Baía Grega, de Stijn Vogels
Opinião

O Sol e a filosofia

Desidério Murcho

Tendo nascido há 2500 anos num país com um clima estival semelhante ao nosso — a Grécia — a filosofia tem dado uma atenção modesta ao Sol. Alguma dessa atenção resulta do facto de a filosofia ser irmã das ciências empíricas, como a astronomia e a física. Anaxágoras de Clazómenas (cerca de 500-428 a. C.), o primeiro filósofo a ensinar em Atenas, teve de se exilar por defender a teoria astronómica inaceitável de que o Sol era maior do que a Grécia. E a haste vertical cuja sombra, num relógio de Sol, permite marcar as horas — o gnómon — tinha anteriormente sido inventada por Anaximandro de Mileto (cerca de 610-547 a. C.), sendo curioso pensar o que faziam os gregos antes dele com um relógio de Sol sem ponteiros.

O célebre Platão (c. 429-347 a. C.) usou o Sol como metáfora. Na sua Alegoria da Caverna o Sol representa a Realidade para lá das meras aparências, as sombras projectadas por tochas nas paredes da caverna que os escravos pensam constituir a realidade. O papel da filosofia seria o de ajudar os escravos a libertar-se da sua condição, avançando progressivamente em direcção ao Sol. Recentemente, publicou-se entre nós "Os Cadernos de Platão", de Peter Ackroyd, que explora a metáfora de Platão — e Saramago alerta-nos contra um mundo kafkiano em "A Caverna". A fábrica de ideias da filosofia fornece a literatura, e é justo que assim seja.

Plotino (c. 205-70 d. C.), o egípcio que fundou o neoplatonismo, subverteu a alegoria de Platão, transformando o Sol de realidade acessível ao conhecimento crítico e racional em Inefável que só a Iluminação mística pode alcançar. Tem sobre Platão a vantagem estival de não ser preciso pensar quase nada — basta sentir muito com a alma e produzir textos intoxicados de uma Verdade Absoluta delirante. Constitui uma leitura de praia sui generis, que exalta o Sol em parágrafos obscuros.

A clareza do Sol tem estado associada à beleza e à perfeição do intelecto, constituindo Plotino um desvirtuamento da metáfora original. Já antes de Platão, Heraclito (falecido após 480 a. C.) tinha encontrado no Fogo, que constituía o Sol, o elemento unificador da diversidade e revelador da inteligibilidade das coisas. A mais antiga identificação da clareza do Sol com a compreensão das coisas parece ocorrer no persa Zoroastro (cerca de 628-551 a.C.), originalmente conhecido por Zaratustra na língua avéstica, o profeta que fundou a religião com o seu nome — e que depois inspirou Nietzsche.

Filosofia, religião, ciência e literatura sempre se enriqueceram mutuamente — assumindo as suas diferenças. A descoberta de Copérnico de que o Sol não orbitava a Terra, mas antes o contrário, levou Kant (1724-1804) a usar a Revolução Copernicana para descrever a sua metafísica. Ao contrário do que até então se pensava, não seriam os seres humanos a regular pelo mundo o conhecimento do mundo, mas antes o mundo a regular-se de acordo com o conhecimento humano. Insiste-se assim numa das mais persistentes ideias filosóficas — a ideia de que tudo no universo circula à nossa volta, entranhando-se pelas traseiras o antropocentrismo que Copérnico tinha refutado.

Mais recentemente, baseando-se na velocidade da luz, Bertrand Russell (1872-1970) concebeu um argumento contra o realismo ingénuo. Dado a luz do Sol demorar cerca de oito minutos a chegar à Terra, o que vemos quando olhamos o Sol não pode ser o próprio Sol. Esta é uma variante do argumento original de George Berkeley (1685-1753) segundo o qual uma sensação não pode ser idêntica ao objecto da sensação. Constituindo um dos argumentos a favor dos idealismos de tipo kantiano, baseia-se todavia numa confusão e peca por não considerar o papel crucial que a causalidade desempenha na percepção.

Na actualidade, os filósofos dividem-se entre os chamados “analíticos”, que cultivam a clareza e a literalidade, e os “continentais”, que cultivam a obscuridade da metáfora selvagem. Compete ao leitor encontrar um caminho entre a clareza solar e a obscuridade oracular.

Desidério Murcho
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