Crença, de Terry Allen (n. 1943)
19 de Agosto de 2004 ⋅ Opinião

Epistemologia, teoria do conhecimento e filosofia da ciência

Desidério Murcho

Há um problema terminológico que precisa de esclarecimento. Apesar ser comum usar-se o termo "epistemologia" como sinónimo de "teoria do conhecimento" (o que está de acordo com a etimologia do termo), alguns autores usam o termo "epistemologia" para referir a filosofia da ciência. O objectivo destas linhas é explicar por que razão esta última opção é desaconselhável.

A ideia de que a epistemologia estuda o mesmo do que a filosofia da ciência resulta de uma confusão. Apesar de ser verdade que a filosofia da ciência se ocupa em parte da teoria do conhecimento científico — ou seja, da epistemologia da ciência — e apesar de ser verdade que a epistemologia estuda em parte o conhecimento científico, daqui não se segue que o objecto de estudo da epistemologia se esgote na epistemologia da ciência, nem se segue que o objecto de estudo da filosofia da ciência se esgote na epistemologia da ciência. Efectivamente, a filosofia da ciência ocupa-se tanto da epistemologia da ciência quanto da metafísica e da lógica da ciência. Os debates sobre a natureza das entidades teóricas, por exemplo, em que os filósofos se dividem entre instrumentalistas e realistas, são debates sobre a metafísica da ciência. E os debates sobre a subdeterminação das teorias científicas relativamente aos factos são debates sobre a lógica das teorias da ciência. Por outro lado, a epistemologia ocupa-se de muitos outros temas além da teoria do conhecimento científico. A epistemologia estuda o conhecimento e a crença em geral, e não apenas o conhecimento e a crença científicos, e também manifestações particulares de conhecimento ou crença, como é o caso da epistemologia da religião. De modo que a epistemologia e a filosofia da ciência têm objectos de estudo diferentes, que só por vezes coincidem.

Por outro lado, se adoptarmos a convenção de usar "epistemologia" como sinónimo de "teoria do conhecimento científico", empobrecemos a nossa linguagem e perdemos poder expressivo. Como falaremos, então, dos aspectos epistémicos da crença religiosa, por exemplo? Poderemos querer traçar aqui uma distinção linguística, e defender que "epistémico" se refere à teoria do conhecimento, ao passo que "epistemológico" se refere à epistemologia. Mas isto é didacticamente desaconselhável, dada a confusão desnecessária que vai provocar nos estudantes, além de linguisticamente errado. Pois a diferença entre "epistémico" e "epistemológico" é apenas a seguinte: "epistémico" refere-se aos fenómenos cognitivos estudados pela disciplina, ao passo que "epistemológico" refere a disciplina em si — o que acaba por significar que ambos os termos são quase sinónimos porque através do seu objecto de estudo acabamos por poder falar da disciplina, e podemos falar do objecto de estudo através da disciplina.

Estas são as razões pelas quais é uma boa ideia usar o termo "epistemologia" como sinónimo de "teoria do conhecimento". Evidentemente, na maior parte dos livros e enciclopédias disponíveis, esta é a prática habitual. Contudo, alguns autores franceses resolveram usar o termo "epistemologia" como sinónimo de "filosofia da ciência", por motivos que desconheço. Por este motivo, é conveniente esclarecer os estudantes deste facto.

Desidério Murcho
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