3 de Fevereiro de 2004 ⋅ Opinião

Lógica e amizade

Desidério Murcho

A lógica é muitas vezes encarada como uma actividade fria, cerebral e oposta às vivências humanas mais cândidas, entre as quais se contam a amizade. Penso que esta perspectiva das coisas trai uma incompreensão tanto da lógica como da amizade. É o que tentarei mostrar nestas linhas.

Segundo a perspectiva acima apresentada, a lógica é uma actividade racional por excelência, ao passo que a amizade é algo que está do lado do sentimento e da emoção, escapando por isso aos limites da racionalidade e consequentemente da lógica. Começa-se a desconfiar que há algo de errado com esta perspectiva quando se compreende que a capacidade dos seres humanos para avaliar argumentos (uma actividade lógica, portanto) é influenciada pelas condições emocionais em que as pessoas se encontram. Se as pessoas estão apressadas ou irritadas, têm tendência para aceitar argumentos falaciosos como se fossem bons argumentos. Se as pessoas se sentem bem, têm tendência para avaliar melhor os argumentos que lhes são apresentados. Assim, parece que a lógica e as emoções não são universos paralelos, mas antes aspectos da experiência humana que se influenciam entre si.

Avaliar e discutir argumentos é, na verdade, uma das tarefas humanas por excelência. Os nossos antecessores tinham de decidir: será melhor ir caçar para Norte ou para Sul? Que razões há para ir para Norte? E hoje reflectimos: será aceitável a prática do aborto, ou deverá ser proibida? Será aceitável discriminar negros, mulheres e pessoas de outras religiões que não a da maioria da população? Para cada uma destas perguntas, há duas formas de lhe responder: com cuidado e seriedade, com a desapaixonada paixão da lógica e da racionalidade, procurando o mais razoável; ou apressadamente e sem olhar às consequências desagradáveis, sem qualquer imparcialidade, procurando apenas maximizar os nossos interesses pessoais, ou os do nosso grupo, com a paixão cega da emoção selvagem. Pensar que a lógica e a racionalidade é algo que nos desumaniza parece, pois, uma falsidade sem fundamento. O que nos desumaniza é usar a racionalidade para fins irracionais, é argumentar falaciosamente a favor do irrazoável, apelando aos instintos irreflectidos da multidão, manipulando as pessoas e não lhes dando oportunidade para pensar serenamente.

A lógica não é incompatível com a amizade. Mas, mais do que isso, 1) a lógica pressupõe e gera amizade, e 2) a amizade exige-nos lógica. Comecemos por 1: a lógica pressupõe a amizade porque sem a disposição afável que resulta da amizade temos mais dificuldade em avaliar correctamente os argumentos e ideias alheias. Se não nutrirmos qualquer amizade pelas pessoas ou pelas ideias, a avaliação crítica dos argumentos dessas pessoas ou dos fundamentos dessas ideias terá tendência para ser apressada, redutora, cega e falaciosa. Teremos tendência para atacar homens de palha, que são meras caricaturas das ideias em discussão. E isso será um obstáculo ao desenvolvimento de ideias melhores. Quando lemos ideias com as quais discordamos veementemente temos tendência para ser mais injustos na nossa avaliação se não conhecermos pessoalmente ou se não nutrirmos amizade, ou pelo menos respeito, pelo autor ou autora dessas ideias.

Além disso, a lógica gera amizade porque ao avaliar cuidadosamente os argumentos alheios contactamos com uma parte importante da humanidade dos outros: a sua capacidade para pensar. Temos uma tendência natural para gostar de quem apresenta um pensamento honesto, límpido, aberto à crítica, e para nos afastarmos de quem usa os recursos do pensamento desonestamente, para manipular os outros, fechando-se em si mesmo e nunca se oferecendo à crítica alheia, apresentando-se falaciosamente como a Última Palavra ou a Verdade Absoluta.

Quanto a 2, a amizade exige lógica porque a amizade é incompatível com a manipulação. Manipulamos uma pessoa quando a usamos como um mero meio para os nossos fins, sem ter qualquer respeito pela sua inteligência nem pelos seus interesses. Manipular ou tentar manipular alguém é de tal forma grave que Kant pensava ser esse um dos princípios fundamentais da ética: nunca devemos tratar os outros como meios, mas sempre como fins, defendia ele. O que Kant queria dizer é que não podemos tratar os outros como se não tivessem capacidade autónoma para pensar e deliberar por si mesmos. Isto significa que se discordamos de alguém, ou se achamos que essa pessoa deve fazer uma coisa e não outra, o que temos a fazer é dialogar com a sua razão, com a sua capacidade para avaliar ideias criticamente, e não tentar persuadi-la irracionalmente a fazer ou a pensar o que, se lhes déssemos oportunidade para pensar claramente, ela não quereria fazer nem pensar. A amizade exige lógica porque a amizade exige respeito e respeitar a lógica numa troca de ideias é respeitar a humanidade da outra pessoa: a sua capacidade para deliberar, para pensar, para argumentar.

Em conclusão, há uma concepção deficiente da amizade (que não compreende que esta é incompatível com a manipulação) e da lógica (que não compreende que esta é uma das actividades humanas por excelência) que as coloca em campos opostos. Corrigidas estas incompreensões, a lógica e a amizade reencontram as suas relações mútuas no seio do que nos faz humanos.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Texto publicado na revista Ideação Magazine, ano 1, n.º 5 (Dezembro de 2003)
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