Março de 2003 ⋅ Ensino da filosofia

Que ensino da Filosofia?

Desidério Murcho

Em resposta a um artigo de Eduardo Prado Coelho que, no jornal Público, defendia a manutenção da Filosofia no 12.º ano, Guilherme Valente aponta, certeiro, dois aspectos cruciais. Em primeiro lugar, que a barbárie de que Eduardo Prado Coelho se queixa no seu artigo é uma realidade, apesar de a Filosofia existir há décadas no 12.º ano. Em segundo lugar, que precisamos de reflectir sobre que ensino da Filosofia queremos no nosso país. É sobre este aspecto que me permito avançar algumas ideias.

O aspecto crucial a ter em conta é que precisamos de romper com o isolacionismo salazarista que fechou as nossas universidades e escolas ao mundo. Precisamos de aprender com as experiências dos outros países, ver como o ensino funciona em países que produzem todos os anos patentes e ideias, livros e artigos especializados, filósofos, físicos e historiadores de renome internacional. Olhar não para copiar como maus alunos aplicadinhos e acéfalos, mas como iguais, com espírito crítico e mente aberta, sem medo da discussão de ideias e da discordância democrática. Ora, se fizermos isso, verificamos imediatamente que o nosso ensino da filosofia precisa de ser repensado.

Como argumentei no livro A Natureza da Filosofia e o seu Ensino (Plátano, 2002), os programas de filosofia do ensino secundário têm este aspecto infeliz: ao invés de se constituírem como faróis da qualidade do ensino, são, pelo contrário, obstáculos ao ensino de qualidade. Obstáculos que os muitos professores excelentes que temos por essas escolas têm de tentar ultrapassar, usando todos os estratagemas possíveis para “dar a volta” não apenas aos programas em si, mas ao modo como os piores colegas e manuais insistem em interpretá-los.

Numa reunião da Associação de Professores de Filosofia verifiquei como o fechamento provoca perplexidades que só nos fazem perder tempo. Aparentemente, muitos professores pensam que há dois modelos opostos de ensino da filosofia: um mais argumentativo e a-histórico, e outro mais histórico e acrítico. Mas esta é uma falsa dicotomia. No King's College London, onde sou bolseiro da FCT, essa dicotomia não se põe; por exemplo, para estudar a teoria ética das virtudes tanto é necessário estudar a Ética a Nicómaco, de Aristóteles, como os ensaios relevantes de Philippa Foot; para estudar o problema epistemológico da definição de conhecimento tanto é necessário estudar o Teeteto, de Platão, como o famoso ensaio de Gettier. A história da filosofia, em filosofia, é estudada não como história morta, mas como filosofia viva, e o objectivo do seu estudo é a discussão de ideias: Será que a teoria ética de Aristóteles é plausível? Será sólido o argumento de Santo Anselmo a favor da existência de Deus? O contacto com os clássicos da filosofia e a discussão crítica dos problemas, teorias e argumentos da filosofia, são duas faces da mesma moeda; não há qualquer dicotomia. O mesmo se pode verificar nos melhores livros de introdução à filosofia publicados por esse mundo fora, mas que infelizmente tardam a chegar a Portugal. (E aproveito para lançar o repto a Guilherme Valente: precisamos de mais livros na Filosofia Aberta, uma excepção no triste panorama editorial nacional em matéria de filosofia!)

A perplexidade acima indicada é, em parte, o resultado dos programas de filosofia que temos no secundário. No 10.º e 11.º anos temos um programa que transforma a filosofia em sociologia e psicologia de salão, sem qualquer referência clara e articulada aos problemas, teorias e argumentos clássicos e modernos da filosofia. No 12.º ano temos um programa que é apenas uma lista de dezanove obras de desigual importância filosófica, das quais o professor escolhe três que serão lidas na íntegra pelos estudantes (teoricamente...). Em ambos os casos os programas precisam de ser revistos.

A dificuldade em criar programas de filosofia adequados resulta do fechamento a que me refiro. Basta ler uma meia dúzia de bons livros de introdução à filosofia, para ver que os melhores seguem o padrão a que aludi: ao mesmo tempo que colocam os estudantes em contacto com os ensaios especializados dos filósofos, dão-lhes os instrumentos críticos para discutir as ideias dos filósofos, para enfrentar os problemas da filosofia, e para defender as suas próprias ideias de modo fundamentado. Como muitas vezes digo, é muito fácil fazer um programa de filosofia de qualidade: basta adoptar um bom manual de introdução à filosofia, como o Core Questions in Philosophy (Prentice Hall, 2001), do filósofo contemporâneo Elliott Sober. Não é preciso reinventar a roda.

Mas é preciso ser crítico e saber adaptar à realidade nacional as melhores ideias produzidas nas melhores escolas do mundo. O que exige abertura à discussão cordial, frontalidade, estudo e seriedade. Que são precisamente os ingredientes essenciais do ensino de qualidade... o que nos deixa num paradoxo, porque isso é o que nos faz falta. Mas isso fica para outra altura.

Desidério Murcho
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