Quatro, de Marla Olmstead (n. 2000)
2 de Outubro de 2004 ⋅ Opinião

O que não é a filosofia?

Desidério Murcho

Há por vezes uma tendência, compreensível mas errada, para dizer que uma obra de arte muitíssimo má não é sequer uma obra de arte. Analogamente, quando um trabalho de ciência ou de filosofia são muito maus, há a tendência para dizer que não são sequer ciência ou filosofia. Esta é uma tendência compreensível porque a ideia é que uma prática artística, científica ou filosófica tão destituída de valor que evidentemente não procura sequer alcançar a excelência e a seriedade dos melhores exemplos de arte, ciência e filosofia é algo que parece querer auto-excluir-se da arte, da ciência ou da filosofia. Mas é uma tendência errada porque se tais práticas não forem má arte, má ciência ou má filosofia nada são — e poderão até ser respeitáveis, "segundo os seus critérios". Já se está a ver que o relativismo metodológico que aqui se manifesta desempenha o papel que é habitual desempenhar: defender o que, sob quaisquer critérios que possam ser criticamente discutidos, não tem qualquer defesa.

Assim, o meu título é enganador. Não vou falar do que não é a filosofia. Mas vou falar do que não é o ideal da filosofia. Como algumas práticas filosóficas parecem ter por ideal algo que na realidade não é o ideal da filosofia — e se o fosse, transformaria a filosofia em astrologia ou alquimia — o meu título faz sentido: trata-se de defender que algumas práticas filosóficas falham o alvo porque têm por ideal algo que não é o ideal da filosofia.

Para cada prática correcta há mil maneiras de a entender e fazer mal. Que a filosofia é inspiradora é evidente — como a arte ou a ciência. Mill, e a sua defesa da liberdade e dos direitos das mulheres, é inspirador; Singer, e a sua defesa de um mundo com menos sofrimento, alargando o nosso cuidado para lá dos nossos interesses egoístas, é inspirador; Russell, e o seu humanismo pacifista, é inspirador. Mas em todos estes casos, e em muitos outros ao longo da história da filosofia, a inspiração resulta da força das ideias e dos argumentos — não é a força das ideias e dos argumentos que resulta do poder inspirador das palavras. Ora, uma das formas mais comuns de fazer mal filosofia é procurar ideias inspiradoras, mas com base unicamente no formalismo oco do léxico retorcido e da frase obscura. O resultado, a maior parte das vezes, são ideias desinteressantes pela banalidade, mas que cativam os menos críticos com o colorido do léxico rebuscado. Se eu disser que toda a gente morre, isto não impressiona nem inspira ninguém. Mas se eu falar do Nada (com letra maiúscula) e se eu disser que o Homem é um Ser para a Morte (tudo com muitas maiúsculas), já parece que estou a dizer uma coisa profunda. Claro, só parece tal coisa se entrarmos no jogo e fecharmos o nosso espírito àquela vozinha incómoda que nos faz a pergunta socrática: "Que quer isso realmente dizer?" Acontece que sem essa vozinha ninguém pode fazer boa filosofia.

Quando a filosofia se mascara de instrumento respiratório — para inspirar espíritos acríticos — perde a sua verdadeira natureza; torna-se uma espécie de astrologia: imita o tecnicismo da filosofia séria, mas perdeu-lhe a substância. O problema, note-se, não é o facto de ser ou deixar de ser inspiradora; o problema é o facto de ser infantil, fechada à discussão crítica e baseada em jogos de palavras.

Apresso-me a dizer que o problema não é o facto de este ou aquele filósofo se exprimir de forma idiota — o problema é achar que devemos imitar essa forma, porque é profundo, acabando por nunca discutir as suas ideias verdadeiramente importantes. Heidegger ou McDowell ou Wittgenstein escrevem de forma ridícula, mas têm ideias interessantes. O erro é imitar-lhes os ademanes e parafraseá-los infinitamente, mas não ir ao centro das suas ideias e perguntar: "Será que têm razão? Será esta ideia plausível? Será iluminante? Haverá contra-exemplos? Haverá melhores alternativas?" A filosofia séria e de qualidade pode subsistir com alguns filósofos que não sabem exprimir-se adequadamente, ou que pretendem impressionar os incautos e cultivar a imagem de génio, desde que outros façam o trabalho socrático que tem de ser feito. Mas se não formos directos à jugular, tudo o que fazemos é imitar ademanes linguísticos e repetir banalidades de ar profundo.

