O Relojoeiro da Nossa Aldeia a Resolver um Problema, de James Campbell (1828-1893)
11 de Novembro de 2004 ⋅ Opinião

A crise nacional

Desidério Murcho

Um aspecto fundamental do ensino de qualidade é a criatividade. O ensino de qualquer coisa não tem por objectivo único formar repetidores que repetem sem pensar o que lhes for ensinado e que depois aplicam sem pensar durante quarenta anos nas suas profissões. Também tem este objectivo, porque nem todas as pessoas são talentosas e criativas, mas este não é o único objectivo. O outro objectivo é descobrir os jovens mais talentosos, que serão inovadores, criativos e o motor do desenvolvimento nacional. É por isso que os professores têm uma importância tão grande no tecido social, económico e político de um país: é a eles que compete formar os jovens que, se forem criativos, serão inovadores, críticos, e terão capacidade para resolver problemas, para encontrar soluções, para levar um pouco mais longe o conhecimento, as artes e o bem-estar que herdámos dos nossos antepassados. Uma sociedade é uma construção permanente, e ter à mão construtores criativos, críticos, inteligentes e talentosos é a maior riqueza que um país pode ter.

Infelizmente, o nosso país é sobretudo um importador de ideias feitas. O nosso sistema de ensino está murcho, cinzento, apático, morto. Os estudantes mais talentosos são expulsos do sistema e afastados das carreiras no ensino, que acolhe os mais cinzentos. O resultado final é o pânico constante que se vive na nossa sociedade, pânico que em 1932 foi rapidamente resolvido por Salazar. Se não há uma massa crítica saudável, há sempre a tendência para pensar que o país vai acabar para a semana que vem — porque há problemas e não estamos habituados a resolver problemas, dado que tudo o que nos ensinaram a fazer na escola foi a aplicar fórmulas alheias, mas não a resolver problemas reais.

É imperativo que exista uma massa crítica constituída por pessoas que se habituaram à ideia de que os problemas se resolvem com criatividade, estudo e rigor, e sobretudo que somos nós que temos de os resolver. Não podemos continuar a pensar que para a semana o país vai acabar e que a crise vem de fora e que nada podemos fazer. Estas são as atitudes que tornaram possível a ascensão de Salazar, que por isso fechou o país ao exterior, que ele via como uma ameaça — e é triste pensar que hoje em dia isto só não pode repetir-se dado o contexto da integração na Comunidade Europeia. Talvez isto seja um exagero, e é evidente que é uma especulação que não posso demonstrar ser verdadeira nem falsa porque não sou historiador. Mas não me parece inteiramente absurdo pensar que o obscurantismo no ensino produz obscurantismo na sociedade, e que sem pessoas preparadas para pensar por si, abertas ao mundo e à discussão crítica de ideias, um país não pode enfrentar os problemas normais que todos os países enfrentam, gerando-se uma cultura dependente de um Pai que nos resgate da desgraça — Pai que invariavelmente tem a figura de um ditador, que finge resolver de um assentada a menoridade intelectual de um país que se sente impotente para resolver problemas.

Quando os estudantes e os professores não vêem qualquer utilidade em aprender a pensar, em enfrentar problemas que não têm solução conhecida, em tentar contribuir para a sua solução, são as práticas de ensino que estão erradas. Se todas as pessoas fossem meros repetidores não existiria física, nem música, nem arquitectura. Todas estas coisas são fruto da invenção e da descoberta humanas e só um sistema de ensino gravemente errado pode dar a estudantes e professores a ideia absurda de que está tudo feito, ou que é tudo misteriosamente feito algures no mundo, mas não aqui, com a nossa inteligência e as nossas ideias. Pensar isto é como pensar que o leite vem magicamente do supermercado. O problema disto é que quando temos um problema e a solução não está no supermercado ficamos atarantados e com a sensação de que não há solução e que o país vai acabar para a semana.

É a confiança e a autonomia, o rigor e a criatividade, que constituem o motor do desenvolvimento de um país. E esse motor constrói-se, peça a peça, no sistema educativo, tendo a filosofia um papel fundamental precisamente por ser a disciplina onde se enfrentam alguns dos problemas mais enigmáticos que os seres humanos são capazes de formular e para os quais não há soluções à vista, nem métodos seguros, mas apenas a tentativa e o erro, a discussão rigorosa, a troca de argumentos, a avaliação desassombrada de teorias e de alternativas. Mas é a vontade de persistir na procura das soluções que faz de nós seres humanos. Um sistema educativo que bloqueia esta atitude porque desencoraja os seus estudantes mais talentosos é um escândalo civilizacional. Infelizmente, é este o escândalo nacional e a raiz do tão português sentimento constante de crise.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Artigo publicado no jornal Público (28 de Setembro de 2002)
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