Natureza Morta com Loureiro e Azeitonas (pormenor), de David Ligare
25 de Setembro de 2004 ⋅ Opinião

Imaginação

Desidério Murcho

Ao escrever sobre algumas das virtudes necessárias ao bom desempenho do ensino e da investigação deixei propositadamente de fora a imaginação. Esta virtude central merece um tratamento separado dadas as confusões a que se presta e a importância que desempenha na criatividade.

A imaginação é uma condição necessária do ensino e investigação de qualidade. Mas entende-se por vezes a imaginação de um modo tão errado, que mais parece um obstáculo à qualidade escolar e académica. Por outro lado, entende-se por vezes a perseverança como se fosse oposta à imaginação, o que, a ser verdade, faria uma vez mais da imaginação um inimigo e não um aliado da excelência escolar e académica.

A imaginação é a capacidade para conceber possibilidades interessantes e relevantes. E não há receitas para saber se tais possibilidades são interessantes e relevantes. Concebe-se a imaginação erradamente, como mera associação estrepitosa de palavras, precisamente quando não se distingue entre as possibilidades interessantes e relevantes e as possibilidades desinteressantes e irrelevantes. Daí que nas más práticas académicas, como nas más práticas artísticas, se eleja a novidade pela novidade, independentemente do seu interesse e relevância, como forma de disfarçar uma falha fundamental de imaginação. A imaginação é o que permite artistas, filósofos e cientistas conceber possibilidades fecundas que antes ninguém tinha concebido, possibilidades que nos ajudam a alargar a compreensão, o conhecimento e o valor. Mas tais possibilidades têm de ser algo mais do que meramente novas. Afirmar que toda a filosofia se define na maneira como lavamos os dentes, ou que a epistemologia estuda o amor, é uma novidade surpreendente, mas não é uma possibilidade interessante. As possibilidades interessantes têm de ser algo mais do que meramente surpreendentes ou novas. Têm de ser cognitivamente fecundas, alargando o nosso conhecimento e a nossa compreensão.

Um dos exemplos mais interessantes do papel central da imaginação é o seu uso na lógica. Em si, este facto é surpreendente para quem tem uma ideia errada da lógica ou uma compreensão deficiente da sua natureza, pois tal pessoa tenderá a pensar na lógica como algo de mecânico e repetitivo, a definição suprema da falta de imaginação. Nada podia estar mais longe da verdade. É tão errado pensar na lógica desta maneira como é errado pensar que a música é mecânica e repetitiva porque as pautas musicais parecem mecânicas e repetitivas. Não se pode confundir a lógica, tanto formal quanto informal, com os cálculos mais ou menos infantis que se fazem quando aprendemos lógica nos bancos do liceu ou da faculdade. Tal como não se pode confundir a literatura com as redacções infantis que redigíamos nos bancos da primária.

Na verdade, a lógica é um instrumento que ajuda a alargar as nossas limitadas imaginações. Quando alguém defende que há uma causa para todas as coisas porque todas as coisas têm uma causa, as nossas limitadas imaginações precisam da ajuda da lógica para conceber uma possibilidade na qual seja verdade que tudo tem uma causa, mas falso que exista uma causa para todas as coisas. A lógica formal ajuda-nos até a encontrar outro argumento exactamente com a mesma estrutura, mas tão obviamente mau que convence o mais distraído dos pensadores: pois não é verdade que não aceitamos o argumento segundo o qual tem de haver uma língua que toda a gente fala porque toda a gente fala uma língua?

As demonstrações da lógica, que os mais desatentos e desinformados pensam tratar-se de algo puramente formal, são igualmente exemplos claros de como a lógica fertiliza e depende da imaginação. Pois uma demonstração é uma forma de encontrar um caminho logicamente possível, entre os muitos caminhos logicamente inválidos, que conduza das premissas para a conclusão. E fazer isso implica imaginar um caminho possível, verificar se está aberto, recuar, imaginar outro caminho, até conseguir encontrar uma possibilidade verdadeiramente lógica.

