Ensino da filosofia

O professor baralhado

Desidério Murcho

A crítica de Pedro Galvão ao livro Pense publicada na passada semana no jornal Público, termina com estas palavras: "os académicos portugueses parecem ainda considerar desprestigiante o envolvimento na divulgação, vá-se lá saber porquê". Quero reflectir um pouco sobre este fenómeno, apontando uma das suas possíveis causas: uma incompreensão de base da divisão do trabalho intelectual.

Façamos uma analogia com a música. Nem todos os grandes professores de música são músicos imortais — a maior parte deles são músicos desconhecidos, meramente competentes, mas sem qualquer originalidade. Serão eles menos importantes? É evidente que não. Pois sem estes modestos mestres, os grande músicos nunca teriam aprendido aquilo de que precisam para poderem ser grandes músicos.

O mesmo acontece na filosofia, e no ensino em geral. O modesto professor ocupa um lugar fundamental. Das suas competências não fazem parte um pensamento original e inovador. Tudo o que se exige do professor é domínio dos problemas, das teorias e dos argumentos da filosofia que tem de leccionar, assim como dos instrumentos que tem de transmitir aos seus estudantes para que eles possam por si mesmos reflectir sobre os problemas, as teorias e os argumentos da filosofia.

Logo nesta formulação se esconde a confusão: mas então um professor universitário não é também um investigador, um inovador, um filósofo, em suma? A resposta simples é: Não, se com isso queremos dizer que todo o professor universitário tem de ser um filósofo original e inovador. Isto é falso em todas as áreas — da música à física, passando pela história e pela economia. Entre um professor universitário e um professor do ensino secundário há apenas uma diferença de grau e não de espécie. O professor universitário tem de compreender o que se passa nas fronteiras do conhecimento — os problemas que agora estão em discussão, as teorias mais recentes, os novos argumentos. O professor do secundário tem apenas de dominar os aspectos mais gerais, simples e estabelecidos da área de conhecimento que lhe cabe ensinar — e a sua arte consiste em tornar esses aspectos compreensíveis para os jovens que nunca ouviram falar de tais assuntos (e que hoje em dia sofrem da grave intoxicação mental provocada pelas frivolidades tontas da todo-poderosa indústria que explora o lazer infantil, apoiada pela viciante televisão).

Qualquer dos dois papéis que cabem aos professores, universitários ou do secundário, é condição necessária para o progresso do conhecimento. Sem estes profissionais, muitos deles extremamente dedicados e que ficam na nossa memória para sempre, os inovadores não poderiam realmente inovar: a cada geração os inovadores iriam passar pelos mesmos caminhos já trilhados pela geração anterior, reinventando o já inventado e redescobrindo o já descoberto por não haver ninguém para ensinar e lembrar tais coisas.

Algumas pessoas poderão achar que o que afirmei é demasiado modesto: afinal, não é de esperar que as teses de doutoramento e os artigos especializados dos professores universitários sejam, precisamente, originais? Sim, e não. Sim, no sentido em que são realmente resultado do pensamento original do seu autor; não, no sentido de serem profundamente originais. São apenas pequenas contribuições, na melhor das hipóteses, para o lento progresso do conhecimento — ao passo que os grandes inovadores explodem em ideias originais de consequências profundas em todo o universo do conhecimento. Curiosamente, costuma-se dizer que os grandes inovadores o são porque estão aos ombros de gigantes, esquecendo-se que também é verdade que os grandes inovadores o são porque estão aos ombros de uma multidão anónima e desconhecida de anões: os professores e investigadores competentes mas modestos. E o meu ponto é que sem os anões, não haveria gigantes.

Mas mesmo em relação às pequenas e modestas contribuições é preciso não ter dúvidas: na sua maior parte são ou perfeitamente inúteis ou completamente erradas. Ninguém que conheça a profusão de revistas e livros especializados de qualquer área do conhecimento pode realmente acreditar que todos eles publicam materiais de qualidade. Claro que não. Mas não há outra maneira de fazer as coisas. A esperança é que no meio de tudo aquilo acabe por surgir algo de grande qualidade, verdadeiramente importante e inovador. Não há outra maneira de saber se as novas ideias são realmente novas e realmente boas a não ser torná-las públicas para serem criticamente avaliadas pelos outros especialistas, cuja função é precisamente a de tentar distinguir o trigo do joio. Este processo de procura constante do erro, de crítica sistemática, de abertura à discussão, é o que distingue as práticas académicas sérias da astrologia e de outros disparates do género, tais como os denunciados por Sokal.

Ideias inovadoras e realmente importantes são milagres que por definição ocorrem muito raramente. Pessoas capazes de as produzirem é um milagre feliz da natureza. Eu diria que de todas as tarefas dos professores, universitários e do secundário, a mais importante é descobrir os raros talentos que permitem à humanidade dar um passo mais em direcção à lucidez e ao conhecimento profundo das coisas. Um professor que tenha mudado a vida de um estudante por ter descoberto nele o talento que tem de ser estimulado é um ser humano que pode morrer descansado: a sua vida, sob qualquer critério, teve objectivamente valor e consequentemente não foi em vão.

Penso que é uma certa incompreensão do papel dos professores que faz muitos académicos fugir a sete pés da divulgação da filosofia — sentem que, de algum modo, esse não é o seu papel. Pois bem, estão enganados. O trabalho modesto de ensinar e divulgar a filosofia é, para a maior parte de nós, a única coisa realmente importante que podemos fazer — a inovação e a originalidade não está ao alcance da maior parte de nós. Mas está ao alcance de qualquer professor competente criar as condições para que das suas mãos possam sair os grandes inovadores — estudantes sem medo de dizer o que pensam, sem medo de serem críticos, habituados a pensar e a avaliar, e habilitados a participar de igual para igual no debate universal de ideias.

Desidério Murcho
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