Matrix: cena do filme
1 de Outubro de 2004 ⋅ Opinião

O mundo da Matriz

Desidério Murcho

Para minha surpresa, verifiquei que a maior parte dos professores de filosofia com quem contactei recentemente ignorava um importante recurso didáctico no domínio audiovisual: o filme Matrix, dos irmãos Wachowski (1998). Agora que um novo episódio se prepara para reactivar o interesse por este filme, é tempo de acordar do sono dogmático do formalismo escolar e estabelecer pontes com os estudantes.

Este filme encena um argumento filosófico tradicional, conhecido como "o argumento do cérebro numa cuba", ou "o argumento do génio maligno". Trata-se de argumentos que procuram estabelecer a seguinte tese: o mundo tal como o vemos é apenas uma ilusão dos sentidos. A origem dessa ilusão é irrelevante: pode ser um cientista louco (versão cérebro numa cuba), que colocou o meu cérebro numa cuba e o ligou a um supercomputador que simula todas as minhas sensações do mundo exterior, ou um génio maligno (versão de Descartes) que (magicamente?) me engana sistematicamente fazendo-me acreditar que vejo uma árvore quando nenhuma árvore existe no mundo exterior às minhas sensações.

O filme Matriz ilustra dramaticamente este tipo de possibilidade: neste caso, uma civilização de máquinas inteligentes usa os seres humanos para produzir energia, mantendo-os em estado vegetativo, ligados a supercomputadores que simulam um mundo que não existe senão como simulação: a Matriz.

Em "Philosophy & the Matrix" os vários aspectos filosóficos do filme são discutidos por alguns dos mais importantes filósofos contemporâneos — como Colin McGinn, Hubert e Stephen Dreyfus, James Pryor e David Chalmers. O resultado é um rico conjunto de ensaios adequados, uns, para o público mais geral e estudantes mais novos, outros para um público mais especializado, incluindo universitários. Trata-se de um exemplo notável de como se pode usar a Internet para estabelecer "pontes" entre a cultura popular, a cultura superior e o ensino — sem cair no superficialismo nem no falso didactismo.

Um excerto do ensaio de Chalmers está publicado na Crítica.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Originalmente publicado na revista Os Meus Livros, 12 (Junho de 2003).
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