Não é por acaso que a imaginação é fundamental na lógica. Isto acontece porque a lógica é o estudo da argumentação e a argumentação é sobretudo uma questão de imaginação: trata-se de encontrar uma estrutura tal que, sendo as premissas verdadeiras, a conclusão não possa ser falsa — ou, pelo menos, uma estrutura tal que a probabilidade condicional de a conclusão ser falsa face à verdade das premissas é diminuta. Uma falácia é um argumento mau que parece bom; e parece bom porque nos falha a imaginação, e não "vemos" uma possibilidade que todavia existe, e que torna as premissas em causa verdadeiras e a conclusão falsa; ou torna a conclusão irrelevante porque nos escapa uma possibilidade que torna uma das premissas falsa. Daí que o Advanced Reasoning Forum use como mote a expressão "Imagine as possibilidades". Sem a capacidade para imaginar possibilidades, não há boa argumentação, raciocínio ou pensamento.

No trabalho filosófico a imaginação é crucial para podermos avançar objecções interessantes, contra-argumentos relevantes e dificuldades fundamentais; para podermos conceber novas possibilidades teóricas, que terão de ser testadas e submetidas à discussão crítica — que uma vez mais depende crucialmente da imaginação. No ensino, a imaginação é crucial para se transmitir aos estudantes a força dos problemas, os pontos fortes e os pontos fracos das teorias e dos argumentos; é crucial para imaginar novas formas de leccionar as matérias, de estimular o pensamento crítico, de avaliar as competências.

A imaginação murcha e empobrece sem a perseverança, e é irónico que as duas noções sejam habitualmente entendidas como pólos opostos e até incompatíveis. Ninguém se senta a um banco, cheio de imaginação, e escreve um romance de 400 páginas, compõe uma sinfonia ou concebe uma teoria filosófica num assomo de imaginação criativa, só por si. Conta-se que quando Paul Valéry conheceu Albert Einstein lhe confessou que andava sempre com um bloco de notas, para apontar as ideias assim que lhe vinham ao espírito, ao que o físico respondeu que não precisava de tal coisa porque em toda a sua vida só tivera uma ou duas ideias que valessem realmente a pena apontar. Há sabedoria na resposta de Einstein, pois a ideia central é que numa vida criativa deitamos fora a maior parte das ideias que a nossa imaginação concebe. E é aqui que se vê um dos aspectos da importância da perseverança. Pois sem perseverança desiste-se de continuar a tentar imaginar ideias melhores.

O outro aspecto da perseverança é o facto crucial de que só o domínio dos aspectos técnicos e aparentemente estéreis de uma dada arte ou ciência nos permite depois imaginar possibilidades verdadeiramente interessantes e relevantes. Ao contrário do que se pensa, quem não domina a lógica não é mais livre por isso — pelo contrário, é menos livre porque é incapaz de imaginar possibilidades interessantes e relevantes, tal como quem não domina a gramática é menos livre na sua expressão porque é incapaz de imaginar possibilidades expressivas interessantes e relevantes.

Compreende-se assim por que razão resulta de uma confusão a ideia de que a perseverança se opõe à imaginação, tal como é falso pensar que a imaginação é o mero engendrar de novidades bombásticas. Juntas, estas confusões dão origem ao Professor Tanto Faz. O Professor Tanto Faz elogia a novidade pela novidade — a associação infantil de palavras, a expressão surpreendente e hipnotizadora — porque desconhece a verdadeira imaginação fecunda; é como alguém que faz o elogio da novidade triunfante de um poema pela sua ousadia gramatical até descobrir que este resulta da mera manipulação mecânica de um computador.

Sem imaginação não teríamos ciências, filosofia ou artes. Mas se não distinguirmos as possibilidades interessantes e relevantes, oferecidas pela imaginação, das possibilidades desinteressantes e irrelevantes, tornaremos impossível a verdadeira criatividade e consequente a filosofia e o seu ensino — actividades que fenecem quando nos falta a imaginação.

Desidério Murcho
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