30 de Setembro de 2003 ⋅ Ensino da filosofia

Errar é humano

Desidério Murcho

Um dos obstáculos à excelência do ensino e da investigação, que se reflecte na vida pública e económica do país, é uma atitude errada em relação ao... erro. O tipo de atitude de que vou falar está entranhada na cultura portuguesa e é uma das raízes mais profundas dos problemas estruturais que afectam o país em muitas áreas, impedindo o desenvolvimento.

Essa atitude caracteriza-se por considerar todo o erro um escândalo, uma vergonha, uma nódoa indelével a ensombrar para toda a eternidade a alma de quem errou. Esta atitude cultural tem os efeitos perniciosos que passo a descrever.

Em primeiro lugar, torna impossível a discussão crítica de ideias. Na cultura nacional, discordar de alguém é visto com maus olhos. Porquê? Porque se entende que se duas pessoas discordam, pelo menos uma delas tem de estar errada — o que é verdade. Mas como estar errado é um escândalo, a cultura portuguesa desliza logo para a pluralidade de “perspectivas”, para o relativismo fácil em que tudo vale, para a riqueza de “problematizações opostas” — recursos desesperados para evitar que se pense o escandaloso: alguém de nós os dois está a fazer um erro qualquer.

Esta atitude cultural implica imediatamente a troca de elogios mútuos sempre que duas pessoas que se prezam discordam, para garantir que não estamos afinal a dizer que pensamos que a outra está errada. O efeito disto é a paralisação da discussão racional de pontos de vista opostos. E o efeito disto é o empobrecimento cultural, pois é precisamente da discussão racional frontal, e sem tabus, de ideias opostas que nascem ideias melhores.

Na vida académica e escolar, o efeito desta atitude cultural perante o erro é devastador. Se alguém escreve um artigo ou um livro, é escandaloso que possa ter erros. Como tal, os autores apressam-se a usar todos os recursos possíveis para disfarçar os erros: muitas notas com centenas de referências, muitas citações, uma redacção embrulhada e falsamente erudita para desencorajar o leitor a pensar por si, etc. O resultado é precisamente o almejado: em Portugal, não há discussão filosófica entre pares. As pessoas publicam livros e artigos em português, mas ninguém discorda das ideias desses artigos e livros, que em qualquer caso estão enterrados em centenas de páginas de meros relatórios bizantinos do que os outros dizem. E assim a cultura filosófica nacional é uma quimera.

Em segundo lugar, esta cultura de intolerância ao erro tem um efeito paralisante. Se qualquer erro é um escândalo, tenho de garantir que o que escrevo não tem erros. Mas para garantir isso, tenho de levar anos a fazer o que poderia fazer em dois meses. Mas ao fim de anos a fazer a mesma coisa, uma pessoa aborrece-se. Por isso, mais vale nada fazer e ir ver futebol.

Felizmente, há cada vez mais sinais de que esta cultura paralisante e retrógrada está prestes a ser substituída por uma cultura escolar e académica desempenada, frontal, que encara a discordância e a discussão de ideias opostas como natural. No site de apoio ao manual A Arte de Pensar, há uma secção que encoraja as pessoas a expor aos autores os erros que encontrarem no manual. As pessoas da velha cultura ficarão chocadas: “Mas então estes idiotas escrevem um manual e admitem que tem erros? Que escândalo!” Sim, os autores admitem que o que fazem tem erros porque não são deuses nem daqueles académicos falsamente eruditos que por terem medo da discussão crítica escondem o que pensam por detrás de uma barragem de citações, palavras caras e parágrafos bizantinos. Ora, o que é irónico é que a probabilidade de haver menos erros quando se tem esta é... maior. Porque esta atitude não bloqueia a análise crítica, a discussão frontal. Porque esta atitude é incompatível com a ideia peregrina de que cada qual é perfeito e sabe tudo e não erra. Porque com esta atitude as pessoas aprendem, corrigem-se, levam a sério as críticas e as críticas são feitas com seriedade e não com um ar de escândalo e incredulidade, dando a entender que, porque se fez um erro, a pessoa não tem qualquer valor intelectual ou académico.

