Trabalhador
9 de Novembro de 2004 ⋅ Opinião

Filosofia e profissionalismo

Desidério Murcho

A filosofia é uma disciplina fundamentalmente especulativa. Em filosofia, os resultados estabelecidos não têm grande interesse, excepto enquanto instrumentos para investigar o desconhecido. Na verdade, qualquer verdadeira ciência é precisamente assim; a diferença é que no caso das ciências como a física ou a biologia há tantos resultados relativamente estáveis que se pode ter a ilusão de que compreender esses resultados é ser um cientista. Efectivamente, não é; quem se limita a compreender tais resultados é apenas uma espécie de tecnocrata da ciência. A verdadeira ciência está nas fronteiras. Contudo, os resultados científicos têm um efeito salutar: tornam muito fácil distinguir a especulação disparatada e amadora da especulação profissional. Como se faz tal distinção? Porque o verdadeiro cientista domina e compreende os resultados da ciência, resultados cujo domínio e compreensão não é algo que se faça em dois meses — demora alguns anos. As especulações amadoristas de quem não domina o fundamental da ciência não são levadas a sério.

Em filosofia, contudo, porque os seus resultados são muito reduzidos, a maior parte das pessoas — incluindo alguns cientistas — pensa que basta ter lido três livros, ter pensado um bocado à mesa do café e já está: aí temos um filósofo, pronto a disparar opiniões verdadeiramente interessantes para o mundo ouvir e se maravilhar. Isto, evidentemente, é uma tolice. Quem desconhece os problemas, teorias e argumentos centrais da filosofia da ciência pouco ou nada de interessante pode dizer sobre esta área da filosofia; quem desconhece os problemas, teorias e argumentos centrais da metafísica pouco ou nada de interessante pode dizer sobre esta área da filosofia; e assim por diante. Contudo, muitas pessoas insistem de forma arrogante em dar palpites, usando ideias e terminologia que mal compreendem, referindo filósofos que nunca estudaram, e fingindo dominar o que não dominam.

Esta reacção é natural; mas a ilusão de que se pode fazer filosofia de forma sofisticada sem estudar filosofia é apenas uma ilusão — como a ilusão de que se pode tocar piano de forma sofisticada sem investir alguns anos na sua aprendizagem. O que não é natural é um sistema de ensino, tanto secundário como universitário, que em vez de desencorajar esta ilusão a alimenta. E alimenta-a porque os licenciados saem das faculdades sem terem adquirido aqueles instrumentos, competências e conteúdos intrinsecamente filosóficos que os possam distinguir do caixeiro-viajante que é capaz de cantar de ouvido uma série de histórias vagas sobre Popper e o Ser e a lógica.

A tão necessária dignificação e profissionalização da filosofia está num estado nascente em Portugal. Há sinais de que se começa a atalhar o amadorismo com um domínio profissional da filosofia. Esta é uma tarefa que urge levar a cabo. Contudo, não se pode ficar tão envergonhado pelo amadorismo vigente que se procure coarctar toda a especulação filosófica, reduzindo a filosofia ao relato anódino das ideias alheias. Ninguém aprende a filosofar depois de passar anos a aprender a relatar ideias alheias de forma acrítica. Só se pode aprender a filosofar se o aprendermos de forma activa, interrogando a cada passo as ideias dos filósofos, discutindo com os nossos pares, avançando ideias próprias. É uma ilusão pensar que primeiro os estudantes aprendem a repetir e a compreender as ideias de Kant ou Heidegger e só depois passam à fase crítica de avaliar a plausibilidade dessas ideias; fazer isso é afastar desde logo os estudantes mais talentosos, que não têm evidentemente paciência para o repetitorium sonâmbulo. É necessário aproveitar a vontade de filosofar dos estudantes, mas ao mesmo tempo fazer-lhes ver que não se pode estar a reinventar a roda — é preciso conhecer o que os outros filósofos, do passado e do presente, têm pensado, para que as nossas ideias sejam realmente frutíferas.

Se for necessário escolher, é preferível ter filósofos baratos, muito inventivos mas ignorantes e um pouco tolos até, a ter um batalhão de repetidores competentes mas anódinos. Nunca foram estes últimos que fizeram avançar a filosofia, nem os primeiros. Mas se tivermos um sistema de ensino todo virado para desencorajar o pensamento autónomo por se ter medo do "crackpot", nunca se terá realmente filósofos. Ao passo que se o sistema de ensino estimular o pensamento autónomo, poderá inadvertidamente encorajar alguns tolos ignorantes, que serão evidentemente ignorados pelos profissionais, mas tem a grande vantagem de estimular a existência de verdadeiros filósofos.

Uma das características mais memoráveis da minha licenciatura em filosofia em Portugal é que nunca ninguém me perguntou o que pensava eu. Coisa que eu hoje pergunto aos meus alunos de licenciatura em Londres, pois essa é a pergunta fundamental para estimular os estudantes a dar os primeiros passos no caminho da filosofia. Mas não se pode perguntar a nenhum aluno o que pensa ele do aborto, ou da ética de Kant, ou do essencialismo de Aristóteles, ou da teoria política de Rawls se não lhe dermos os instrumentos, as competências e os conteúdos que lhe permitam dar uma resposta pessoal mas informada, reflectida e baseada em amplo conhecimento da filosofia e em sólidos argumentos filosóficos.

Desidério Murcho
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