Ciência
27 de Agosto de 2004 ⋅ Opinião

A filosofia e as humanidades

Desidério Murcho

O artigo "A Filosofia como Disciplina Unificadora", de Sven Ove Hansson, exprime de forma admiravelmente clara o erro em que tantos filósofos caem ao puxar a filosofia para o lado das humanidades, afastando-a da ciência. Como Hansson argumenta, essas pessoas não erram por puxar a filosofia para o lado errado, mas antes por pensar que é preciso puxar para algum lado. Penso que a concepção de humanidades que pessoas como Bernard Williams têm é, ela mesma, deficiente — uma reacção histérica — e ainda positivista — a um positivismo mal curado. Infelizmente, este positivismo mal curado é moeda corrente em muitos meios, nomeadamente científicos. Vejamos se consigo explicar por que razão esta visão dualista das coisas está errada.

Antes de apresentar os meus argumentos, é bom esclarecer desde já um equívoco. é evidente que não vou propor que se acabem com as classificações. As classificações são úteis, se bem que por vezes sejam uma grande chatice — para ler algumas revistas que me interessam tenho de percorrer quase 500 metros na biblioteca do meu departamento, porque as revistas de ciências estão noutro piso e noutro local do edifício, o que é um sinal da visão dualista que quero refutar. Mas é evidente que temos de dar nomes às coisas e também é evidente que a história e a física são disciplinas muito diferentes. O ponto é saber se essa diferença é de grau ou de espécie, e se devemos enfiar a cabeça na areia e fingir que metade do mundo é pateta porque anda a fazer humanidades, sem a seriedade e a cientificidade da ciência — o reverso da medalha é pessoas como Bernard Williams, que concordam com o mesmo mito positivista, mas depois declaram que são as pessoas que andam a fazer ciência que são patetas e não dispõem dos métodos adequados para responder ao que queremos ver respondido.

Dennett mostra como ciência, história, filosofia, artes e religião pertencem todas à mesma família: são diferentes atitudes de tentar dar sentido ao mundo e a nós próprios. Só um positivismo mal curado faz pessoas como Bernard Williams pensar, como aliás muitos cientistas, que a ciência é algo que está à parte do que nos preocupa como seres humanos, algo que, fria e objectivamente, se está nas tintas para o que é para nós importante. Basta estudar história da ciência durante uns meses para ver que não é nada disto. A ciência, como as artes e a religião e a filosofia, nasce e procede da mesma sede humana de dar resposta a problemas humanos. E não há problema mais humano do que o de tentar compreender o mundo que nos rodeia e o nosso lugar nele.

O mito positivista consiste em ignorar estas palavras sábias de Dennett: “Não há maneira de evitar os preconceitos filosóficos; a única opção é examiná-los ou não explícita e claramente algures no decorrer das nossas actividades” (Tipos de Mentes). Os cientistas que pensam que a ciência se faz como se fosse uma máquina de salsichas, metendo dados empíricos de um lado, para do outro lado saírem as teorias científicas, estão a perseguir um fantasma positivista. A ciência, pura e simplesmente, não funciona desse modo. Claro que é precisamente por ter este tipo de visão ingénua da ciência que muitas pessoas sofrem hoje em dia do problema do relativismo moral: como não há factos morais, a ética não poderia ser “científica”. Mas, como mostra Nagel (A Última Palavra), isto é um disparate:

Admito sem questionar que a objectividade do raciocínio moral não exige que ele tenha uma referência externa. Não há análogo moral do mundo exterior — um universo de factos morais que nos afecte causalmente. Ainda que tal suposição fizesse sentido não apoiaria a objectividade do raciocínio moral. A ciência, que este tipo de realismo reificador toma como modelo, não deriva a sua validade objectiva do facto de partir da percepção e de outras relações causais entre nós e o mundo físico. O verdadeiro trabalho vem depois disso, sob a forma de raciocínio científico activo, sem o qual nenhuma quantidade de impacto causal sobre nós com origem no mundo exterior geraria uma crença nas teorias de Newton ou de Einstein, nem na biologia molecular.

Quando se é vítima do positivismo, ficamos com as chamadas “políticas da identidade” que Bernard Williams e muitos outros pensadores adoptam: o que conta é o que conta para nós. E o problema é que esta visão cega não percebe que o que de mais importante conta para nós é o que conta, independentemente de ser só para nós ou não. O acesso a uma visão universalista que este tipo de posições nega não precisa de fundamentação filosófica para ter mais adeptos: sempre os teve. Como afirma Blackburn no livro Pense:

Há sempre pessoas prontas a dizer-nos o que queremos, a explicar-nos como nos vão dar essas coisas e a mostrar-nos no que devemos acreditar. As convicções são contagiosas, e é possível convencer as pessoas de praticamente tudo. Geralmente, estamos dispostos a pensar que os nossos hábitos, as nossas convicções, a nossa religião e os nossos políticos são melhores do que os deles, ou que os nossos direitos dados por Deus anulam os direitos deles, ou que os nossos interesses exigem ataques defensivos ou dissuasivos contra eles. Em última análise, trata-se de ideias que fazem as pessoas matarem-se umas às outras. é por causa de ideias sobre o que os outros são, ou quem somos, ou o que os nossos interesses ou direitos exigem que fazemos guerras ou oprimimos os outros de consciência tranquila, ou até aceitamos por vezes ser oprimidos. Quando estas convicções implicam o sono da razão, o despertar crítico é o antídoto. A reflexão permite-nos recuar, ver que talvez a nossa perspectiva sobre uma dada situação esteja distorcida ou seja cega, ou pelo menos ver se há argumentos a favor dos nossos hábitos, ou se é tudo meramente subjectivo.

O que me impressiona é que não se perceba precisamente que é esta sede de conhecimento universal, não distorcido pelos nossos preconceitos e dogmas acriticamente aceites, pelas nossas tradições tantas vezes injustas e opressoras, o que de mais humano há nos seres humanos. Como dizia Yourcenar, “Um homem que lê, ou que pensa, ou que calcula, pertence à espécie e não ao sexo; nos seus melhores momentos escapa mesmo ao humano.” é a incapacidade para compreender esta característica tão humana dos seres humanos que explica o tipo de dualismos que procura os incomensuráveis: para um lado vai a religião, e deixamo-la em paz porque nada tem a ver com o resto, e talvez se meta no mesmo saco as humanidades, ou fazemos outro saco para elas, e depois outro saco para as ciências, objectivas, frias e apartadas das nossas preocupações e ansiedades. Devemos resistir a este convite ao dualismo por dois motivos: por emanar de uma incompreensão radical da natureza humana e da natureza da ciência e do conhecimento, e por ter como consequência a paralisia do pensamento crítico, usando critérios diferentes para avaliar as afirmações do padre da aldeia do critério que usamos para avaliar o professor de física. Começamos a usar critérios diferentes para a religião e as humanidades e as ciências e as artes e acabamos por não compreender nenhuma destas actividades e — mais sinistro — ficamos prontos a aceitar todo o fanatismo, porque afinal tudo é incomensurável e relativo.

Desidério Murcho
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