Vestíbulo da Biblioteca Laurenciana, de Miguel Ângelo
26 de Setembro de 2004 ⋅ Opinião

Será a filosofia possível?

Desidério Murcho

Um dos obstáculos ao ensino e investigação de qualidade é a estranha noção de que a filosofia, propriamente falando, não é realmente possível. Investigar, como o fez Kant ou Descartes, a natureza última do mundo ou da mente, é encarado como uma ingenuidade de filósofos mortos. Hoje, tudo o que podemos fazer é comentar os seus textos, com o distanciamento de quem comenta textos de astrólogos: o que eles fazem não é para ser realmente levado a sério.

Esta situação é estranha, mas compreensível. Se não temos contacto com o que se passa no resto do mundo, onde a filosofia é uma coisa viva que se faz todos os dias, e não uma actividade própria de um Clube de Filósofos Mortos, teremos tendência para pensar que a filosofia não é realmente possível. O mesmo se poderá dizer de alguém que ignora os últimos desenvolvimentos da ciência ou das artes. Uma pessoa sem informação nem formação científica ou artística não acredita que seja possível saber com alguma exactidão há quanto tempo ocorreu o Big Bang e como se deu efectivamente tal coisa; nem acredita que seja possível escrever música num papel, que depois poderá ser tão fielmente executada que a muitos ouvidos soa exactamente igual com orquestras e maestros diferentes.

Estamos assim numa situação em que os próprios profissionais da filosofia, professores e investigadores, se acham perante a disciplina como se fossem amadores que nada conhecem dela. Daí que pareça ingénuo a estes profissionais amadores que se leve a sério a discussão dos problemas filosóficos centrais. Fazer filosofia não é comentar o que disseram os filósofos mortos, é filosofar sobre os problemas da filosofia — mas esta perspectiva parece ingénua aos profissionais amadores, que se defendem de várias maneiras. Uma dessas maneiras é o relativismo cognitivo metodológico.

O relativismo cognitivo é evidentemente um dos problemas centrais da filosofia — será que todas as verdades são relativas ou não? Mas é preciso distinguir claramente a discussão deste problema filosófico, que tem de proceder sem aceitar metodologicamente o relativismo cognitivo, da aceitação dogmática do relativismo cognitivo na nossa metodologia. A diferença é a seguinte: Quando se discute o relativismo cognitivo seriamente, adoptamos uma postura racional, crítica e aberta à discussão, atenta aos argumentos, e que procura evitar falácias e ilusões; mas quando se adopta o relativismo cognitivo metodologicamente, então tudo vale porque tudo é relativo, e a discussão não procede porque seja o que for que alguém possa afirmar, a outra pode recusar sem razões nem argumentos, recorrendo a falácias ou a confusões — porque tudo é aceitável, tudo são perspectivas metodológicas igualmente "válidas".

O relativismo cognitivo, entendido não como um problema filosófico que não pode ser discutido em termos relativistas, mas como um método dogmaticamente óbvio, torna impossível a filosofia. Cada filósofo torna-se uma ilha — Kant tem razão, sim, do seu ponto de vista, mas nós sabemos que tudo não passa de uma fantasia. Deste ponto de vista, levar Kant a sério é tão ingénuo e estranho como discutir se Eça de Queirós tinha razão ao afirmar que Carlos da Maia era moreno. Carlos da Maia é uma mera ficção, claro, e por isso este tipo de perguntas não faz sentido. E do ponto de vista do relativismo cognitivo metodológico as ideias de Kant são ficções que não faz sentido discutir como se fossem ideias vivas que nos interpelam hoje.

Se as ideias de Kant não são ideias vivas que nos interpelam hoje, o que resta? Resta o comentário, a paráfrase, a análise literária do texto de Kant, a exposição dos ocultos do texto — um trabalho claramente literário, como se Kant tivesse escrito romances e não filosofia. Daí que Deleuze pense que a filosofia é poesia conceptual — trata-se "inventar mundos", literalmente, como os romancistas inventam mundos, e não de expor teorias que procuram resolver problemas reais.

Deste ponto de vista, o ensino da filosofia sofre uma enorme distorção. Não se espera nem se permite que o estudante filosofe, ainda que de forma incipiente. O que se quer é que o estudante faça comentários de texto: elucubrações lexicais, baseadas em associações superficiais de palavras, e desmontagens literárias do texto filosófico, de preferência que auto-elogiem a filosofia e sejam inspiradoras. Pensar directamente e seriamente sobre os mesmos problemas que ocuparam e ocupam os filósofos é visto como uma ingenuidade. Perguntar a um estudante "Concordas com o argumento de Descartes de que temos uma mente independente do corpo porque a nossa existência é uma certeza ao passo que a existência do nosso corpo pode ser uma ilusão?" é encarado como uma ingenuidade e uma irrelevância. Mas isto, claro, é precisamente o que se faz por esse mundo fora nas melhores universidades.

O resultado deste estado de coisas é a falta de prática filosófica. Os estudantes chegam ao doutoramento sem saber pensar, sem ter a prática filosófica de enfrentar problemas, testar soluções, enfrentar contra-argumentos, apresentar objecções, construir teorias. Não é assim de espantar que hoje nenhum filósofo português seja discutido e referido nos melhores fóruns filosóficos internacionais, ao passo que os filósofos de outros países são sistematicamente discutidos e referidos nesses fóruns. Este é o resultado óbvio de pensar ingenuamente que a filosofia não é possível.

