A máquina de salsichas

Desidério Murcho

Desconhece talvez o leitor menos familiarizado com a filosofia o conceito de processo automático de decisão. Um processo automático de decisão é uma figura abstracta, que podemos definir em termos puramente lógicos, mas que pode também ser efectivada, isto é, aplicada no mundo real para fazer uma máquina — por exemplo, um computador. Mesmo intuitivamente, qualquer pessoa compreende a diferença entre um processo automático de decisão e algo que não seja um processo de decisão nestes termos. Os processos que aprendemos na escola primária para fazer uma soma complexa, por exemplo, são perfeitamente automáticos: dadas as parcelas, se não nos enganarmos ao seguir o processo de somar, o resultado será um só. Precisamente porque se trata de algo automático, podemos programar uma máquina para fazer somas, e os resultados serão garantidamente correctos, a menos que a máquina falhe. Este tipo de processos automáticos de decisão contrasta com métodos como a tentativa e erro, que não garante resultados.

Vem esta conversa a propósito de um certo tipo de ideias que tem constituído um obstáculo para o ensino e o estudo da filosofia nos últimos anos. Esse tipo de ideias tem sido uma tentação ao longo da história da filosofia, e tem sido muitas vezes, como hoje, a base em que se apoiam as posições relativistas que declaram todo o estudo honesto e toda a procura séria da verdade uma ilusão a que devemos reagir com ironia. Estas ideias são talvez conhecidas do leitor, se bem que não do modo como estou a exprimi-las. Mas são corriqueiras nas humanidades, nas ciências da educação e na filosofia. Fundamentalmente, consiste em dizer que tudo é igual a tudo; é tudo uma questão de retórica e de quem tem mais força, porque em última análise não há A Verdade.

A própria descoberta triunfante de que não há A Verdade é espantosa para qualquer pessoa que tenha dedicado alguns anos apenas ao estudo honesto, porque se há coisa que se descobre rapidamente é que, no mínimo, tal conceito religioso precisa de ser cuidadosamente esclarecido. O que seria tal coisa? Uma frase verdadeira que englobaria todas as outras verdades? Um Super-Axioma a partir do qual todas as verdades se poderiam derivar... automaticamente? Enfim, não se compreende bem. Mas o problema é que a tal descoberta triunfante pretende aplicar-se às verdades mais comezinhas, como a verdade de que a neve é branca, ou que a Terra não está no centro do universo, ou que torturar crianças por prazer é um mal.

Filósofos sérios e merecedores do nosso respeito, como Richard Rorty, defendem este tipo de filosofia "pós-modernaça". A Filosofia (com letra grande) morreu, garantem-nos, resta continuar uma conversa edificante (que nada edifica, parece-me), com distanciamento irónico, como quem sabe que está a fazer uma tolice cujo único objectivo é... não perder o emprego, suponho.

O que o leitor talvez nunca tenha reparado é como estas posições reflectem de forma interessante a menoridade intelectual de que falava Kant no opúsculo sobre o Iluminismo. É como uma birra de uma criança mal-educada. Ao descobrir que afinal não há processos automáticos que nos permitam carregar num botão e descobrir verdades (ou até A Verdade), deitamos a criança fora com a água do banho — para não falar da banheira, da toalha, do sabonete, e de vários outros itens soltos da casa-de-banho, incluindo o cão que passava por ali e o desgraçado do pai, atónito.

O positivismo foi uma das manifestações culturais que mais pugnaram pelo sonho da Máquina de Salsichas. A gente metia na Máquina os dados dos sentidos e desde que os metêssemos bem metidos —Voilà! — sairiam do outro lado as teorias todas da física e toda a ciência pronta a fazer imprimir nos manuais para se decorar no secundário e depois ir à vida que a morte é certa. Entre esta ideia peregrina e a ideia de um Deus Pai que se lhe apetecer e nos portarmos bem nos dá a conhecer A Verdade e A Vida, não vejo grande diferença — e vejo esta semelhança atroz: em ambos os casos os seres humanos surgem inferiorizados, infantilizados, incompetentes, estúpidos.

Os partidários da Máquina de Salsichas ou do Deus Pai dizem-nos que não podemos saber nada, porque nunca podemos ter a garantia de estarmos absolutamente certos. Mas entre estar absolutamente certo e estar absolutamente errado há uma distância enorme — preenchida de muitas paragens intermédias muito interessantes, como ter dados razoáveis para pensar algo, ou ter argumentos plausíveis a favor de algo, ou ter uma teoria bem articulada que explica bem qualquer coisa. Mas o menino mal-educado, o relativista, o partidário da Máquina de Salsichas e do Deus Pai, o pós-modernaço sofisticado ou o céptico pirrónico não querem saber disto. Querem um Critério Absoluto, uma Máquina Infalível, um Deus Mesmo Fixe. Na ausência disso, nada sabemos. E como sabemos que nada sabemos? Hum... mudemos de assunto.

Uma crítica que se faz à ideia de que podemos descobrir verdades acerca do mundo e de nós, por exemplo, é esta: não podemos colocar-nos no exterior das nossas teorias, para as comparar com a realidade. Eis a Máquina de Salsichas em todo o seu esplendor — aparentemente, se pudessemos fazer tal coisa, tudo estaria bem, porque teríamos um processo de decisão automático para nos dizer se as nossas teorias são verdadeiras ou não. Mas dado que não podemos fazer tal coisa, dizem os Maquinistas Salsichantes, são tudo apenas interpretações, perspectivas, indícios da luta pelo poder, todas igualmente boas, todas igualmente más. Mas não será que esta crítica infantil está a fazer precisamente o que diz que não se pode fazer? Aparentemente, está a sair do domínio das nossas teorias acerca das coisas, e declara, por Iluminação do Pai ou Sussurro da Máquina, que todas as nossas crenças são apenas as nossas crenças. Isto é realmente irónico!

É evidente que se defendermos a tese da Máquina de Salsichas, a filosofia surge-nos como algo sem sentido. Como a ciência, aliás. Ou como tudo, já agora. Não temos nem um Pai-nosso no Céu a dizer-nos onde está A Verdade, nem temos uma Máquina de Salsichas na Terra a vomitar-nos as verdadinhas todas. Temos apenas o mundo e nós estamos sozinhos nele a tentar compreendê-lo melhor e não há receitas automáticas que garantam resultados. Temos de tentar e errar e voltar a tentar, e corrigir os nossos métodos, e estar abertos à crítica e a novas ideias. Não há Máquinas de Salsichas para fazer o trabalho por nós e não há garantias de estarmos certos. Mas se há algo que a experiência de tentar nos tem mostrado ao longo dos séculos é o quanto podemos aprender com este método, sobretudo se compararmos com o que temos aprendido com o Pai-nosso e com as Máquinas de Salsichas.

Não há substituto automático para a criatividade, a argumentação, a capacidade para conceber novas explicações e teorias, e para as testar e refutar e refazer. Quem não se sente à vontade com isto e faz birra só pode ser um estudante ou um professor ou um intelectual mergulhado em confusão.

Desidério Murcho
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