Heloise & Abelard
11 de Junho de 2005 ⋅ Opinião

As vidas dos filósofos

Desidério Murcho

Os filósofos constituem, desde a antiguidade, um dos objectos preferidos dos biógrafos. Depois do enorme sucesso da biografia de Wittgenstein, da autoria de Ray Monk, sucederam-se as biografias de filósofos, muitas de grande qualidade, redigidas por bons filósofos e historiadores de filosofia. Eis uma lista bastante incompleta de biografias filosóficas publicadas nos últimos anos.

Em 1991 publicaram-se biografias de John Dewey (de Robert B. Westbrook, na Cornell University Press) e de Michel Foucault (de Didier Eribon, na Harvard). Em 1993 saíram duas novas biografias de Michel Foucault (de James Miller, na Simon & Schuster, e de David Macey, na Pantheon). Uma biografia política de Heidegger (de Hugo Ott, na Basic Books), outra do pouco conhecido George Herbert Mead (de Gary A. Cook, na University of Illinois Press) e uma terceira, de Peirce (de Joseph Brent, na Indiana University Press), completaram o ano editorial em matéria de biografias de filósofos. No ano seguinte, Alan Ryan publicou uma biografia política de John Dewey na W.W. Norton. Em 1996 Ray Monk publicou o primeiro volume da sua odienta biografia de Russell e em 1998 surgiram duas biografias: uma sobre o posicionamento político de Heidegger (de Rüdiger Safranski, na Harvard) e outra sobre a vida de Isaiah Berlin (de Michael Ignatieff, na Metropolitan Books). Em 1999 surgiram as biografias de Ayer (de Ben Rogers, na Grove Press), Hobbes (de A. P. Martinich, na Cambridge University Press) e Espinosa (de Steven Nadler, na Cambridge, traduzida em Portugal). Em 2000 publicaram-se biografias de Hegel (de Terry Pinkard, na Cambridge) e de Popper (o primeiro volume apenas, de Malachi Haim Hacohen, na Cambridge). Em 2001 surgiram as biografias de Hayek (de Alan Ebenstein, na University of Chicago Press), Kant (de Manfred Kuehn, na Cambridge), Kierkegaard (de Alastair Hannay, na Cambridge), o segundo volume da biografia de Russell (de Monk) e ainda uma biografia colectiva do Clube Metafísico (cujos membros incluíam William James e Peirce), de Louis Menand (na Farrar, Straus and Giroux). A clássica biografia de Hume, de Ernest C. Mossner, originalmente publicada em 1954, foi reeditada neste ano na Clarendon Press.

Em 2002 surgiram duas biografias de Nietzsche (de Rüdiger Safranski, na Norton, e de Joachim Köhler, na Yale). Em 2003 a R. A. Kessinger reeditou a autobiografia de John Stuart Mill, assim como outras biografias, há muito fora de circulação, de Bacon, Maimónides, Paracelso e Espinosa, entre outros. É neste ano que Colin McGinn publica a sua maravilhosa autobiografia intelectual (The Making of a Philosopher), publicando Jay Martin a sua biografia de John Dewey (Columbia University Press) e Jean Grodin a sua biografia de Gadamer, na Yale. A biografia de Sartre da autoria de Bernard-Henri Levy, publicada entre nós pela Quetzal, foi publicada pela Polity Press em 2003. Neste ano, a University of Chicago Press publicou mais uma biografia de William James (de Jacques Barzun, autor de Da Alvorada à Decadência, Gradiva), e outra de Hayek (de Bruce Caldwell).

Em 2004 a Cambridge publicou biografias de John Stuart Mill (de Nicholas Capaldi), Henry Sidgwick (de Bart Schultz) e Anne Conway (de Sarah Hutton). A biografia de Adorno, de Stefan Muller-Doohm, foi publicada na Polity Press. A biografia da paixão entre Abelardo e Heloísa (de James Burge) foi publicada pela Profile Books. A Oxford publicou a biografia de H. L. A. Hart (Nicola Lacey), a Yale mais uma biografia de Adorno (de Lorenz Jager) e outra de Karl Jaspers (de Suzanne Kirkbright), e a Hutchinson uma nova biografia de Nietzsche (de Curtis Cate). Para 2005, estão anunciadas as biografias de Maimonides (de Herbert A. Davidson, na Oxford), Paul Grice (de Siobhan Chapman, na Palgrave) e Kierkgaard (de J. Gariff, na Princeton). Ross Leckie anuncia igualmente uma biografia ficcionada de Aristóteles (na Little Brown), com o título Aristotle's Alchemy, e que para já é a grande surpresa biográfica deste novo ano.

A morte recente de Derrida, Quine, Davidson, David Lewis, Bernard Williams e Hare faz prever novas bibliografias filosóficas para os próximos anos.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (5 de Fevereiro de 2005)
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