panorama que surge a fotocópia. As faculdades são máquinas imensas de fotocópias. Os estudantes estão de tal forma habituados à fotocópia, que acham normal fotocopiar um livro em vez de o comprarem — ou em vez de exigirem que o livro esteja disponível na biblioteca. E foi contra este pano de fundo que a voz de Nuno Nabais se fez ouvir, quando disse numa aula: "Comprem livros portugueses de filosofia e não os fotocopiem. Se os fotocopiarem nunca iremos mudar a situação difícil de não termos quase nada traduzido em português. Porque se fotocopiarem os livros portugueses, os editores portugueses não irão publicar outros livros de filosofia, que depois não se vendem e dão prejuízo".

Fiquei estupefacto. Nunca tal me tinha ocorrido. E Nuno Nabais continuou: "Não estou a dizer que não fotocopiem livros; mas discriminem entre o que se pode e o que não se deve fotocopiar. Fotocopiem os livros esgotados e os livros estrangeiros; os editores estrangeiros não precisam do vosso dinheiro e os livros esgotados não estão à venda. Mas comprem os livros portugueses, mesmo que só precisem de 1 ou 2 capítulos. Pensem que se não o comprarem, mais tarde irão precisar de 1 ou 2 capítulos de outra obra e ela não estará em português porque o editor português só publica à medida que vende. Se vender pouco, publica pouco. E somos todos nós que ficamos a perder."

Estas palavras marcaram-me. Na altura, eu era apenas um jovem estudante, acabado de chegar à faculdade. Hoje, conheço e participo modestamente no mundo editorial português e sei o quanto Nuno Nabais tem plena razão. Tenho lutado ao longo de anos para disponibilizar em português bons livros de filosofia, traduzidos de forma responsável. Nada ganho com o facto de se venderem muitos ou poucos livros. Mas se se venderem muitos, eu consigo convencer os editores a publicar mais. E com o passar dos anos, iremos ficando com um fundo editorial razoável de filosofia em língua portuguesa — um instrumento fundamental para o desenvolvimento do estudo da filosofia no nosso país.

Espero, caro leitor, que a lição de Nuno Nabais mude também a sua atitude em relação às fotocópias e que passe a discriminar entre o que se pode e o que não se deve fotocopiar.

Desidério Murcho
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