O que vale uma vida?

Desidério Murcho

Um dos aspectos curiosos do panorama editorial português é a desatenção dada pelos editores ao género biográfico. Esta atitude é estranha por dois motivos. Em primeiro lugar, porque não se trata de um género menor. A biografia é tão antiga quanto os primeiros registos históricos, e rapidamente se tornou um género literário maior. A própria Bíblia contém alguns registos biográficos rudimentares, os mais famosos dos quais são os Evangelhos. O berço da civilização, a Grécia e Roma Antigas, cultivaram o género biográfico, e elevaram-no a uma arte superior. Em segundo lugar, porque é um dos géneros mais populares noutros países, e portanto um dos mais atraentes comercialmente.

Uma explicação para este estado de coisas pode ser estrutural: uma cultura salazarista e misteriosista que privilegia o cinzentismo, que tem medo da inovação e das vidas diferentes que fazem a diferença, será uma cultura que despreza o valor da vida dos seres humanos mais destacados, uma cultura que almeja acima de tudo que todos sejam iguais. Eu tenho uma explicação mais corriqueira: pura e simplesmente, nunca ocorreu a nenhum editor apostar com qualidade e persistência numa colecção de biografias bem escolhidas, que cativasse imediatamente um público fiel, que certamente existe. Acontece apenas com a biografia o que há umas décadas acontecia com a divulgação científica de qualidade: antes de surgir a Ciência Aberta, da Gradiva, nenhum editor tinha apostado seriamente nela.

O género biográfico tem vantagens simultaneamente sobre os romances e sobre os ensaios. Os romances exigem ao leitor a capacidade para imaginar realidades por vezes estranhas, para seguir os labirintos tortuosos dos recursos literários e para compreender o que se quer dizer mas que não está dito. Os ensaios exigem ao leitor a capacidade para seguir um argumento, compreender uma teoria por vezes subtil, sentir a força de um problema por vezes demasiado abstracto para parecer importante. A biografia não exige nada disto. Numa boa biografia acompanhamos a vida de alguém; aprendemos história, filosofia e ciência, consoante o biografado, sem nos apercebermos; não temos de dominar os recursos literários, mas acompanhamos vidas humanas reais, com dramas e alegrias, sucessos e insucessos. Em suma, compreendemos melhor o que vale uma vida humana.

Claro que as biografias académicas terão pouca venda em Portugal. E é claro também que as biografias de futebolistas e artistas de telenovela não serão muito interessantes para o público nacional — porque em Portugal, ao contrário do que sucede noutros países, o público do futebol e das telenovelas não lê livros. Mas há um género biográfico que está entre estes dois extremos: a biografia popular, mas séria, que não exige um leitor sofisticado, mas também não pressupõe a completa anestesia mental. No género biográfico, é a contraparte dos livros de divulgação científica. São essas biografias que fazem falta ao público português. Quem não tem curiosidade de conhecer com algum pormenor a vida dos grandes escritores, artistas, estadistas, filósofos, cientistas, exploradores, aventureiros? Quem não quer, durante 300 páginas, vestir a pele de um santo, um herói, um pensador, um estadista?

Uma aposta por parte dos editores nacionais na biografia, com a qualidade que o género merece, teria outra vantagem: iria estimular mais autores portugueses a escrever boas biografias sobre portugueses que não podem ser esquecidos, como Fernando Pessoa, Eça de Queirós, Rómulo de Carvalho, Egas Moniz, Luís de Camões, etc. Um indício que há apetência por estas obras é o sucesso feliz da biografia de Álvaro Cunhal, da autoria de Pacheco Pereira, ou da biografia de Eça de Queirós, de Maria Filomena Molder, e algumas outras. Mas precisamos de mais e, sobretudo, de uma aposta editorial sistemática nesta área.

Desidério Murcho
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