Não há livros nem artigos sem erros. Platão errou, Aristóteles também, e Descartes, Santo Agostinho ou David Hume, Saul Kripke ou Donald Davidson e Quine. E Einstein, Fernando Pessoa e Mozart. Toda a gente comete erros. Tudo o que podemos fazer é ser tolerante mesmo para com os erros que consideramos muito graves, e esclarecer frontalmente por que razão pensamos que são erros, e como podemos corrigi-los. Claro que ao fazer isto podemos também estar a errar, e é assim que se gera o diálogo crítico racional: a outra pessoa pode dizer “Isto não é um erro, estás a ver isto mal porque te enganaste no seguinte...”. E nada disto é escandaloso; pelo contrário, é encarado como a actividade principal e normal numa escola ou numa academia. É isto que, em grande parte, é uma escola ou academia, por oposição a uma confissão religiosa.

Compare-se a cultura escolar que encara o erro como um escândalo com uma cultura escolar que encara o erro como parte integrante do processo de aprendizagem. Se um erro é um escândalo, então o estudante será descontado por qualquer erro que fez, ainda que tenha feito outras coisas de muito valor. E isto é castrador. Pois se o aluno está a escrever um ensaio e sabe que qualquer erro será descontado na sua cotação, tudo o que ele irá procurar é fazer um relatório anónimo, que copie tão fielmente quanto possível as coisas que estudou. Esta é uma cultura escolar do copianço sofisticado: uma tese de mestrado, um livro ou um ensaio é apenas uma forma sofisticada de copiar fielmente e anonimamente as ideias dos livros alheios. No máximo, serve unicamente para exibir, tantas vezes com ademanes pavoneantes, que se compreendeu o que se leu. O que é manifestamente pouco.

Em contraste com esta cultura escolar, veja-se o que acontece aos meus estudantes. No meu departamento, os erros dos ensaios dos estudantes não contam. Só o que tem valor nos ensaios deles conta; e a originalidade é encorajada. Se o estudante escreve um ensaio com ideias boas que são fruto da sua reflexão, terá uma boa classificação, mesmo que tenha cometido erros algures. O estudante só tem notas negativas se nada do que disse, depois de excluídos os erros, tem qualquer valor. Isto não significa que os erros não sejam corrigidos; são-no, claro. O tutor corrige o estudante verbalmente ou por escrito; mas não o penaliza pelo erro. Deste modo, o estudante sente-se livre para tentar pensar por si e sabe que só isso lhe poderá dar boas classificações. Relatórios anónimos das ideias alheias nunca merecem mais de 50% quando são classificados. Por outro lado, os erros são eliminados naturalmente, no decurso da discussão aberta; o próprio estudante percebe que, para poder pensar correctamente sobre seja o que for, o seu pensamento não pode basear-se em erros. Mas ao mesmo tempo não fica paralisado com a perspectiva de cometer erros escandalosos; sabe que pode contar com a comunidade escolar para lhe corrigir os erros com bonomia.

Evidentemente, há erros e erros. Há erros muito graves e erros pouco graves. Mas quando se adopta a cultura do escândalo, todos os erros são escandalosos — todos são inacreditavelmente graves e quem os comete deveria cometer hara-kiri e desaparecer de circulação. Esta cultura é avessa ao desenvolvimento e é paralisante. Urge livramo-nos dela e passarmos a encarar o erro de forma natural, como uma oportunidade de ouro para entrarmos em diálogo com os nossos pares, com a alegria de quem sabe estar a dar a sua contribuição para fazer progredir a correcta compreensão das coisas. Se errar é humano, sabê-lo e assumi-lo é o que nos resgata do mais tosco provincianismo.

Desidério Murcho
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