O relativismo metodológico é o primeiro aliado da má filosofia, assim como da má ciência. Quando dizemos a um astrólogo que o que ele faz é má ciência, a resposta não se faz esperar: "Só do ponto de vista redutor da ciência académica", dirá. "Mas a ciência académica não é a única forma de fazer ciência; devemos ser mais abertos e tolerantes; há muitas maneiras diferentes de fazer ciência". É verdade que há muitas maneiras diferentes de fazer ciência, tal como há muitas maneiras diferentes de fazer arte ou filosofia. Mas daqui não se segue que todas as maneiras são igualmente boas, e também não se segue que não devamos ser críticos relativamente aos diferentes métodos — excluindo os piores e aceitando os melhores. Mas isso é precisamente o que o relativismo metodológico procura: quer fazer-nos aceitar sem discussão métodos que só subsistem se os aceitarmos sem discussão. Mas isto é contrário ao estudo genuíno da natureza das coisas. É impossível estar genuinamente interessado no estudo de algo e não procurar o melhor método — ou, pelo menos, não ter uma perspectiva crítica perante os métodos possíveis. Uma pessoa que afirme estar muito interessada em descobrir se há caracóis no jardim das traseiras, mas se recusa a levantar-se da cadeira para ir ver se há lá caracóis, não está genuinamente interessada. Do mesmo modo, uma pessoa que afirme estar muito interessada nos problemas filosóficos ou científicos, mas escolhe deliberadamente métodos que, fossem submetidos à discussão pública, seriam indefensáveis, não pode estar genuinamente interessada. É fácil dizer que uma dada perspectiva é redutora, mas não há perspectiva mais redutora do que a que aceita dogmaticamente um dado método, independentemente da sua adequação ao objecto de estudo.

Em qualquer prática académica ou artística saudável coexistem diferentes métodos. O que não podem é coexistir quaisquer métodos, independentemente da sua plausibilidade e seriedade. No estudo das emoções em filosofia, para tomar um exemplo de uma área recentemente renascida, há filósofos que trabalham mais directamente sobre os dados da psicologia evolutiva; outros, que trabalham mais directamente sobre a relevância moral e o papel das emoções na moral; outros, que procuram esclarecer a relação entre as emoções morais e o problema da motivação moral. Em função dos diferentes objectos de estudo, usam-se diferentes métodos. Mas qualquer que seja o método usado, esse método tem de poder mostrar que é adequado relativamente ao objecto de estudo; que se pauta pela procura da verdade e da plausibilidade; que apresenta resultados susceptíveis de discussão e avaliação pública e racional; que resiste a objecções e contra-exemplos. Ora, isto é precisamente o que não acontece com os métodos cuja única defesa é o relativismo metodológico.

O relativismo metodológico é a defesa de quem não tem defesas. Por mais diversos que possam ser os métodos para estudar filosofia da religião, por exemplo — e há muitos métodos — nenhum pode ter como consequência o abandono dos problemas centrais desta disciplina: Será que existe Deus? Será a sua existência compatível com a existência do mal? Será a crença religiosa defensável em termos pragmáticos? Será a crença em Deus uma crença básica, que não carece de justificação em termos de indícios? Qualquer estudo da filosofia da religião que substitua estes e outros temas centrais por jogos de palavras, pela exegese de textos, pela "análise" da representação que as pessoas faziam de Deus no séc. XIV, pelo significado oculto da palavra "Deus", etc., é um estudo sem seriedade.

Analogamente, qualquer prática académica que despreze os métodos racionais de controlo de erros — submissão duplamente anónima de artigos em revistas da especialidade, submissão anónima de comunicações em conferências, discussão aberta com os pares, discordância frontal, tentativa de refutação, procura de contra-exemplos — não é uma prática académica séria. É-se até tentado a dizer: não é uma prática académica, é um circo. Analogamente, um currículo académico sem artigos publicados em revistas com submissão anónima não é uma vergonha apenas de um certo ponto de vista, mas aceitável de outros; é uma vergonha, sem mais qualificações, seja qual for o ponto de vista.

A filosofia não é a arte de dizer banalidades de maneiras contorcidas. A filosofia não é também uma prática na qual seja impossível errar. Estas duas verdades comezinhas, implicam duas coisas. Em primeiro lugar, há uma exigência de clareza, de sobriedade na linguagem, de ir directo ao que se quer realmente defender, sem rodeios. Autores embrulhados como Wittgenstein, Heidegger ou McDowell têm de ser encarados como excepções infelizes, que nos damos ao trabalho de ler só porque apesar da idiotice gramatical, têm ideias interessantes — não são interessantes por causa do lodo linguístico em que se afogam. Em segundo lugar, há uma exigência de discussão crítica entre pares, de publicação em revistas com submissão anónima, de discordância frontal, de procura de contra-exemplos. As ideias interessantes em filosofia são interessantes porque resistem às objecções e aos contra-exemplos da discussão frontal — não ficam ilibadas da discussão frontal por já se saber que são interessantes. Quando as práticas filosóficas não cumprem estas duas exigências, estão à partida a desqualificar-se como filosofia. Contudo — como acontece com a má arte e má ciência — se não se qualificam como filosofia, não se qualificam como outra coisa qualquer. Tais práticas são filosofia, por mais que em termos populares sejamos tentados a dizer que não. Temos é de abandonar a ideia popular de que só porque é filosofia é bom, tal como temos de abandonar a ideia de que só porque é arte ou ciência é bom. Infelizmente, há má arte e má ciência — e seria de espantar se não houvesse má filosofia. E é precisamente a ideia de que nem todas as práticas, só porque são práticas, são boas que urge não esquecer.

Desidério Murcho
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