Solidão, de Frederic Leighton (1830-96)
7 de Janeiro de 2004 ⋅ Ensino da filosofia

Questões de estilo

Desidério Murcho

A cultura escolar portuguesa sofre de problemas profundos, entranhados na própria cultura nacional. Fazer o diagnóstico desses problemas ajuda-nos a resolver problemas que de outro modo parecem insolúveis. Um desses problemas é o estranho insucesso escolar, tanto no ensino secundário como no superior. Serão os estudantes portugueses particularmente broncos? Serão os professores portugueses particularmente incompetentes?

Penso que a resposta a estas duas perguntas é "Não". O problema resulta de certos aspectos da cultura escolar e universitária. Um desses aspectos é o problema do estilo. Todos aprendemos nas universidades a escrever e a exprimirmo-nos de maneiras rebuscadas, indirectas, pseudo-eruditas, pouco compreensíveis para o comum dos mortais. A ideia entranhada na cultura escolar e universitária que nos transmitiram e da qual a libertação é difícil é esta: a seriedade académica implica um certo estilo árido, rebuscado, de nariz empinado, com muitas palavras caras e rendilhados da expressão. Sem essa protecção lexical sentimo-nos despidos, comuns, indignos do valor e seriedade académica que desejamos.

Acontece que o problema é que o rei vai nu: por debaixo do estilo portentoso, estão ideias elementares, lidas alhures, está a falta completa de originalidade, está o relatóriozinho bem feito do que os outros dizem em volumosos e portentosos volumes. Leio ensaios que escrevi quando era estudante universitário, e é isso que leio: o que seria possível dizer directamente numa frase simples exprimo em três frases rebuscadas, repletas de eruditas referências e palavras gregas e latinas... e no fim de tudo isto, estou apenas a dizer qualquer coisa perfeitamente elementar e primária, que repete o que li ao longo de uma semana.

Note-se que é natural que um ensaio de ponta, seja de que área for (da matemática à história, da filosofia à biologia), contenha complexidades de exposição. Compete a gerações sucessivas de professores simplificar complexidades, eliminar irrelevâncias, focar o essencial. Daí que um conjunto de ideias ou teorias que podem ter demorado uma vida ao seu criador para as conceber possam alguns séculos ou anos depois ser ensinadas em quatro semanas a estudantes de dezoito anos. Se não existisse este processo de simplificação, o progresso do conhecimento seria impossível. As ideias, quando nascem, vêm desnecessariamente complicadas — mas isso é perfeitamente aceitável e desculpável.

Note-se igualmente que é natural e desejável que um autor queira exprimir-se de forma elegante, distanciando-se das marcas de oralidade. É igualmente natural que goste de fazer referências que julga interessantes ainda que, a rigor, sejam laterais e irrelevantes. Um autor gosta de comunicar, e há sempre mais para dizer do que o essencial que realmente precisamos de dizer para chegar ao fundamental do que está em causa.

Mas nada disto se deve confundir com a complicação desnecessária, a pomposidade do estilo arrogante e das palavras caras, o terrorismo intelectual de dizer coisas realmente simples de formas realmente tontas. Até porque quando alguém se dispõe a escrever deve perguntar-se honestamente: Que quero eu alcançar com isto? A resposta natural seria "Quero comunicar". Infelizmente, a nossa cultura universitária ensinou-nos a usar a palavra, escrita e falada, não para comunicar mas para aterrorizar. O objectivo não é estabelecer aquele contacto tão humano que resulta da compreensão mútua, mas antes lançar à cara do nosso auditório que somos realmente grandes académicos, grandes senhores deste pequeno mundo. Note-se que ninguém nos diz explicitamente para fazer isto; nem eu tinha consciência de que era isso que estava a fazer quando era estudante universitário. É um vírus que anda no ar, um aspecto da nossa cultura universitária que respiramos e adoptamos e imitamos sem nos darmos conta.

O estilo pomposo que nos ensinaram é um dos responsáveis máximos pelo insucesso do ensino. Professores competentes têm piores resultados do que seria possível porque os estudantes mal percebem o que eles dizem ou escrevem. Evidentemente, muitos estudantes não se atrapalham com o estilo. Não por serem necessariamente mais inteligentes ou talentosos, mas porque têm um contacto com a cultura que os outros não têm — muitas vezes unicamente porque são filhos de médicos ou advogados, ou porque gostam muito de ler e devoram livros. Mas o estilo pomposo e terrorista aliena muitos estudantes, que de outro modo teriam aproveitamento.

Se um estilo pouco acessível é aceitável num investigador de ponta, que faz progredir a área da sua especialidade, é absolutamente inaceitável num académico que não é autor de ideias originais, não é discutido e estudado por todo o mundo, e é incapaz de pensar por si mesmo algo que contribua para o progresso da sua área. Não há que ter vergonha de ser apenas um modesto professor. Sem modestos professores competentes, que nada inovam na sua área, não haveria os que inovam — porque sem professores competentes as ideias nunca seriam simplificadas, reduzidas ao essencial, despidas do acessório. Mas se não só não damos qualquer contribuição para a inovação na nossa área de estudo como nos damos ao luxo de complicar o simples e baralhar o óbvio através de um estilo pomposo e terrorista — então estamos mesmo a fazer mal o nosso trabalho, e estamos a erigir-nos como obstáculos ao progresso do conhecimento (e num tique de estilo pomposo estive quase a escrever "obstáculos epistemológicos" — e a alienar com isso alguns leitores).

Em conclusão, não temos os estudantes mais broncos do mundo, nem temos os professores mais incompetentes. O que temos é uma cultura escolar emproada que precisa rapidamente de ser substituída por outra — por uma cultura aberta, simpática, que cultive o gosto do conhecimento, a modéstia, a simplicidade, o gosto de ensinar e de aprender, de discutir ideias, de nos corrigirmos; uma cultura na qual seja de extremo mau gosto usar o conhecimento como arma de arremesso para aterrorizar incautos, dispersar estudantes e ganhar uma reputação imerecida.

Desidério Murcho
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