31 de Dezembro de 2003 ⋅ Opinião

O caldinho

Desidério Murcho

Um dos aspectos terríveis da cultura escolar nacional (e não apenas escolar, mas é a escolar que nos interessa aqui) é que quase toda a gente anda à procura de caldinhos. Já referi este aspecto em editoriais anteriores, como "Cooperar ou Não" ou "Dilemas, Filósofos e Prisioneiros". Do meu ponto de vista, é esta cultura que se instalou nas nossas escolas e universidades que explica o estado deplorável do ensino e da investigação da filosofia no nosso país. Cada qual puxa para o seu lado, à procura do seu cantinho, da sua capela, do seu tacho.

É por isso que quando aparece alguém que está apenas a fazer o que é natural fazer-se nesta profissão — estudar, ensinar, divulgar, escrever, estimular, conversar, organizar — isso é imediatamente visto como um caldinho: "Este tipo", pensa-se logo, "está a preparar um caldinho." Um caldinho é uma manobra que se faz para se obter vantagens ilegítimas que de outro modo não se poderiam obter, manipulando os outros, passando-lhes à frente e ficando com o que de direito não lhe caberia — um lugar ao Sol, um emprego para a vida, prestígio público, seja o que for. O que é impensável é que a pessoa esteja unicamente a fazer o que é natural fazer-se — porque na cultura nacional isso não é natural. O que é natural na cultura nacional é cada qual na sua capela a dar-se ares de que manda no mundo.

Esta situação seria risível se não fosse trágica. Não é trágica por provocar injustiças pessoais — pessoas cujas acções absolutamente verticais em prol da profissão são vistas (por quem tudo vê em termos de caldinhos) como manipuladores à procura de caldinhos. É trágica porque afasta da profissão as pessoas mais rectas, mais honestas, cuja visão vai um pouco mais longe do que o seu próprio umbigo, a sua própria vidinha, os seus próprios benefícios alcançados à custa de muitos caldinhos cuidadosamente calculados. É trágica porque ao afastar os melhores talentos atrai os lobos solitários, os Grandes Génios Esquecidos que se caracterizam pela total incapacidade para explicar a um adolescente de 15 anos o que é um argumento sem estar a referir mil autoridades. É trágica porque atrai quem gosta do repetitorium e é incapaz de pensar por si mesmo, e não tem interesse em estimular os estudantes a pensar por si — por inveja, por despeito, porque nenhum estudante pode ir além do Grande Génio Esquecido.

Evidentemente, não devemos ser ingénuos e pensar que existem culturas onde quase todas as pessoas ultrapassam definitivamente o estado simiesco das invejas primárias. Mas devemos ver a diferença entre atletas que, com invejas primárias e vontades simiescas de passar à frente do parceiro, cumprem as regras da competição justa, e atletas com as mesmas invejas que não cumprem quaisquer regras, usam drogas para ganhar vantagens, passam rasteiras e colocam veneno na comida do parceiro.

Também não devemos pensar que a nossa cultura escolar está toda ela infestada de tarimbeiros. A maior parte das pessoas mantém apenas um distanciamento irónico, uma inação controlada, uma postura de falsa verticalidade. São como as pessoas que, numa cultura esclavagista, acham que está tudo bem com elas, desde que não tenham escravos; ou como os muitos alemães que achavam que estava tudo bem com eles desde que não participassem na política nazi.

Pessoalmente, não levo a sério os professores que dizem mal da profissão e nada fazem para a melhorar. E o problema é que, evidentemente, ninguém leva essas pessoas a sério. Porque nestas coisas o que conta é quem faz trabalho útil pela profissão e não quem canta de galo; quem conta é quem procura o bem da profissão e não quem faz revoluções à mesa do café, entre duas imperiais; quem conta é quem faz trabalho modesto mas que ajuda professores e estudantes, e não quem faz trabalho só para se autopromover, impenetrável para os seus colegas e para o seu público. Quem conta, numa palavra, é o professor competente. E é um pensamento feliz verificar que há cada vez mais professores competentes e trabalhadores por esse país fora.

Desidério Murcho
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