13 de Agosto de 2004 ⋅ Opinião

Incêndios, matemáticas e profissionalismo

Desidério Murcho

As médias nacionais dos exames de matemática do 12.º ano ficaram abaixo dos sete valores (de zero a vinte); os incêndios sucedem-se um pouco por todo o país. Estes são dois factos aparentemente sem qualquer relação. Neste artigo, contudo, pretendo mostrar que há uma relação íntima entre estes dois factos, mediada pela noção de profissionalismo.

O que há de mais notório tanto nos resultados dos exames nacionais, sistematicamente desastrosos, e nos incêndios constantes e cada vez em maior número e mais devastadores é este facto simples: nunca se ouvem profissionais da área a explicar as causas das coisas. Como é evidente, sem um correcto diagnóstico, é impossível resolver o problema. Mas tudo o que temos é diagnósticos de café, nos jornais. Não temos estudos académicos sérios sobre as causas de ambos os fenómenos — os profissionais da matemática e os profissionais da biologia e protecção florestal remetem-se ao silêncio público.

Conheço a situação porque acontece o mesmo no caso da filosofia. Até surgir o Centro para o Ensino da Filosofia (Sociedade Portuguesa de Filosofia), falava-se com qualquer profissional da filosofia e lá vinha a ladainha de tudo o que está mal, do atraso nacional, das bibliografias desactualizadas, das práticas escolares de fantasia. Mas tudo isso era apenas conversa de café; fazer estudos rigorosos sobre os problemas, apresentar trabalho útil e de qualidade — estas eram apenas miragens. Depois da conversa de café, cada qual recolhia-se à sua vidinha privada, com a alma lavada: fica-se com a sensação de que somos realmente superiores porque vemos quão mal vai o mundo da nossa profissão, mas não nos passa pela cabeça a atitude irresponsável e completamente anti-profissional que isto representa.

A ideia é muito simples: se os profissionais mais qualificados de cada área nada fazem para a melhorar, seriamente, com imparcialidade e profissionalismo, quem o fará? Um ministro? Isto é o mundo dos pés para o ar; é como abrir uma padaria e esperar que sejam os clientes a dizer-me como eu devo fazer o pão. Pelo contrário, são os profissionais de cada área que têm de informar os governantes, produzir obra útil, servir a sociedade nos aspectos relacionados com a sua profissão. Ser um profissional da matemática, da filosofia ou da biologia e protecção florestal não é dar oito horas de aulas por semana e comer pipocas o resto do tempo. Ser um profissional em qualquer destas áreas implica uma responsabilidade pública de intervenção e esclarecimento, caso seja necessário. Evidentemente, se eu for um profissional da filosofia ou da matemática num país onde as coisas estão razoavelmente bem encaminhadas, não tenho o dever de intervir publicamente — mas isso é precisamente porque há um acentuado profissionalismo na classe em geral e as coisas correm bem.

O discurso paralisante de quem diz que está tudo mal na sua própria área profissional mas nada faz é vergonhoso. Talvez seja esta mentalidade portuguesa que explica a situação que vivemos. Do ponto de vista desta mentalidade, cada qual é superior a todos os outros — mas não tem de o provar. Era melhor ser mais modesto e querer apenas fazer um trabalho profissional e útil, do que tentar ser Génio que Ninguém Ouve.

A objecção à ideia de que os profissionais não fazem o seu trabalho é a seguinte: eles fazem-no, mas os políticos, essa cambada, não os ouve. A resposta a esta objecção é a seguinte: estamos num círculo vicioso; os profissionais não são habitualmente ouvidos, quer pelos políticos quer pelos jornais, pela razão simples de que em geral nada têm para dizer que seja útil para os problemas do seu próprio sector. Portanto, ninguém os ouve. Como ninguém os ouve, abandonam aos amadores os problemas que só os profissionais podem resolver. E ficamos assim, paralisados. Ora, para acabar esta paralisia mental é necessário que os melhores profissionais comecem a intervir, a publicar, a explicar. Claro, a princípio ninguém quererá ouvi-los — o hábito de que estas pessoas só dizem coisas que não se percebem é antigo. Mas é necessário insistir. Nenhum ministro e nenhum jornalista vai bater à porta de um ilustre biólogo ou matemático ou filósofo desconhecido para lhe perguntar a sua opinião profissional sobre o estado das coisas e sobre o que se deve fazer para ficarmos melhor. Têm de ser os bons biólogos, matemáticos ou filósofos — que os há — a insistir em fazer-se ouvir. A experiência a que tenho assistido e participado nos últimos anos, no caso do ensino da filosofia, mostra que esta estratégia acaba por dar frutos. Na realidade, seria surpreendente que não desse frutos, já que é esta estratégia que funciona nos países civilizados. Claro que este argumento não convence os partidários do discurso paralisante, porque esses têm a teoria de que em Portugal o fogo queima mais, os alunos são mais estúpidos do que no resto do mundo e o país é sempre governado por ignorantes a soldo mal intencionados. Deixo ao leitor a avaliação destas ideias.

Desidério Murcho
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