O Vale do Ribeiro Squaw, de Florence Elliott McClung (1894-1992)
30 de Junho de 2007 ⋅ Opinião

Filosofia debaixo do Sol

Desidério Murcho

"Há mais coisas nos céus e na terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia", declara Hamlet na peça de Shakespeare. Contudo, quando se aproxima o Verão português, é mais justo dizer que há mais filosofia debaixo do Sol do que sonham os nossos veraneantes. É uma ironia subtil que a imprensa cultural portuguesa reaja ao Verão armada de policiais, quando a filosofia nasceu há 2500 anos num país cujo clima estival é muito semelhante ao nosso: a Grécia. "Filosofia" e "Verão" não rimam, dizem-nos. Contudo, parecem não apenas rimar como ser congéneres.

Provavelmente, o obstáculo de maior monta à filosofia foi o contacto que todos tivemos com esta disciplina no ensino secundário e universitário, onde surge como uma espécie de história de ideias estouvadas proferidas enigmaticamente por personagens de ares tresloucados mortos há séculos. E é por isso que a máxima de que há mais filosofia debaixo do Sol do que sonham os nossos veraneantes é justa. Pois nunca houve tantos filósofos como hoje, e o panorama internacional em filosofia nunca foi tão estimulante; mas o nosso sistema de ensino comprou em contrabando a ideia de que a filosofia morreu — e acabou por matá-la. Pois morre a filosofia sempre que lhe retiramos a capacidade crítica para avaliar a autenticidade dos problemas, a justeza das teorias e a solidez dos argumentos, substituindo-a por jogos de palavras e de citações, associações de ideias infantis e falsas profundidades de astrólogo. Como não preferir a isto o imperial e o tremoço, a toalha e o bronzeador, o chinelo e o colchão?

O que vem então a ser a filosofia, que deu os primeiros passos num clima estival como o nosso? Não é senão o estudo de problemas que podemos caracterizar como "conceptuais". A filosofia não é sociologia de café, nem psicologia especulativa, nem poesia em prosa. A filosofia ocupa-se de problemas para os quais não há métodos formais ou científicos de solução. Problemas como a natureza da existência e da verdade, do bem moral e do conhecimento; e problemas mais concretos como a eutanásia ou o aborto, os direitos dos animais ou a natureza da arte.

A cega mentalidade positivista conduz ao falso pensamento segundo o qual se um problema não tem solução científica, não vale a pena pensar nele, ou pelo menos não podemos pensar nele com rigor e seriedade, subtileza e elevação. Esta é outra forma de enveredar pela ideia já denunciada da morte da filosofia. A ironia é que este pensamento é já ele filosófico e não científico, e quem o profere ver-se-á grego para o defender, precisamente por não ter qualquer formação filosófica. É esta a inteligência que Deus nos deu, diz o poeta.

O coração da filosofia é a argumentação, e por isso o conhecimento da lógica, formal e informal, é uma condição sem a qual não é possível estudar filosofia. Não basta proferir um pensamento filosófico para ele poder ser aceite como moeda legítima; é preciso que esse pensamento resista ao nosso melhor olhar crítico. Que razões há em seu favor? E que razões há contra ele?

Tomemos um exemplo: a ideia muito popular de que "tudo é relativo". A filosofia liberta-nos do dogmatismo que consiste em repetir sem pensar que tudo é relativo só porque está na moda pensar que tudo é relativo. A filosofia permite-nos dar um passo atrás e olhar criticamente para os nossos preconceitos culturais. Que razões temos para pensar que tudo é relativo? E são essas razões também elas relativas? Mas nesse caso tanto podemos aceitá-las como não as aceitar e portanto a ideia de que tudo é relativo não consegue desalojar a ideia contrária — que é a ideia de que algumas coisas não são relativas, e não a ideia plausivelmente falsa de que nada é relativo. Argumento e contra-argumento, exemplo e contra-exemplo — é este o coração da filosofia, que nos devolve o gosto pelo pensamento sem peias, pela tentativa inelutável de resolver problemas, melhorar teorias, encontrar argumentos. O que se pode perfeitamente fazer à beira-mar, conversando com outro ser humano. Ao Sol.

Desidério Murcho
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