Contudo, a filosofia é possível; está aí. Basta ler vários livros introdutórios de metafísica, estética, filosofia política, ética, filosofia da linguagem, epistemologia ou filosofia da religião para compreender que há problemas centrais em todas estas áreas, problemas que são discutidos hoje tal como o eram no passado; e basta ler algumas antologias de ensaios filosóficos clássicos e contemporâneos para ver que é isso precisamente que fazem os filósofos de hoje e de ontem: discutem problemas; não fazem exegese de textos nem análises literárias dos textos dos outros filósofos.

Se falarmos com uma pessoa sem formação nem informação filosófica, a sua reacção ingénua e intuitiva será dizer que não é possível saber, por exemplo, se Deus existe. De modo que é absurdo levar o problema a sério e procurar dar-lhe uma resposta — positiva ou negativa. Por outras palavras, a atitude ingénua e desinformada, perante a filosofia, é igual é atitude que se tem perante as ciências ou as artes: tais coisas não parecem possíveis à primeira vista. Mas esta é a diferença que permite a alguns seres humanos humanizar a humanidade: a atitude do fazer, do tentar e do conseguir o que antes parecia incrível. É esta confiança que caracteriza os cientistas, os filósofos e os artistas — os fazedores. O grave é que a reacção ingénua e popular quanto à possibilidade da filosofia esteja presente nos profissionais — professores e investigadores que não acreditam no projecto da sua própria disciplina.

O relativismo cognitivo metodológico é apenas um dos muitos elementos de fuga à discussão filosófica, que resulta da descrença na possibilidade da filosofia. É por vezes até chocante ver como se recorre aos mais artificiosos sofismas para desqualificar o que não pode ser desqualificado sem desqualificar a própria filosofia. Pessoas que quotidianamente usam a noção de verdade, por exemplo, para avaliar políticos, decisões de tribunais ou para trazer leite do supermercado, entram imediatamente em registo sofístico quando se fala da verdade num contexto filosófico. "O que é a verdade?", pergunta-se logo, como Pilatos, com o mesmo objectivo de lavar as mãos dos peganhentos problemas filosóficos. A ideia é que é ingénuo pensar que vale a pena tentar descobrir o que é verdade ou o que é mais plausível pela via da argumentação e do pensamento sistemáticos; tudo são perspectivas e portanto cada qual tem as suas, restando a cada um adoptar a perspectiva que lhe agrada mais, talvez por motivos estéticos ou até gastronómicos. Repare-se que a pergunta "O que é verdade?" é sofística no sentido em que procura ser uma pergunta paralisante, uma proibição do pensamento; não se trata de uma forma de dar início ao que poderia ser uma discussão interessante, informada e profícua, sobre o problema metafísico da verdade, discutido por filósofos como Tarski, Davidson, William James, Dummett ou Horwich.

O resultado deste estado de coisas é uma distorção completa da disciplina. Na faculdade temos cadeiras com nomes como "Filosofia política" ou "Ética" nas quais não se estudam os problemas centrais da disciplina, problemas explicados e discutidos nos melhores livros de introdução a tais disciplinas e nas antologias de textos clássicos e contemporâneos. O que se estuda são "perspectivas" ou "vertentes políticas" do pensar (sic) de alguém, em geral filósofos menores, em detrimento dos grandes filósofos clássicos e contemporâneos. Na verdade, parece até que o resultado mais saliente das licenciaturas portuguesas de filosofia é uma certa aversão à própria disciplina, um olhar distanciado e irónico perante a possibilidade da filosofia. Neste estado de coisas, não é de estranhar que os programas de filosofia do ensino secundário consigam encher páginas sem fim de palavreado oco, sem jamais referirem um problema, teoria ou argumento central da disciplina. Deste ponto de vista, estudar filosofia não é estudar os problemas, teorias e argumentos centrais da disciplina, que foram discutidos pelos grandes filósofos clássicos e que continuam a ser discutidos pelos grandes filósofos de hoje; problemas, teorias e argumentos que podemos encontrar nos melhores livros introdutórios às diferentes disciplinas da filosofia, e nas melhores antologias de textos filosóficos clássicos e contemporâneos. Deste ponto de vista, estudar filosofia é referir vagamente várias coisas, sempre no registo de quem estuda cultura geral ou línguas mortas.

Há um momento em que temos de nos libertar desta deformação a que fomos submetidos nas faculdades. Eu tive de fazer isso, e qualquer pessoa que goste de filosofia e se entregue com profissionalismo à sua profissão — seja investigador ou professor — tem de fazer o mesmo. Temos de compreender, com grande humildade, que nos compete estudar, depois da formação universitária, o que nessa formação nos foi proibido: usando bons livros de introdução às diferentes disciplinas da filosofia, temos de ter uma compreensão global de cada uma das áreas, e temos de estudar os problemas, teorias e argumentos centrais da filosofia, apresentados nas melhores antologias a cada uma das áreas disciplinares. Se não fizermos este trabalho, seremos sempre profissionais amadores da disciplina. Em suma, é preciso agora estudar o que infelizmente não pudemos estudar nas faculdades: os problemas, teorias e argumentos centrais de cada área disciplinar, e os filósofos centrais, de ontem e de hoje. Só isso nos permitirá desempenhar com a excelência que todos desejamos as tarefas de professor ou de investigador. E não há que ter vergonha da nossa falta de formação; não há que ter vergonha de perguntar, pedir informações ou esclarecimentos. Tentar esconder as nossas deficiências de formação e as nossas lacunas é o pior que podemos fazer. E tem até a desvantagem de impedir uma das mais marcantes experiências humanas: a experiência de aprender com os outros.

Desidério Murcho
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